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18 de fev. de 2011

127 Horas


Abril de 2003. Foi nesse período que o escalador Aron Ralston reservou um final de semana ensolarado para se aventurar em mais uma de suas expedições buscando explorar a beleza natural de escarpadas regiões montanhosas e aproveitar a espetacular paisagem geográfica para registrar a viagem com os dispositivos de sua única – e fiel – acompanhante, uma pequena câmera de mão. O lugar escolhido para o desbravamento foi o cânion Blue John, localizado nos confins do Estado de Utah, oeste dos Estados Unidos. Lá, Ralston conhece duas excursionistas perdidas e se oferece como guia para orientá-las no percurso, mas o destino do rapaz é outro: sua pretensão é chegar até um local estratégico para praticar rapel. No entanto, para economizar tempo e disposição física, o alpinista resolve cortar o trajeto por um atalho, mas se depara, literalmente, com uma pedra no meio do caminho. Ao apoiar-se nas paredes rochosas em uma fenda estreita, uma pedra de meia tonelada o derruba até à superfície e esmaga sua mão, o que lhe deixa prisioneiro no deserto por agonizantes 127 horas. As lembranças desse lamentável episódio deram origem ao livro “Between a Rock and a Hard Place”, recentemente adaptado para as telonas pelos oscarizados Simon Beaufoy e Danny Boyle. O resultado é uma experiência empírica das mais insuportáveis do cinema contemporâneo, e o filme em si uma das produções mais audaciosas e admiráveis em termos narrativos de 2010.

Afinal, a premissa do filme é um desafio por natureza. Como manter um público de espectadores acostumados com shows pirotécnicos de efeitos visuais permanecerem interessados em uma história que se passa quase integralmente no mesmo cenário e com um único personagem? Todos os departamentos do filme trabalham a favor para que “127 Horas” não se transforme em 93 minutos de pura monotonia, e conseguem a proeza com louvores. Não sei se é início de uma onda ou pura coincidência, mas o “cinema claustrofobia” é uma vertente que está ganhando certo destaque, considerando alguns lançamentos recentes, como “FilmeFobia” – terror brazuca experimental e pouco conhecido –, “Enterrado Vivo” e o 3-D “Santuário”, atualmente em cartaz nos cinemas. “127 Horas” incrementa esse tipo de exemplar, cuja sensação angustiante de sentir-se refém de alguma estrutura – sejam ela as profundezas do mar, um caixão ou uma rachadura entre duas montanhas – é a condição básica para o espectador corajoso que intenciona acompanhar o desfecho da armadilha casual.

Para potencializar o grau de desespero do protagonista encurralado e não deixar a sessão enfadonha, o roteiro aposta em flashbacks e algumas ilusões decorrentes da situação deplorável que ele se encontra – sem água e mantimentos, chega a beber a própria urina e comer a lente de contato. Assim, o espírito aventureiro que denunciava nos primeiros minutos se dissipa e o filme passa a investir em um drama existencialista. Durante os 5 dias que permaneceu preso nas rochas, Aron repensa a própria conduta, rendendo o melhor momento da trama quando simula um talk show representando ao mesmo tempo o anfitrião irônico e o convidado – ele mesmo – em posição desconfortável por reconhecer seus fracassos comportamentais sustentados pelo egoísmo, que o rapaz se autodeclara praticante ativo.

Sem demonstrar interesse de transformá-lo em um tipo de herói, “127 Horas” se mostra até relativamente intolerante com algumas atitudes reprováveis do alpinista, que perto da morte, passa a avaliar alguns acontecimentos dos quais se questiona os pensamentos que o levou às conclusões de seus atos – sobretudo quando envolve a namorada, que, aparentemente, ainda mexe com sua cabeça. Se algumas das recordações do protagonista se excedem e soam desnecessárias, outras beiram o lirismo, como quando Aron, enclausurado entre as rochas com direito a apenas 15 minutos diários de raio solar, se recorda de um evento da infância em que ele e seu pai assistem ao nascer do sol – sem dúvidas, uma lembrança que jamais lhe assaltaria a memória se não fosse pela emboscada que se encontra. Aí, entra em campo a espetacular montagem de Jon Harris, responsável não apenas pela requintada inserção dos flashbacks e pela dinâmica da tela dividida em partes, mas pelos cortes rápidos e precisos que entregam cada reação do rapaz com pontualidade.



