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16 de fev. de 2011

Bravura Indômita


É inegável que os irmãos Joel e Ethan Coen sustentam uma das filmografias mais prolíficas do cinema contemporâneo. Fiéis a um estilo próprio que patentearam ao longo dos anos, é admirável a hábil transição de gêneros com que a dupla vem construindo sua carreira, sem deixar, no entanto, de empregar uma visão particular aos universos que concebem, geralmente sustentados por peculiaridades que fogem do padrão tradicional. É igualmente interessante e curioso o prestígio e respeito conquistado não apenas entre grande parcela da crítica, mas também a aprovação do público, que de uns anos para cá, se mostrou interessado pelos filmes “subversivos” dos irmãos, promovendo-os a absolutos sucessos de bilheteria. Após o merecido Oscar por “Onde os Fracos Não Têm Vez”, os Coen ganharam popularidade, e isso é comprovado pelo faturamento comercial da comédia lançada em 2008, “Queime Depois de Ler” – 60 milhões – e de seu mais novo trabalho, o remake da obra homônima de 69, “Bravura Indômita”. O retorno positivo deste último não representa um grande evento, mas é marcante se considerarmos que o novo filme da dupla foi vendido como um congênere do “faroeste clássico”. E convenhamos que para um gênero relegado no cinema recente atrair um significativo número de espectadores, que, ao todo contabiliza aproximados US$ 163 milhões somente nos Estados Unidos - a maior arrecadação dos 27 anos que estão em atividade – é um acontecimento e tanto.

Mas se por um lado fico contente com o reconhecimento, por outro, é impossível esconder o desapontamento por saber que o ápice da carreira dos Coen vem a ser com um dos exemplares mais inexpressivos do repertório artístico dos irmãos. Despindo-se da austeridade que caracteriza alguns de seus trabalhos mais memoráveis e exibindo baixo teor de ousadia em um enredo que casaria perfeitamente com uma típica abordagem incrédula, os diretores se resguardam ao optar por um tratamento convencional à trama. Essa escolha não significa exatamente um demérito, mas, da mesma forma, limita o desenvolvimento de alinhar a belíssima forma ao conteúdo pasteurizado.

Escrito pelos próprios, baseado no livro de Charles Portis, “Bravura Indômita” conta a história da destemida Mattie Ross (Steinfeld), uma garota de 14 anos que contrata o agente mais perigoso de Fort Smith, o beberrão Rooster Cogburn (Bridges), para encontrarem o covarde Tom Chaney (Brolin), autor do assassinato a sangue frio do pai da menina. Em meio à região montanhosa de Arkansas durante o inverno cortante, os dois partem à procura do criminoso, contando também com a colaboração do Texas Ranger LaBoeuf (Damon), que está atrás de Chaney há meses, de olho em uma recompensa gorda oferecida pelo Estado.

Em entrevistas para promover o filme, os Irmãos Coen disseram que o filme está mais para uma releitura da obra de Portis do que, essencialmente, um remake do faroeste protagonizado por John Wayne – que lhe rendeu um Oscar de Melhor Ator, com pinta de Honorário. No entanto, as comparações entre ambos são inevitáveis. Enquanto a produção de Henry Hathaway converte a história da garota em busca de justiça – ou vingança – em uma aventura com direito a cavalgadas intermináveis e uma trilha sonora empolgante – composta pelo gênio Elmer Bernstein –, a versão dos Coen se debruça em um drama com clima mais sombrio, reflexivo, com ritmo linear e diálogos mais bem elaborados. Infinitamente mais maduro e profundo do que o filme de 69, “Bravura Indômita”, contudo, substitui a mastigação pedante do original por uma verborragia desnecessária, denotando o oportunismo dos roteiristas em encaixar certas informações requeridas pela obra literária em qualquer “buraco” do script, como o momento em que Cogburn conta o episódio em que roubou um banco à Mattie em pleno posicionamento de ataque sobre uma colina. Isso sem mencionar as desavenças entre o federal e LaBoeuf forçadas pelo roteiro, cuja única clara intenção é afastar o personagem de Damon para que o mesmo retorne, cenas depois, em um momento de perigo em que os protagonistas necessitam de ajuda.



