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17 de ago de 2010

Coração Louco


No cinema, o que a figura de uma mãe solteira, bonita e independente não faz com a cabeça de um homem? Sinceramente, eu não entendo como tantos filmes vendem essas personagens como mulheres fortes e determinadas, usadas unicamente como catalisadoras de uma mudança radical no comportamento de um personagem masculino da mesma história – na maioria das vezes, o protagonista. A figura da mãe solteira se tornou um exemplo de redenção, um estereótipo pronto e embalado, alguém em quem o protagonista “perdido” ou “iludido” se apóia para se reerguer e dar outro sentido à própria vida. São vários filmes que podem ser citados para comprovar a tese: o workaholic Tom Cruise passa a dar valor aos detalhes quando conhece Renée Zellweger em “Jerry Maguire”; “Um Grande Garoto” transforma completamente a rotina do almofadinha Hugh Grant quando ele conhece o menino e sua mãe; Mickey Rourke e Ben Foster se sentem pessoas valorizadas ao se depararem com Marisa Tomei e Samantha Morton, respectivamente nos atuais “O Lutador” e “O Mensageiro”, e por aí vai. Todos esses filmes são belos exemplares, mas o papel que as personagens femininas citadas desempenham é previsível demais a ponto de sabermos que suas inserções nas tramas são apenas para trazer equilíbrio à mente bagunçada dos personagens centrais.


Basicamente o mesmo se aplica a “Coração Louco”, que traz Maggie Gyllenhaal e seu filho pequeno mudando completamente o caminho pelo qual o protagonista alcoólatra escolheu percorrer. Se o romance entre eles acaba ofuscando outras opções mais interessantes que o roteiro poderia focar, a sorte é que o filme encontra forças na excelente performance de Jeff Bridges, que apesar das irregularidades que o cerca, consegue carregar o projeto nas costas. Escrito pelo estreante Scott Cooper, “Coração Louco” nos apresenta a Bad Blake (Bridges), um cantor country decadente que se encontra em turnê por bares sulistas dos Estados Unidos. Em uma das cidadezinhas que se apresenta, ele conhece Jean (Gyllenhaal), uma jornalista divorciada interessada em entrevistá-lo para um jornal local. Daí nasce uma relação amorosa entre eles, mas a dependência de Blake ao álcool e tabaco é um problema para a repórter, que dá o ultimato a ele de interromper o vício se deseja prosseguir com o relacionamento.


Diante dessa sinopse, é impossível não tecer comparações entre “Coração Louco” e “A Força do Carinho”, filme da década de 1980 dirigido por Bruce Beresford. Ambos contam a história de intérpretes da música country famosos no passado, cujas carreiras se encontram em queda livre. Os dois são alcoólatras convictos, mas desejam se recuperar em virtude de uma figura feminina que cruza seus caminhos – no outro filme, interpretada pela atriz Tess Harper. Outro ponto em comum – agora, mais pessoal – é de que, se falham como narrativa, a força de ambos os filmes reside na interpretação acolhedora de seus protagonistas. Robert Duvall, que faz pequenas pontas em “Coração Louco”, certamente deu várias dicas para Jeff Bridges que, como bom aluno, também é muito convincente no papel principal. O resultado reflete nas premiações: os dois foram agraciados com o Oscar de Melhor Ator pelos personagens-irmãos. E não é pra menos, embora minha torcida fosse para Colin Firth por “Direito de Amar”, parece que Bridges foi feito sob medida para o papel de Bad Blake (ou vice-versa), conferindo mais autenticidade ao adicionar costumes que enriquecem o sujeito, como o olhar poucas vezes direcionado ao “alvo” em alguma situação desconfortável ou a decisão de afrouxar os cintos das calças ao dirigir, por exemplo.