Debruçando-se sobre uma linguagem moderna próxima ao videoclipe, que muito se aproxima daquela empregada em “Quem Quer Ser um Milionário?”, o diretor Danny Boyle se apropria do ritmo frenético, impulsionado pelo hábil jogo de câmeras registrando enquadramentos diferenciados, o que confere mais dinamismo à cena. Da mesma forma, Boyle utiliza recursos estéticos interessantes, como alternar o registro convencional do filme com a filmadora não-profissional de Ralston ou o recuo apressado adotado em duas cenas específicas, quando situa o espectador da profundidade em que ele se encontra e a distância do local até seu ponto de partida, evidenciado no momento em que o rapaz sedento fantasia uma bebida e a câmera localiza um Gatorade transpirando no banco traseiro de seu carro. Acompanhando todas essas alternâncias com propriedade, a fotografia da dupla Anthony Dod Mantle e Enrique Chediak é outro fator muito bem trabalhado no filme, desde a luz que salienta a aridez e o clima escaldante do cânion até a iluminação executada com profissionalismo, que altera conforme os diversos ângulos captados no mesmo ambiente.

As áreas técnica do filme, ressalto, são impecáveis. Contudo, o perfeito casamento telepático com que se comunicam pode passar despercebido por muitos espectadores não apenas pela aflição que a história evoca, mas devido ao tour de force de James Franco. Sem nenhum outro elemento para dividir a cena consigo, Franco é o centro absoluto das atenções e sua atuação é não menos que brilhante nas horas de desespero, de delírios, de esperança, tudo expressado com realismo, que, claro, não seria tão fiel se não fosse pelo desempenho dos profissionais técnicos. É uma pena, portanto, a desconfiança de que o filme vá sair com nenhuma estatueta entre as 6 categorias que compete no Oscar desse ano – incluindo Melhor Filme e Roteiro Adaptado. Mas analisando friamente a concorrência pesada, talvez essa possível “esnobada” possa consagrar filmes melhores. Ou então “O Discurso do Rei”.


NOTA: 8,0


127 HORAS (127 Hours) EUA, 2010
Direção: Danny Boyle
Roteiro: Simon Beaufoy e Danny Boyle
Elenco: James Franco, Kate Mara, Amber Tamblyn e Clémence Poésy

16 de fev. de 2011

Bravura Indômita


É inegável que os irmãos Joel e Ethan Coen sustentam uma das filmografias mais prolíficas do cinema contemporâneo. Fiéis a um estilo próprio que patentearam ao longo dos anos, é admirável a hábil transição de gêneros com que a dupla vem construindo sua carreira, sem deixar, no entanto, de empregar uma visão particular aos universos que concebem, geralmente sustentados por peculiaridades que fogem do padrão tradicional. É igualmente interessante e curioso o prestígio e respeito conquistado não apenas entre grande parcela da crítica, mas também a aprovação do público, que de uns anos para cá, se mostrou interessado pelos filmes “subversivos” dos irmãos, promovendo-os a absolutos sucessos de bilheteria. Após o merecido Oscar por “Onde os Fracos Não Têm Vez”, os Coen ganharam popularidade, e isso é comprovado pelo faturamento comercial da comédia lançada em 2008, “Queime Depois de Ler” – 60 milhões – e de seu mais novo trabalho, o remake da obra homônima de 69, “Bravura Indômita”. O retorno positivo deste último não representa um grande evento, mas é marcante se considerarmos que o novo filme da dupla foi vendido como um congênere do “faroeste clássico”. E convenhamos que para um gênero relegado no cinema recente atrair um significativo número de espectadores, que, ao todo contabiliza aproximados US$ 163 milhões somente nos Estados Unidos - a maior arrecadação dos 27 anos que estão em atividade – é um acontecimento e tanto.

Mas se por um lado fico contente com o reconhecimento, por outro, é impossível esconder o desapontamento por saber que o ápice da carreira dos Coen vem a ser com um dos exemplares mais inexpressivos do repertório artístico dos irmãos. Despindo-se da austeridade que caracteriza alguns de seus trabalhos mais memoráveis e exibindo baixo teor de ousadia em um enredo que casaria perfeitamente com uma típica abordagem incrédula, os diretores se resguardam ao optar por um tratamento convencional à trama. Essa escolha não significa exatamente um demérito, mas, da mesma forma, limita o desenvolvimento de alinhar a belíssima forma ao conteúdo pasteurizado.