Beneficiado por um elenco homogeneamente eficaz, Jeff Bridges faz o possível para não se render completamente à caricatura natural de seu personagem embrutecido, e é bem sucedido nesse quesito, embora soe invariavelmente prosaico em algumas situações. O ator acerta nas soluções encontradas para rodear os estereótipos que sua figura carrega sem render integralmente a eles. Enquanto isso, Matt Damon empresta o sotaque texano para compor o sensível policial que, a princípio, se apresenta como uma barreira para a captura do bandido, mas logo se revela um verdadeiro cúmplice para a missão dos protagonistas. Indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante quando, na verdade, é a grande protagonista da história, Hailee Steinfeld estreia no cinema exibindo segurança em um papel dramático que exige habilidade da intérprete, e a novata de 14 anos se sai admiravelmente bem na composição de Mattie, alternando com naturalidade a teimosia e persistência de lutar com a fragilidade e insegurança típicas de uma garota tão nova, vinda do campo. E se Josh Brolin nada faz aqui, devo destacar a curta, porém excelente aparição do irreconhecível Barry Pepper como o fora-da-lei Lucky Ned Pepper, que para um bandido temido se revela um homem atencioso para ouvir os relatos da jovem.

Aliás, a tridimensionalidade dos personagens é um dos pontos positivos do roteiro de “Bravura Indômita”. Se muitos espectadores ficarão insatisfeitos pela ausência de cenas aventureiras e de combate – que para um filme que se vende “faroeste”, é mesmo um chute no saco –, ao menos, não podem reclamar do desenvolvimento pessoal de cada personagem, que apoiados em boas atuações, se mostram não apenas figuras representadas, mas seres humanos afundados em sua complexidade.

Emoldurado em uma fotografia magnífica concebida pelo veterano Roger Deakins – parceiro habitual da dupla – e embelezado pela trilha sonora pura e nostálgica do ótimo Carter Burwell, “Bravura Indômita” ganha pontos por retratar uma narrativa ultrapassada com lucidez, mas é sacrificado pela monotonia excessiva e perde o tom devido ao conformismo desestimulante da direção. Alguns ainda teimam em identificar certas “marcas registradas” dos irmãos cineastas no filme, mas, pra mim, precisa muito mais do que um indígena enforcado na árvore sem motivo aparente ou um homem vestindo couro de urso para me convencer de que este é um Coen autêntico.


NOTA: 6,0


BRAVURA INDÔMITA (True Grit) EUA, 2010
Direção e Roteiro: Joel e Ethan Coen
Elenco: Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon, Josh Brolin e Barry Pepper

12 de fev. de 2011

Cisne Negro


Se traçarmos um paralelo entre os quatro filmes anteriores que compõem a curta filmografia do diretor Darren Aronofsky e o seu último, “Cisne Negro”, é possível identificarmos alguns aspectos ressonantes ao núcleo principal desta obra. A obsessão doentia pelo matemático que entra em colapso mental no obscuro “Pi”; o vício deteriorante dos personagens infelizes que povoam o chocante “Réquiem para um Sonho”; a dedicação integral do cientista vivido por Hugh Jackman no belo “Fonte da Vida”; e a exposição do corpo aos sacrifícios que peleja “O Lutador” de Mickey Rourke para chegar à forma. Guardadas as devidas proporções, essas também são algumas submissões que a insegura personagem central de “Cisne Negro”, a jovem bailarina Nina Sayers (Portman) enfrenta – involuntariamente, em alguns casos – para consagrar uma performance nos palcos sem deixar vestígios de erros. O combustível que a move – e desloca Nina para um pesadelo extremo – é o objetivo de ser perfeita. Partindo de um conceito amplamente subjetivo e inalcançável em muitas ocasiões, Aronofsky mais uma vez localiza seus personagens em momentos de insanidade, submerge sua câmera no psicológico corrompido da protagonista e convida o espectador a um verdadeiro e fascinante espetáculo de horrores, fruto das loucuras comportamentais e dos delírios violentos antes sufocados por Nina, que no filme despertam e são externalizados pela garota com fúria absoluta.