Outro ponto a se destacar em “Coração Louco” são as canções. Diferentemente de “A Força do Carinho”, que não possui nenhuma música composta exclusivamente para o filme, Jeff Bridges fez questão de interpretar todas as músicas originais que seu personagem canta nos palcos, revelando-se além de um ator talentoso – algo que todos já tinham conhecimento – um cantor afinado. No playlist ao lado da excelente “The Weary Kind” – que faturou o Oscar na categoria musical – as performances de “Somebody Else”, “I Don’t Know” e “Falling and Flying”, em que Bridges divide o palco com o ator Colin Farrell, também merecem destaques. Dessa forma, em vez de concentrar a trama na relação do cantor falido com a música, eis que surge a tal mãe solteira na história, que passa a dividir o holofote com o personagem central.


Não repreendo a inclusão da personagem de Maggie Gyllenhaal na história, até porque ela desempenha um papel importante que afeta decisivamente as opções do protagonista – sem falar que o filme é baseado em um livro e descartar Jean da história seria burrice –, nem faço descaso de sua atuação, que se revela adequada para a personagem. A frustração com a qual me deparo é que o roteiro de Cooper se ampara na comodidade e prefere o óbvio ao enquadrar o romance como principal mote da história, em vez de, por exemplo, focar no comportamento do cantor diante da fama efêmera ou o envolvimento de Bad Blake com seu filho que ele jamais conheceu, que em certo momento do filme, resolve ligar para tentar marcar um encontro com o rapaz, que nega qualquer interesse em encontrar o verdadeiro pai – essa seria até uma opção interessante e que enterraria de vez a piada que foi “Estrela Solitária”, o pior filme do Wim Wenders.


“Coração Louco” tem um personagem central forte, mas acaba sendo desperdiçado pelas preferências errôneas do roteiro. O filme não é uma decepção, mas acaba sendo um desperdício.



NOTA: 6,0



CORAÇÃO LOUCO (Crazy Heart) EUA, 2009

Direção e Roteiro: Scott Cooper

Elenco: Jeff Bridges, Maggie Gyllenhaal. Robert Duvall, Colin Farrell e Jack Nation

12 comentários:

Gui Barreto disse...

Oi Elton,

Concordo plenamente com seu texto. Acredito que o potencial interpretativo de Bridges é o que compensa o roteiro conveniente demais. Mesmo sendo o filho da personagem de Maggie um arquétipo de seu próprio filho (e a mudança de vida se dar principalmente após Bad perder o garoto - o que o faz pensar na própria relação de distanciamento com seu filho), acho que seu conflito familiar poderia ter sido mais explorado...Mas é um ótimo filme...acho que 6,0 é muito pouco...eu daria 7,5....

Abrs

@Raspante disse...

Cara, é tudo questão de lógica. Se uma mulher é batalhadora, consegue cuidar de seu filho sozinha, com certeza saverá lidar com um velho alcóolotra e em decadência, entende ?
Ok. Foi apena uma piadinha #Fail, mas imagino que os roteiristas pensam isso.
Gostei de Coração Louco, mais é um filme que eu esperava mais, em termos de roteiro principalmente. Gostei bastante da atuação de Bridges, mesmo preferindo a de Firth, mais Ok.
Coração Louco é um bom filme, com uma história bacana, não vejo algo mais além que isso..

Mayara Bastos disse...

Curiosa por este filme, gosto muito do Jeff Bridges. ;)

cleber eldridge disse...

E lá se vai mais uma estatueta pras mãos erradas, o filme, é menos do que poderia ser. Tanto a história quanto a abordagem do diretor ao tema são comuns, baseados em clichês. O destaque fica mesmo por conta de Bridges, que desaparece sob a pele de Bad Blake.

Reinaldo Glioche disse...

É o tal do filme de ator. O roteiro é mera plataforma nesse caso. Quanto a figura da mãe solteira, é mais ou menos o que o Alan falou. Repare que a figura está fortemente ligada ao cinema independente. É uma figura que marca. Que impressiona. Sim, porque há muitas mulheres fortes que foram mães solteiras e criaram filhos bem sucedidos. Como há o oposto também, como pudemos ver em Preciosa. O cinema independente se retroalimenta dessa figura. Enfim, pano para a manga...
abs

pseudo-autor disse...

Um veículo para um ator fantástico mostrar seu indiscutível talento. Finalmente a academia reconheceu a capacidade artística de Jeff Bridges. Bad Blake consegui despertar em mim antigos sonhos!