Escrito pelos próprios, baseado no livro de Charles Portis, “Bravura Indômita” conta a história da destemida Mattie Ross (Steinfeld), uma garota de 14 anos que contrata o agente mais perigoso de Fort Smith, o beberrão Rooster Cogburn (Bridges), para encontrarem o covarde Tom Chaney (Brolin), autor do assassinato a sangue frio do pai da menina. Em meio à região montanhosa de Arkansas durante o inverno cortante, os dois partem à procura do criminoso, contando também com a colaboração do Texas Ranger LaBoeuf (Damon), que está atrás de Chaney há meses, de olho em uma recompensa gorda oferecida pelo Estado.

Em entrevistas para promover o filme, os Irmãos Coen disseram que o filme está mais para uma releitura da obra de Portis do que, essencialmente, um remake do faroeste protagonizado por John Wayne – que lhe rendeu um Oscar de Melhor Ator, com pinta de Honorário. No entanto, as comparações entre ambos são inevitáveis. Enquanto a produção de Henry Hathaway converte a história da garota em busca de justiça – ou vingança – em uma aventura com direito a cavalgadas intermináveis e uma trilha sonora empolgante – composta pelo gênio Elmer Bernstein –, a versão dos Coen se debruça em um drama com clima mais sombrio, reflexivo, com ritmo linear e diálogos mais bem elaborados. Infinitamente mais maduro e profundo do que o filme de 69, “Bravura Indômita”, contudo, substitui a mastigação pedante do original por uma verborragia desnecessária, denotando o oportunismo dos roteiristas em encaixar certas informações requeridas pela obra literária em qualquer “buraco” do script, como o momento em que Cogburn conta o episódio em que roubou um banco à Mattie em pleno posicionamento de ataque sobre uma colina. Isso sem mencionar as desavenças entre o federal e LaBoeuf forçadas pelo roteiro, cuja única clara intenção é afastar o personagem de Damon para que o mesmo retorne, cenas depois, em um momento de perigo em que os protagonistas necessitam de ajuda.



Beneficiado por um elenco homogeneamente eficaz, Jeff Bridges faz o possível para não se render completamente à caricatura natural de seu personagem embrutecido, e é bem sucedido nesse quesito, embora soe invariavelmente prosaico em algumas situações. O ator acerta nas soluções encontradas para rodear os estereótipos que sua figura carrega sem render integralmente a eles. Enquanto isso, Matt Damon empresta o sotaque texano para compor o sensível policial que, a princípio, se apresenta como uma barreira para a captura do bandido, mas logo se revela um verdadeiro cúmplice para a missão dos protagonistas. Indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante quando, na verdade, é a grande protagonista da história, Hailee Steinfeld estreia no cinema exibindo segurança em um papel dramático que exige habilidade da intérprete, e a novata de 14 anos se sai admiravelmente bem na composição de Mattie, alternando com naturalidade a teimosia e persistência de lutar com a fragilidade e insegurança típicas de uma garota tão nova, vinda do campo. E se Josh Brolin nada faz aqui, devo destacar a curta, porém excelente aparição do irreconhecível Barry Pepper como o fora-da-lei Lucky Ned Pepper, que para um bandido temido se revela um homem atencioso para ouvir os relatos da jovem.

Aliás, a tridimensionalidade dos personagens é um dos pontos positivos do roteiro de “Bravura Indômita”. Se muitos espectadores ficarão insatisfeitos pela ausência de cenas aventureiras e de combate – que para um filme que se vende “faroeste”, é mesmo um chute no saco –, ao menos, não podem reclamar do desenvolvimento pessoal de cada personagem, que apoiados em boas atuações, se mostram não apenas figuras representadas, mas seres humanos afundados em sua complexidade.

Emoldurado em uma fotografia magnífica concebida pelo veterano Roger Deakins – parceiro habitual da dupla – e embelezado pela trilha sonora pura e nostálgica do ótimo Carter Burwell, “Bravura Indômita” ganha pontos por retratar uma narrativa ultrapassada com lucidez, mas é sacrificado pela monotonia excessiva e perde o tom devido ao conformismo desestimulante da direção. Alguns ainda teimam em identificar certas “marcas registradas” dos irmãos cineastas no filme, mas, pra mim, precisa muito mais do que um indígena enforcado na árvore sem motivo aparente ou um homem vestindo couro de urso para me convencer de que este é um Coen autêntico.