Todos os sentimentos reprimidos pela jovem, seja por conta da rígida educação da mãe controladora ou talvez pelas próprias limitações que impunha a si mesma, ganham nova dimensão e se “materializam” em devaneios assombrosos que chegam a ponto de fundir-se com a realidade. E é justamente nessa amálgama de acontecimentos envolvendo o real atrelado à mente conturbada de Nina que “Cisne Negro” se revela um filme tão inspirado e entorpecedor. A estrutura do pensamento remete a David Lynch, sobretudo o ousado “Império dos Sonhos”, cuja protagonista vivida por Laura Dern é uma atriz que adota nova personalidade devido à concentração intensiva que dá à sua personagem no filme dentro do filme, o que não se difere muito daqui. Nina está tão concentrada em interpretar Odile, a irmã malvada do Cisne Branco e uma das personagens fundamentais da produção “O Lago dos Cisnes”, que a bailarina acaba ganhando características físicas da ave e agindo de maneira estranha, conforme o perfil sedutor e agressivo do tal Cisne Negro do título.

Além das tentativas de superar as próprias exigências, Nina se depara com três fatores externos que, vistos pela protagonista como uma ameaça para que ela atinja a perfeição, funcionam como um motor que intensifica seu quadro de loucura. Um deles, naturalmente, é o diretor artístico da produção, Thomas Leroy (Cassel, excelente), um profissional crítico e exigente, que vê potencial em Nina, mas reclama com frequência dos passos fundados no classicismo e no rigor estético matematicamente calculado da bailarina ao se apresentar, o que vai de encontro com a sensualidade e caráter explosivo do Cisne Negro. Dentro de casa, a figura da mãe opressora, em quem Nina se espelha inversamente, pois tendo sido também uma bailarina no passado, Erica (Hershey, espetacular) fracassou como dançarina e abandonou a carreira nos palcos para se dedicar à maternidade – aliás, há uma cena fabulosa que se transforma em uma luta de egos entre mãe e filha, quando uma se vê logo rebaixada, aponta a fragilidade da outra para se sobressair. E, por fim, a presença da bela e hedonista Lily (Kunis, de tirar o fôlego), uma das bailarinas da mesma companhia que ambiciona “roubar” o papel principal do espetáculo das mãos / asas de Nina.

A despeito de Winona Ryder, que se perde no overacting, o elenco de apoio é irretocável, exibindo um dinamismo em cena que impressiona. Grande contribuição, inclusive, se deve ao soberbo trabalho de Darren Aronofsky, finalmente sendo reconhecido pela competência que vem demonstrando há pouco mais de uma década – a tardia indicação ao Oscar de Melhor Diretor fala por si. Aronofsky é conhecido por extrair o máximo de seus atores, sendo não apenas habilidoso na condução da história, mas atencioso e detalhista ao explorar seu elenco. Porém, mais que isso, o diretor recusa a abordagem como simples testemunha, optando por mergulhar de cabeça – assim como sua protagonista – no mundo de balé, tanto em trazer o cotidiano das bailarinas para garantir mais autenticidade, como pela opção de transformar sua câmera em um mais um dançarino ao acompanhar os admiráveis movimentos de Nina, que atinge o ápice na sufocante e inesquecível sequência final, uma das mais acachapantes que conferi recentemente no cinema. Entregando uma mise em scène espetacular, Aronofsky ainda situa o espectador no inconsciente da bailarina, acompanhando todos os seus desequilíbrios sem perder o tom e ainda é feliz por provocar e permanecer uma constante sensação de mistério que acompanha o filme – como a opção de vários personagens surgindo de âmbitos escuros, mais uma referência a Lynch, e que o fotógrafo Matthew Libatique capta com perfeição.