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

leo disse...

Gosto desse filme pela simplicidade de sua execução,acho que tem lá suas falhas no roteiro,mas nada que perca seu charme.
Jeff Bridges dá um show e Maggie Gylenhaal ótima e linda de morrer.

Clenio disse...

Um filme-veículo para que o grande ator Jeff Bridges finalmente levasse seu merecido Oscar.
Ainda assim, apesar da enxurrada de clichês do roteiro, é um exemplo de como contar uma história simples e sem maiores ambições temáticas.
Um filme longe de ser espetacular, mas tampouco merecedor de uma nota 6... Eu daria um 7.5, também.

Grande abraço
Clênio
www.lennysmind.blogspot.com
www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com

Cristiano Contreiras disse...

Um filme que, infelizmente, ainda não conferi. Muitos me indicaram e li opiniões diversas, mas confesso que achei a premissa meio clichenta, rs. Teu texto é bem coerente com meu ponto de vista, ainda que não tenha visto o filme...nunca fui fã do Bridges, verdade seja dita e acho que, definitivamente, Colin Firth tenha melhor atuação que ele mesmo.

Abraço

Rodrigo Mendes disse...

Ola Elton..Coração Louco foi uma surpreza para mim. Um filme interessante e muito bem conduzido.

Revendo creio mesmo que o Jeff Bridges mereceu o Oscar. Afinal ele foi por outras vezes ofuscado pela Academia.

Ótima resenha.

Eu acabei perdendo o recente programa Cinema Falado. Estive fora o dia todo=// e justamente o papo foi o clássico do Lucas THX 1138. Quando vocês irão disponibilizar a gravação do programa na comumidade do Orkut? obrigado.

Abs!
Rodrigo

Elton Telles disse...

Gui: Valeu, cara! Foi o enfoque do roteiro como um todo que me deixou meio desmotivado, mas o filme é compensado nas atuações e na autenticidade que retrata a história. Mas se não fosse por Jeff Bridges, acho que se encaixaria perfeitamente no perfil de um telefilme.


Hahaha Alan, compartilhamos a mesma opinião. Nada a mais de um bom filme que não será esquecido unicamente pelas atuações - embora Firth esteja melhor, como tu mesmo diz =)


Mayara: veja!


Cleber: perfeito!


Exatamente, Reinaldo. É um filme de um ator só, mas a trajetória de seu personagem torna-se menos envolvente por conta do roteiro lugar comum. E realmente a figura amterna solteira "assombra" o cinema independente, o que é uma pena estabelecer um esteriótipo tão embalado para essas mulheres.


Pseudo: não se sentiu vendo Robert Duvall? Bridges arrebentou!


Leo: Bridges realmente dá um show, agora quanto aos termos de beleza À Gyllenhaal hahaha, ela é mesmo uma ótima atriz, que foi reconhecida pelo filme errado, mas ainda, ótima atriz.


Clenio, concordo com vc quando diz que é uma maneira de contar uma história sem firulas e tal, visto que diretores estreantes geralmente querem fazer o "Cidadão Kane" e abusam dos estilos técnicos e tal. Cooper merece créditos pela convenconalidade, mas se debruçar sobre ela não era a melhor opção, e é isso que sinto quando vejo "Coração Louco".


Valeu, Cris! Assista "O Grande Lebowsky" e você virará um fã de Jeff Bridges em 2 horas =)


Rodrigo: ah sim, se for pelas injustiças do passado, Bridges merecia mesma aquela estatueta, sem contar que sua atuação é facilmente o carro-chefe do filme. Valeu pelo seu comentário!

Ah! eu citei teu nome no programa hehe, seu comentário do filme no meu blog. E acredita que deu problema no programa do pc para gravar? Infelizmente, não terá reprise e nem download de "THX 1138" =/ e o programa ficou muito legal, mas enfim. Assim como você, ADOREI o filme. Puta filmaço, o melhor de Lucas =)


ABS A TODOS!

Wally disse...

Apesar de não ter gostado de algumas coisas, me apaixonei pelos personagens, pelas atuações e pelo desenvolvimento afetuoso da história.