NOTA: 6,0


BRAVURA INDÔMITA (True Grit) EUA, 2010
Direção e Roteiro: Joel e Ethan Coen
Elenco: Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon, Josh Brolin e Barry Pepper

12 de fev. de 2011

Cisne Negro


Se traçarmos um paralelo entre os quatro filmes anteriores que compõem a curta filmografia do diretor Darren Aronofsky e o seu último, “Cisne Negro”, é possível identificarmos alguns aspectos ressonantes ao núcleo principal desta obra. A obsessão doentia pelo matemático que entra em colapso mental no obscuro “Pi”; o vício deteriorante dos personagens infelizes que povoam o chocante “Réquiem para um Sonho”; a dedicação integral do cientista vivido por Hugh Jackman no belo “Fonte da Vida”; e a exposição do corpo aos sacrifícios que peleja “O Lutador” de Mickey Rourke para chegar à forma. Guardadas as devidas proporções, essas também são algumas submissões que a insegura personagem central de “Cisne Negro”, a jovem bailarina Nina Sayers (Portman) enfrenta – involuntariamente, em alguns casos – para consagrar uma performance nos palcos sem deixar vestígios de erros. O combustível que a move – e desloca Nina para um pesadelo extremo – é o objetivo de ser perfeita. Partindo de um conceito amplamente subjetivo e inalcançável em muitas ocasiões, Aronofsky mais uma vez localiza seus personagens em momentos de insanidade, submerge sua câmera no psicológico corrompido da protagonista e convida o espectador a um verdadeiro e fascinante espetáculo de horrores, fruto das loucuras comportamentais e dos delírios violentos antes sufocados por Nina, que no filme despertam e são externalizados pela garota com fúria absoluta.

Todos os sentimentos reprimidos pela jovem, seja por conta da rígida educação da mãe controladora ou talvez pelas próprias limitações que impunha a si mesma, ganham nova dimensão e se “materializam” em devaneios assombrosos que chegam a ponto de fundir-se com a realidade. E é justamente nessa amálgama de acontecimentos envolvendo o real atrelado à mente conturbada de Nina que “Cisne Negro” se revela um filme tão inspirado e entorpecedor. A estrutura do pensamento remete a David Lynch, sobretudo o ousado “Império dos Sonhos”, cuja protagonista vivida por Laura Dern é uma atriz que adota nova personalidade devido à concentração intensiva que dá à sua personagem no filme dentro do filme, o que não se difere muito daqui. Nina está tão concentrada em interpretar Odile, a irmã malvada do Cisne Branco e uma das personagens fundamentais da produção “O Lago dos Cisnes”, que a bailarina acaba ganhando características físicas da ave e agindo de maneira estranha, conforme o perfil sedutor e agressivo do tal Cisne Negro do título.

Além das tentativas de superar as próprias exigências, Nina se depara com três fatores externos que, vistos pela protagonista como uma ameaça para que ela atinja a perfeição, funcionam como um motor que intensifica seu quadro de loucura. Um deles, naturalmente, é o diretor artístico da produção, Thomas Leroy (Cassel, excelente), um profissional crítico e exigente, que vê potencial em Nina, mas reclama com frequência dos passos fundados no classicismo e no rigor estético matematicamente calculado da bailarina ao se apresentar, o que vai de encontro com a sensualidade e caráter explosivo do Cisne Negro. Dentro de casa, a figura da mãe opressora, em quem Nina se espelha inversamente, pois tendo sido também uma bailarina no passado, Erica (Hershey, espetacular) fracassou como dançarina e abandonou a carreira nos palcos para se dedicar à maternidade – aliás, há uma cena fabulosa que se transforma em uma luta de egos entre mãe e filha, quando uma se vê logo rebaixada, aponta a fragilidade da outra para se sobressair. E, por fim, a presença da bela e hedonista Lily (Kunis, de tirar o fôlego), uma das bailarinas da mesma companhia que ambiciona “roubar” o papel principal do espetáculo das mãos / asas de Nina.