Vale destacar a interessante relação do diretor com os espelhos que decoram diversos cômodos, tanto na casa, como na companhia de dança. A interpretação varia, porém observo que os reflexos anunciam significados mais densos que mereciam uma parte 2 da crítica para ser explicado. Essa preocupação com os detalhamentos só reforça a brilhante direção de Aronofsky, que vem a cada projeto se confirmando como um dos melhores de sua geração. E já falando nos espelhos, que, grosso modo, encaro um obstáculo que impede Nina de respirar e enxergar outro mundo a não ser o do balé, o design de produção de “Cisne Negro” oferece um trabalho genial, pois solidifica as ideias da história, como o realce das obsessões compartilhadas pela protagonista. Percebam a cena em que ela toma banho na banheira a presença de um quadro com dois patos brancos posicionado sobre sua cabeça, ou até mesmo em seu quarto, rodeado de ursos de pelúcias indicando sua meiguice, o momento em que decide seguir os conselhos de Thomas e se masturbar, um urso de cisne negro aparentemente a encarando como se reafirmasse “sweet girl”. Sem contar o porta-jóias com a bailarina e o toque do celular com a música-tema de Tchaikovsky, elementos que aprisionam a bailarina em um mundo do qual nem a própria parece ter intenções de sair – nem que isso a leve à autodestruição.

Abraçando as questões psicológicas e complexas da personagem com total convicção, Natalie Portman incendeia a tela com sua atuação visceral e de total entrega, em um dos melhores trabalhos de composição de personagem que vi neste ano. É fantástico perceber como a atriz incorpora toda a insegurança de Nina, mas se revela verdadeiramente assustadora em outras cenas, algumas vezes até no mesmo take, como a cena no camarim – sinto o frio na espinha só de lembrar. Isso sem falar no esforço físico de aprender as técnicas desse dificílimo esporte no intervalo de um ano – claro, com a ajuda de dublês, a via crúcis fica mais fácil, mas se Portman não aprendeu, devo confessar, que é ainda mais admirável por ter sido tão convincente.

Dessa forma, unindo dois trabalhos fabulosos e que encontraram a química perfeita, o sucesso de “Cisne Negro” e o reconhecimento na temporada de premiações – 5 míseras indicações ao Oscar, merecia mais... – se dá principalmente à catarse do diretor ao lado de sua atriz em estado de graça. Se ao final de “Bastardos Inglórios”, o diretor Quentin Tarantino reconhece que talvez esteja diante de sua obra-prima, a última fala de Natalie Portman em “Cisne Negro”, eu diria, não se limita apenas à personagem, mas também ao seu desempenho espetacular no filme. Quem viu, sabe.


NOTA: 9,5


CISNE NEGRO (Black Swan) EUA, 2010
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Mark Heyman, Andrés Heinz e John McLaughlin
Elenco: Natalie Portman, Vincent Cassel, Mila Kunis, Barbara Hershey e Winona Ryder

7 de fev. de 2011

O Vencedor


Em uma desses vários cartazes de campanha para as premiações, os chamados FYC (For Your Consideration), que objetiva chamar a atenção de votantes dos mais diversos círculos e associações para que reconheçam a qualidade do filme ou algum trabalho interno da produção, deparei-me com este em que um crítico exalta “O Vencedor” como um mix satisfatório de “Rocky” com “Um Sonho Possível” – e colocaram “Os Infiltrados”, do Scorsese, no balaio sem motivo aparente. A ligação com a história romanceada do pugilista interpretado por Stallone é óbvia, já que “O Vencedor” também é ambientado em um bairro de classe trabalhadora e seu protagonista é um boxeador que luta (literalmente) pelo reconhecimento de sua carreira. O que fez grande parte dos cinéfilos torcerem o nariz foi a menção ao filme de Sandra Bullock, que transformou uma bela história real de perseverança em uma enxurrada de clichés acovardados, comprovando ser uma legítima armadilha sentimental. Entretanto, para manter o equilíbrio, a interessante equipe de envolvidos na criação artística de “O Vencedor” assinalava um motivo suficiente para dar chances ao drama. O resultado final não foge do esperado: um trabalho bem realizado, com os alicerces fortificados em aspectos convencionais e estereotipados dos “filmes de superação”, uma distinção que parece, a cada ano, se consolidar como um gênero. No mais, se reproduz chavões aqui e acolá, por outro lado, o filme se torna compensatório e cativante pelos esforços do diretor e por um elenco impecável.

