
É inegável que os irmãos Joel e Ethan Coen sustentam uma das filmografias mais prolíficas do cinema contemporâneo. Fiéis a um estilo próprio que patentearam ao longo dos anos, é admirável a hábil transição de gêneros com que a dupla vem construindo sua carreira, sem deixar, no entanto, de empregar uma visão particular aos universos que concebem, geralmente sustentados por peculiaridades que fogem do padrão tradicional. É igualmente interessante e curioso o prestígio e respeito conquistado não apenas entre grande parcela da crítica, mas também a aprovação do público, que de uns anos para cá, se mostrou interessado pelos filmes “subversivos” dos irmãos, promovendo-os a absolutos sucessos de bilheteria. Após o merecido Oscar por “Onde os Fracos Não Têm Vez”, os Coen ganharam popularidade, e isso é comprovado pelo faturamento comercial da comédia lançada em 2008, “Queime Depois de Ler” – 60 milhões – e de seu mais novo trabalho, o remake da obra homônima de 69, “Bravura Indômita”. O retorno positivo deste último não representa um grande evento, mas é marcante se considerarmos que o novo filme da dupla foi vendido como um congênere do “faroeste clássico”. E convenhamos que para um gênero relegado no cinema recente atrair um significativo número de espectadores, que, ao todo contabiliza aproximados US$ 163 milhões somente nos Estados Unidos - a maior arrecadação dos 27 anos que estão em atividade – é um acontecimento e tanto.
Mas se por um lado fico contente com o reconhecimento, por outro, é impossível esconder o desapontamento por saber que o ápice da carreira dos Coen vem a ser com um dos exemplares mais inexpressivos do repertório artístico dos irmãos. Despindo-se da austeridade que caracteriza alguns de seus trabalhos mais memoráveis e exibindo baixo teor de ousadia em um enredo que casaria perfeitamente com uma típica abordagem incrédula, os diretores se resguardam ao optar por um tratamento convencional à trama. Essa escolha não significa exatamente um demérito, mas, da mesma forma, limita o desenvolvimento de alinhar a belíssima forma ao conteúdo pasteurizado.
Escrito pelos próprios, baseado no livro de Charles Portis, “Bravura Indômita” conta a história da destemida Mattie Ross (Steinfeld), uma garota de 14 anos que contrata o agente mais perigoso de Fort Smith, o beberrão Rooster Cogburn (Bridges), para encontrarem o covarde Tom Chaney (Brolin), autor do assassinato a sangue frio do pai da menina. Em meio à região montanhosa de Arkansas durante o inverno cortante, os dois partem à procura do criminoso, contando também com a colaboração do Texas Ranger LaBoeuf (Damon), que está atrás de Chaney há meses, de olho em uma recompensa gorda oferecida pelo Estado.
Em entrevistas para promover o filme, os Irmãos Coen disseram que o filme está mais para uma releitura da obra de Portis do que, essencialmente, um remake do faroeste protagonizado por John Wayne – que lhe rendeu um Oscar de Melhor Ator, com pinta de Honorário. No entanto, as comparações entre ambos são inevitáveis. Enquanto a produção de Henry Hathaway converte a história da garota em busca de justiça – ou vingança – em uma aventura com direito a cavalgadas intermináveis e uma trilha sonora empolgante – composta pelo gênio Elmer Bernstein –, a versão dos Coen se debruça em um drama com clima mais sombrio, reflexivo, com ritmo linear e diálogos mais bem elaborados. Infinitamente mais maduro e profundo do que o filme de 69, “Bravura Indômita”, contudo, substitui a mastigação pedante do original por uma verborragia desnecessária, denotando o oportunismo dos roteiristas em encaixar certas informações requeridas pela obra literária em qualquer “buraco” do script, como o momento em que Cogburn conta o episódio em que roubou um banco à Mattie em pleno posicionamento de ataque sobre uma colina. Isso sem mencionar as desavenças entre o federal e LaBoeuf forçadas pelo roteiro, cuja única clara intenção é afastar o personagem de Damon para que o mesmo retorne, cenas depois, em um momento de perigo em que os protagonistas necessitam de ajuda.
Beneficiado por um elenco homogeneamente eficaz, Jeff Bridges faz o possível para não se render completamente à caricatura natural de seu personagem embrutecido, e é bem sucedido nesse quesito, embora soe invariavelmente prosaico em algumas situações. O ator acerta nas soluções encontradas para rodear os estereótipos que sua figura carrega sem render integralmente a eles. Enquanto isso, Matt Damon empresta o sotaque texano para compor o sensível policial que, a princípio, se apresenta como uma barreira para a captura do bandido, mas logo se revela um verdadeiro cúmplice para a missão dos protagonistas. Indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante quando, na verdade, é a grande protagonista da história, Hailee Steinfeld estreia no cinema exibindo segurança em um papel dramático que exige habilidade da intérprete, e a novata de 14 anos se sai admiravelmente bem na composição de Mattie, alternando com naturalidade a teimosia e persistência de lutar com a fragilidade e insegurança típicas de uma garota tão nova, vinda do campo. E se Josh Brolin nada faz aqui, devo destacar a curta, porém excelente aparição do irreconhecível Barry Pepper como o fora-da-lei Lucky Ned Pepper, que para um bandido temido se revela um homem atencioso para ouvir os relatos da jovem.
Aliás, a tridimensionalidade dos personagens é um dos pontos positivos do roteiro de “Bravura Indômita”. Se muitos espectadores ficarão insatisfeitos pela ausência de cenas aventureiras e de combate – que para um filme que se vende “faroeste”, é mesmo um chute no saco –, ao menos, não podem reclamar do desenvolvimento pessoal de cada personagem, que apoiados em boas atuações, se mostram não apenas figuras representadas, mas seres humanos afundados em sua complexidade.
Emoldurado em uma fotografia magnífica concebida pelo veterano Roger Deakins – parceiro habitual da dupla – e embelezado pela trilha sonora pura e nostálgica do ótimo Carter Burwell, “Bravura Indômita” ganha pontos por retratar uma narrativa ultrapassada com lucidez, mas é sacrificado pela monotonia excessiva e perde o tom devido ao conformismo desestimulante da direção. Alguns ainda teimam em identificar certas “marcas registradas” dos irmãos cineastas no filme, mas, pra mim, precisa muito mais do que um indígena enforcado na árvore sem motivo aparente ou um homem vestindo couro de urso para me convencer de que este é um Coen autêntico.
NOTA: 6,0
BRAVURA INDÔMITA (True Grit) EUA, 2010
Direção e Roteiro: Joel e Ethan Coen
Elenco: Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon, Josh Brolin e Barry Pepper