A despeito de Winona Ryder, que se perde no overacting, o elenco de apoio é irretocável, exibindo um dinamismo em cena que impressiona. Grande contribuição, inclusive, se deve ao soberbo trabalho de Darren Aronofsky, finalmente sendo reconhecido pela competência que vem demonstrando há pouco mais de uma década – a tardia indicação ao Oscar de Melhor Diretor fala por si. Aronofsky é conhecido por extrair o máximo de seus atores, sendo não apenas habilidoso na condução da história, mas atencioso e detalhista ao explorar seu elenco. Porém, mais que isso, o diretor recusa a abordagem como simples testemunha, optando por mergulhar de cabeça – assim como sua protagonista – no mundo de balé, tanto em trazer o cotidiano das bailarinas para garantir mais autenticidade, como pela opção de transformar sua câmera em um mais um dançarino ao acompanhar os admiráveis movimentos de Nina, que atinge o ápice na sufocante e inesquecível sequência final, uma das mais acachapantes que conferi recentemente no cinema. Entregando uma mise em scène espetacular, Aronofsky ainda situa o espectador no inconsciente da bailarina, acompanhando todos os seus desequilíbrios sem perder o tom e ainda é feliz por provocar e permanecer uma constante sensação de mistério que acompanha o filme – como a opção de vários personagens surgindo de âmbitos escuros, mais uma referência a Lynch, e que o fotógrafo Matthew Libatique capta com perfeição.



Vale destacar a interessante relação do diretor com os espelhos que decoram diversos cômodos, tanto na casa, como na companhia de dança. A interpretação varia, porém observo que os reflexos anunciam significados mais densos que mereciam uma parte 2 da crítica para ser explicado. Essa preocupação com os detalhamentos só reforça a brilhante direção de Aronofsky, que vem a cada projeto se confirmando como um dos melhores de sua geração. E já falando nos espelhos, que, grosso modo, encaro um obstáculo que impede Nina de respirar e enxergar outro mundo a não ser o do balé, o design de produção de “Cisne Negro” oferece um trabalho genial, pois solidifica as ideias da história, como o realce das obsessões compartilhadas pela protagonista. Percebam a cena em que ela toma banho na banheira a presença de um quadro com dois patos brancos posicionado sobre sua cabeça, ou até mesmo em seu quarto, rodeado de ursos de pelúcias indicando sua meiguice, o momento em que decide seguir os conselhos de Thomas e se masturbar, um urso de cisne negro aparentemente a encarando como se reafirmasse “sweet girl”. Sem contar o porta-jóias com a bailarina e o toque do celular com a música-tema de Tchaikovsky, elementos que aprisionam a bailarina em um mundo do qual nem a própria parece ter intenções de sair – nem que isso a leve à autodestruição.

Abraçando as questões psicológicas e complexas da personagem com total convicção, Natalie Portman incendeia a tela com sua atuação visceral e de total entrega, em um dos melhores trabalhos de composição de personagem que vi neste ano. É fantástico perceber como a atriz incorpora toda a insegurança de Nina, mas se revela verdadeiramente assustadora em outras cenas, algumas vezes até no mesmo take, como a cena no camarim – sinto o frio na espinha só de lembrar. Isso sem falar no esforço físico de aprender as técnicas desse dificílimo esporte no intervalo de um ano – claro, com a ajuda de dublês, a via crúcis fica mais fácil, mas se Portman não aprendeu, devo confessar, que é ainda mais admirável por ter sido tão convincente.

Dessa forma, unindo dois trabalhos fabulosos e que encontraram a química perfeita, o sucesso de “Cisne Negro” e o reconhecimento na temporada de premiações – 5 míseras indicações ao Oscar, merecia mais... – se dá principalmente à catarse do diretor ao lado de sua atriz em estado de graça. Se ao final de “Bastardos Inglórios”, o diretor Quentin Tarantino reconhece que talvez esteja diante de sua obra-prima, a última fala de Natalie Portman em “Cisne Negro”, eu diria, não se limita apenas à personagem, mas também ao seu desempenho espetacular no filme. Quem viu, sabe.


NOTA: 9,5


CISNE NEGRO (Black Swan) EUA, 2010
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Mark Heyman, Andrés Heinz e John McLaughlin
Elenco: Natalie Portman, Vincent Cassel, Mila Kunis, Barbara Hershey e Winona Ryder