Roteirizado a oito mãos, “O Vencedor” se baseia na história real do revestidor de calçadas Micky Ward (Wahlberg), que nas horas de descanso, veste suas luvas e sobe ao ringue para ser treinado pelo irmão, Dicky Ward (Bale), um antigo boxeador que já vivenciou seus dias de glória, mas hoje se encontra rendido pelas drogas. Em uma de suas disputas agendadas, de última hora seu oponente fica gripado e incapaz de lutar, mas Micky é convencido pelo irmão treinador e pela mãe empresária, Alice (Leo), de que ele não pode desistir à essa altura. Humilhado em cima do ringue por um adversário mais forte e com peso superior ao seu, o rapaz encontra confiança nos braços da namorada Charlene (Adams), que não demora muito para perceber os abusos da família do rapaz, pois o usa como estepe para faturar uns trocados. Surge uma relação conflituosa em que Micky se vê profundamente dividido entre a tradição familiar que sempre o ajudou – apesar dos interesses – e a escolha de alavancar sua carreira com o auxílio de profissionais do ramo, tese defendida pela mulher que ama.

Como se percebe pela sinopse descrita, “O Vencedor” não é um filme sobre boxe, mas utiliza o universo desse esporte para assentar sua história sobre companheirismo, persistência e desintegração familiar. A trama é conhecida, batida de muitos outros exemplares, mas as qualidades que diferenciam esse trabalho dos demais é o desempenho dos envolvidos e a maneira humanista e apaixonada de como o enredo é desenvolvido, sendo muito desses ganhos decorrentes da ótima condução do diretor David O. Russell. Vivendo sempre à margem de Hollywood, apesar dos bons filmes que preenchem seu currículo – entre eles, “Três Reis” e “Huckabees – A Vida é uma Comédia” –, até agora, este é o ápice de sua carreira. Alguns vão acusar O. Russell de trair sua pessoalidade com um drama tão banal, mas mesmo com um material gasto, a mão do diretor é determinante para o sucesso do filme, que não desvia todos os clichés, mas, ao menos, sua abordagem quase documental contorna e dá fôlego para boa parte deles.

Da mesma forma, o elenco em perfeita sintonia garante mais emoção e autenticidade a “O Vencedor”, suplantando a ideia de que até mesmo os estereótipos dos gêneros, se bem trabalhados, podem dar bom acabamento para uma história. E voilá! Absolutamente todos os personagens do filme são caricaturas, mas as representações dessas figuras ganham complexidade e se revelam atraentes devido aos trabalhos admiráveis dos atores. Mais uma vez se submetendo a transformações físicas para compor um personagem – vide “O Operário” e “O Sobrevivente” –, desta vez, Christian Bale emagreceu vários quilos e ficou semi-calvo para interpretar Dicky, um homem na casa dos 40 anos, que se vangloria por ter nocauteado o mito do boxe Sugar Ray Leonard – que faz uma pequena aparição no filme. Mas por trás de toda noção de estrelismo, esconde um irmão carente e atencioso, que ainda que se demonstre relapso e irresponsável com os treinos, ama Micky incondicionalmente. E nessa variante de hiperatividade, ternura e um pouco de agressividade, Bale se mostra como o verdadeiro protagonista do filme, dominando todas as cenas em que aparece e roubando todas as atenções pra si. Sua atuação irrepreensível encontra a parceria perfeita com a interesseira Alice, vivida com total entrega pela excelente Melissa Leo.



Amy Adams encontra em sua Charlene a oportunidade de se desfazer da imagem que a definiu da garota bonitinha, certinha e apaixonante – vide “Retratos de Família” e “Encantada”, interpretando uma jovem determinada que não leva desaforo para casa, nem que seja para resolver seus problemas na porrada. E Mark Wahlberg, também assumindo o posto de produtor do filme – assim como Darren Aronofsky, um dos produtores executivos da fita –, com seu personagem sensível, mas pouco exigente em questões de dramaticidade, assume total importância na trama por, além de ser o principal fator que move a história, também funciona como o elo catalisador que liga todos os demais personagens.

Enfraquecido pelas cenas de boxes pouco empolgantes e ainda por forçar a barra em algumas cenas, como a permanência de Dicky na prisão, que lhe dá o direito de assistir a um documentário na TV a cabo e a acompanhar a luta do irmão por telefone com a mãe – depois reclamam do sistema carcerário do Brasil... –, o filme é bem recriado pelo trabalho de figurino assinado por Mark Bridges e pelo visual cru, setentista, apesar de o filme se passar em 1993. Nomeado a 7 indicações ao Oscar, “O Vencedor” não é uma embriaguez de originalidade, nem nada, mas o lugar-comum do filme é muito bem executado a ponto de fazer o espectador acreditar que tudo é novidade.


NOTA: 7,0


O VENCEDOR (The Fighter) EUA, 2010
Direção: David O. Russell
Roteiro: Scott Silver, Paul Tamasy, Eric Johnson e Keith Dorrington
Elenco: Mark Wahlberg, Christian Bale, Amy Adams, Melissa Leo e Jack McGee

3 de fev. de 2011

Cinelista: As 10 Melhores Cenas de Striptease do Cinema


10) Jamie Lee Curtis em “True Lies” (1994)

“C*r*lh*, essa aí é a irmã do Michael Myers?!”, admira um adolescente de 15 anos. Do clássico de John Carpenter para um dos filmes de ação mais marcantes e mentirosos (a evidência está até no título) dos anos 90, a sensacional Jamie Lee Curtis não deixou sua imagem restrita apenas à rainha do grito que deu vida nos dois primeiros capítulos da série “Halloween” – depois voltaria 20 anos depois em mais duas sequências desnecessárias. A filha de Tony Curtis e Janet Leigh vingou no cinema revelando um timing cômico surpreendente, como o conferido em “True Lies”, filme do na’vi James Cameron antes de afundar o navio. Sinceramente, eu não conseguiria pensar em outra atriz para protagonizar essa sexy e divertida cena com a mesma desenvoltura com que Curtis a domina. Difícil é desgrudar os olhos de seu corpo perfeitamente esculpido, mas se o leitor conseguir, vai perceber nas próprias expressões da atriz que, por trás de toda a sensualidade desfilada pela personagem, esconde ali uma excelente comediante que está, obviamente, se divertindo. E não posso deixar de comentar as caras de sonso de Arnold Schwarzenegger, provando que nem para admirar a dança naturalmente hipnotizante, o cara convence.



9) Michael Ontkean em “Vale Tudo” (1977)

Talvez não seja o melhor filme de esportes, mas certamente o original “Vale Tudo”, dirigido por George Roy Hill, é um dos mais engraçados, feel good movies politicamente incorretos que já vi. É de se surpreender Paul Newman em um papel despretensioso como o técnico de hockey sarcástico e inesquecível pelas suas tiradas ofensivas dirigidas aos jogadores que treinava ou a quem pretendesse prejudicar seu time. No entanto, ainda com a contribuição do eterno “indomável” engrandecendo o filme, “Vale Tudo” não teria o mesmo apelo se não contasse com um ótimo time de comediantes em total sintonia, que dão o tom certo ao projeto. Entre eles, Michael Ontkean e seu striptease na pista de gelo enquanto os adversários se esmurram pelos desentendimentos da partida. Com o apoio da banda e aprovação do público feminino presente na arquibancada, Ontkean liga o “foda-se” para a competitividade do jogo fracassado e faz o seu show particular em uma cena hilária que desmoraliza a seriedade com que são encarados os torneios esportivos. Score!