7 de fev. de 2011

O Vencedor


Em uma desses vários cartazes de campanha para as premiações, os chamados FYC (For Your Consideration), que objetiva chamar a atenção de votantes dos mais diversos círculos e associações para que reconheçam a qualidade do filme ou algum trabalho interno da produção, deparei-me com este em que um crítico exalta “O Vencedor” como um mix satisfatório de “Rocky” com “Um Sonho Possível” – e colocaram “Os Infiltrados”, do Scorsese, no balaio sem motivo aparente. A ligação com a história romanceada do pugilista interpretado por Stallone é óbvia, já que “O Vencedor” também é ambientado em um bairro de classe trabalhadora e seu protagonista é um boxeador que luta (literalmente) pelo reconhecimento de sua carreira. O que fez grande parte dos cinéfilos torcerem o nariz foi a menção ao filme de Sandra Bullock, que transformou uma bela história real de perseverança em uma enxurrada de clichés acovardados, comprovando ser uma legítima armadilha sentimental. Entretanto, para manter o equilíbrio, a interessante equipe de envolvidos na criação artística de “O Vencedor” assinalava um motivo suficiente para dar chances ao drama. O resultado final não foge do esperado: um trabalho bem realizado, com os alicerces fortificados em aspectos convencionais e estereotipados dos “filmes de superação”, uma distinção que parece, a cada ano, se consolidar como um gênero. No mais, se reproduz chavões aqui e acolá, por outro lado, o filme se torna compensatório e cativante pelos esforços do diretor e por um elenco impecável.

Roteirizado a oito mãos, “O Vencedor” se baseia na história real do revestidor de calçadas Micky Ward (Wahlberg), que nas horas de descanso, veste suas luvas e sobe ao ringue para ser treinado pelo irmão, Dicky Ward (Bale), um antigo boxeador que já vivenciou seus dias de glória, mas hoje se encontra rendido pelas drogas. Em uma de suas disputas agendadas, de última hora seu oponente fica gripado e incapaz de lutar, mas Micky é convencido pelo irmão treinador e pela mãe empresária, Alice (Leo), de que ele não pode desistir à essa altura. Humilhado em cima do ringue por um adversário mais forte e com peso superior ao seu, o rapaz encontra confiança nos braços da namorada Charlene (Adams), que não demora muito para perceber os abusos da família do rapaz, pois o usa como estepe para faturar uns trocados. Surge uma relação conflituosa em que Micky se vê profundamente dividido entre a tradição familiar que sempre o ajudou – apesar dos interesses – e a escolha de alavancar sua carreira com o auxílio de profissionais do ramo, tese defendida pela mulher que ama.

Como se percebe pela sinopse descrita, “O Vencedor” não é um filme sobre boxe, mas utiliza o universo desse esporte para assentar sua história sobre companheirismo, persistência e desintegração familiar. A trama é conhecida, batida de muitos outros exemplares, mas as qualidades que diferenciam esse trabalho dos demais é o desempenho dos envolvidos e a maneira humanista e apaixonada de como o enredo é desenvolvido, sendo muito desses ganhos decorrentes da ótima condução do diretor David O. Russell. Vivendo sempre à margem de Hollywood, apesar dos bons filmes que preenchem seu currículo – entre eles, “Três Reis” e “Huckabees – A Vida é uma Comédia” –, até agora, este é o ápice de sua carreira. Alguns vão acusar O. Russell de trair sua pessoalidade com um drama tão banal, mas mesmo com um material gasto, a mão do diretor é determinante para o sucesso do filme, que não desvia todos os clichés, mas, ao menos, sua abordagem quase documental contorna e dá fôlego para boa parte deles.

Da mesma forma, o elenco em perfeita sintonia garante mais emoção e autenticidade a “O Vencedor”, suplantando a ideia de que até mesmo os estereótipos dos gêneros, se bem trabalhados, podem dar bom acabamento para uma história. E voilá! Absolutamente todos os personagens do filme são caricaturas, mas as representações dessas figuras ganham complexidade e se revelam atraentes devido aos trabalhos admiráveis dos atores. Mais uma vez se submetendo a transformações físicas para compor um personagem – vide “O Operário” e “O Sobrevivente” –, desta vez, Christian Bale emagreceu vários quilos e ficou semi-calvo para interpretar Dicky, um homem na casa dos 40 anos, que se vangloria por ter nocauteado o mito do boxe Sugar Ray Leonard – que faz uma pequena aparição no filme. Mas por trás de toda noção de estrelismo, esconde um irmão carente e atencioso, que ainda que se demonstre relapso e irresponsável com os treinos, ama Micky incondicionalmente. E nessa variante de hiperatividade, ternura e um pouco de agressividade, Bale se mostra como o verdadeiro protagonista do filme, dominando todas as cenas em que aparece e roubando todas as atenções pra si. Sua atuação irrepreensível encontra a parceria perfeita com a interesseira Alice, vivida com total entrega pela excelente Melissa Leo.