8) Demi Moore em “Striptease” (1996)

Com merecimento, “Striptease” foi o grande vencedor do Framboesa de Ouro em 97, abocanhando 6 troféus, incluindo Pior Filme e Pior Diretor. Andrew Bergman, que dirigiu a parafernália, até foi receber pessoalmente a distinção pelo seu trabalho. Esse Cinelista não tem a intenção de avaliar o resultado da obra, e sim, levantar as melhores cenas de striptease do cinema. E, justiça seja feita, seria uma marmelada a ausência deste filme no ranking. Sem dublês, Demi Moore deixa o público do clube onde trabalha para levantar uma grana com o queixo caído, o que inclui Burt Reynolds dando aulas de canastrice. A performance selvagem e explosiva da dança atrelada ao “conjunto da obra” de Moore proporcionam a cena-chave da história, talvez a única que preste no meio disso tudo.



7) Linnea Quigley em “A Volta dos Mortos Vivos” (1985)

Quigley é considerada uma rainha dos filmes B dos anos 80. Entre seus sucessos, estão “A Noite do Demônio” e o aclamado pelos alternativos “Hollywood Chainsaw Hookers”, que conta a história de uma gangue de prostitutas armadas com serras elétricas para se defenderem dos clientes mal intencionados. How cool is that? Entretanto, Linnea Quigley só conseguiu esses papeis depois da ótima repercussão de sua Trash – o nome já diz muita coisa –, uma garota punk, de cabelos vermelhos e maquiagem pesada, que junto aos amigos, tentam fugir dos cadáveres ressuscitados por um gás tóxico na pacata Louisville em “A Volta dos Mortos Vivos”. A cena mais marcante do filme e que elevou a atriz à adoração dos nerds punheteiros foi a sequência em que, filosofando sobre a sensação de ser devorada por um zumbi, sobe em uma túmulo no cemitério e faz um striptease bizarro e escandaloso para a sorte daquelas criaturas que ainda não tiveram seus olhos consumidos por vermes terrestres. A cena é inesperada e fantástica, virou um clássico do trash. Na real, a atriz tem uma aparência meio piranha, mas gosto de sua personagem diferente neste filme, que não é a loira peituda, sempre em perigos. Isso se chama diversificar as opções artísticas. Ou não.

O YouTube não tem o vídeo disponível da cena específica do striptease, infelizmente, mas este é o início e já dá uma boa amostra do que esperar.



6) Kim Basinger em “9 ½ Semanas de Amor” (1986)

A cena do striptease de Kim Basinger em “9 ½ Semanas de Amor”, no auge de sua beleza, é icônica. Foi a partir daí que a música “You Can Leave Your Hat On” na voz do cantor Joe Cocker se tornou a clássica trilha sonora para tirar a roupa na frente do(a) companheiro(a). Um ambiente com a fotografia mergulhada em sombra propositalmente para não revelar tudo – talvez esse o segredo do melhor striptease: o não mostrar tudo –, a roupa que acompanha os movimentos do corpo perfeito e... Kim Basinger, né, acho que nem preciso ficar me prolongando sobre a beleza enfática da atriz, que, até hoje, aos 57, bate um bolão. Daí o leitor se pergunta: “oras, se a cena é tão boa assim, então por que está na 6ª posição”. Eu respondo: “Mickey Rourke”. Todo mundo está “entusiasmado” com o strip de Basinger e temos que aguentar o macaco de circo do Rourke, que mais parece estar assistindo a um filme de Chaplin ou fazendo caretas para um bebê sorridente do que vendo a atriz dançar, de tão over e mané que está em cena. Ao menos, Schwarzenegger na 10ª posição não rebaixava a cena; aqui, Rourke a torna semi-brochante. Troféu Abacaxi pra ele e para o diretor Adrian Lyne, que deve gargalhar quando sua esposa decide tirar a roupa e talz.



5) Sophia Loren em “Ontem, Hoje e Amanhã” (1963) e “Prêt-à-Porter” (1994)

O tempo foi muito generoso com Sophia Loren, uma das atrizes símbolos, talvez a mais importante, do cinema italiano em sua época de ouro. Aliás, a safra italiana de atrizes daquela época era praticamente insuperável no quesito beleza, vide Claudia Cardinale, Silvana Mangano, Sandra Milo, Giulietta Masina... a lista é farta. Em 1963, interpretando a prostituta solidária Anna na terceira parte da comédia “Ontem, Hoje e Amanhã”, do mestre Vittorio de Sica, Loren atende ao pedido de seu cliente fiel, Marcello Mastroianni – este foi o 4º filme dos 13 que o casal dividiria a cena –, e faz um striptease para inveja das espectadoras e delírio do público masculino, incluindo o diretor Robert Altman. Tanto é que trinta anos depois, o cineasta fez uma dobradinha de striptease com Loren e Mastroianni como voyeur em uma passagem de “Prêt-à-Porter”, homenageando o saudoso de Sica, mas “invertendo” os papéis, como se o homem, dessa vez, se vingasse ao que a personagem lhe fez no filme de 63. Além de um corpo que dispensa adjetivações, o sorriso de Sophia Loren e seus olhos grandes de felina encantam qualquer um. Eu também uivaria que nem um idiota rs.



4) Rebecca Romijn em “Femme Fatale” (2002)

“Sério que essa é a Mística do X-Men”, admira o mesmo adolescente de 15 anos. E finaliza: “vou pro quarto. Não esperem por mim”.

Fim da história.



3) Abigail Breslin em “Pequena Miss Sunshine” (2006)

Eu já coloquei um homem na lista, agora uma criança? Sinto-me obrigado a relembrar o leitor de que o tema dessa Cineslita é elencar as 10 melhores CENAS de striptease do cinema, e não a mais sensual. Embora isso conte pontos para algumas, este, obviamente, não é o caso. São várias as explicações para Abigail Breslin estar muito bem posicionada, tanto pela sua dança inocentemente perversa até a resolução da cena, que é fantástica. Mas talvez o principal motivo seja o “suspense” criado em torno do filme sobre a apresentação da garota nesse maldito concurso freakshow e o espectador se deparar com uma criança linda, real, sincera, obediente, uma criança de verdade que só quer subir no palco e mostrar o seu melhor. A cena é hilária e comovente ao mesmo tempo. “Pequena Miss Sunshine” é um dos filmes mais bacanas e acolhedores visto nos últimos anos, e sem Abigail Breslin nada disso existiria.

Ah, perdoem a versão dublada em italiano da cena, é que Fox retirou o vídeo original do YouTube, provavelmente porque ninguém mais locava o filme por já saber o final.



2) Jane Fonda em “Barbarella” (1968)

“Barbarella” é um filme esperto. As mulheres vão querer assistir porque a protagonista é uma heroína, uma figura forte, mas que não se abdica de sua beleza e feminilidade. E os homens vão querer ver porque... bom, porque não tem melhor maneira de conquistar o público masculino no cinema do que exibir um striptease de Jane Fonda já nos créditos iniciais. Pronto, sucesso garantido. Mas, curiosamente o filme foi um fracasso retumbante nas bilheterias da época de seu lançamento e foi o tempo que o elevou a status de cult. A cena é engraçada pelo amadorismo dos efeitos visuais e hilária pela maneira sensual em que a personagem-título arranca sua roupa de astronauta quando não tem ninguém a observando, sendo o único striptease da Cinelista que não tem um espectador. Sem dizer que tirar a roupa, fazer contorcionismos e exibir esse belo corpo com gravidade zero não é privilégio de muitos; a única que vi fazendo até hoje foi Ba-Ba-Barella. Um clássico obrigatório.



1) Robert Carlyle, Mark Addy, Tom Wilkinson, Paul Barber, Steve Huison e Hugo Speer em “Ou Tudo Ou Nada” (1997)

O que eu deveria comentar aqui? Que essa é uma das melhores comédias dos anos 90 e que esse final, especificamente, é um dos mais engraçados do cinema? Play!