Amy Adams encontra em sua Charlene a oportunidade de se desfazer da imagem que a definiu da garota bonitinha, certinha e apaixonante – vide “Retratos de Família” e “Encantada”, interpretando uma jovem determinada que não leva desaforo para casa, nem que seja para resolver seus problemas na porrada. E Mark Wahlberg, também assumindo o posto de produtor do filme – assim como Darren Aronofsky, um dos produtores executivos da fita –, com seu personagem sensível, mas pouco exigente em questões de dramaticidade, assume total importância na trama por, além de ser o principal fator que move a história, também funciona como o elo catalisador que liga todos os demais personagens.

Enfraquecido pelas cenas de boxes pouco empolgantes e ainda por forçar a barra em algumas cenas, como a permanência de Dicky na prisão, que lhe dá o direito de assistir a um documentário na TV a cabo e a acompanhar a luta do irmão por telefone com a mãe – depois reclamam do sistema carcerário do Brasil... –, o filme é bem recriado pelo trabalho de figurino assinado por Mark Bridges e pelo visual cru, setentista, apesar de o filme se passar em 1993. Nomeado a 7 indicações ao Oscar, “O Vencedor” não é uma embriaguez de originalidade, nem nada, mas o lugar-comum do filme é muito bem executado a ponto de fazer o espectador acreditar que tudo é novidade.


NOTA: 7,0


O VENCEDOR (The Fighter) EUA, 2010
Direção: David O. Russell
Roteiro: Scott Silver, Paul Tamasy, Eric Johnson e Keith Dorrington
Elenco: Mark Wahlberg, Christian Bale, Amy Adams, Melissa Leo e Jack McGee

3 de fev. de 2011

Cinelista: As 10 Melhores Cenas de Striptease do Cinema


10) Jamie Lee Curtis em “True Lies” (1994)

“C*r*lh*, essa aí é a irmã do Michael Myers?!”, admira um adolescente de 15 anos. Do clássico de John Carpenter para um dos filmes de ação mais marcantes e mentirosos (a evidência está até no título) dos anos 90, a sensacional Jamie Lee Curtis não deixou sua imagem restrita apenas à rainha do grito que deu vida nos dois primeiros capítulos da série “Halloween” – depois voltaria 20 anos depois em mais duas sequências desnecessárias. A filha de Tony Curtis e Janet Leigh vingou no cinema revelando um timing cômico surpreendente, como o conferido em “True Lies”, filme do na’vi James Cameron antes de afundar o navio. Sinceramente, eu não conseguiria pensar em outra atriz para protagonizar essa sexy e divertida cena com a mesma desenvoltura com que Curtis a domina. Difícil é desgrudar os olhos de seu corpo perfeitamente esculpido, mas se o leitor conseguir, vai perceber nas próprias expressões da atriz que, por trás de toda a sensualidade desfilada pela personagem, esconde ali uma excelente comediante que está, obviamente, se divertindo. E não posso deixar de comentar as caras de sonso de Arnold Schwarzenegger, provando que nem para admirar a dança naturalmente hipnotizante, o cara convence.



9) Michael Ontkean em “Vale Tudo” (1977)

Talvez não seja o melhor filme de esportes, mas certamente o original “Vale Tudo”, dirigido por George Roy Hill, é um dos mais engraçados, feel good movies politicamente incorretos que já vi. É de se surpreender Paul Newman em um papel despretensioso como o técnico de hockey sarcástico e inesquecível pelas suas tiradas ofensivas dirigidas aos jogadores que treinava ou a quem pretendesse prejudicar seu time. No entanto, ainda com a contribuição do eterno “indomável” engrandecendo o filme, “Vale Tudo” não teria o mesmo apelo se não contasse com um ótimo time de comediantes em total sintonia, que dão o tom certo ao projeto. Entre eles, Michael Ontkean e seu striptease na pista de gelo enquanto os adversários se esmurram pelos desentendimentos da partida. Com o apoio da banda e aprovação do público feminino presente na arquibancada, Ontkean liga o “foda-se” para a competitividade do jogo fracassado e faz o seu show particular em uma cena hilária que desmoraliza a seriedade com que são encarados os torneios esportivos. Score!



8) Demi Moore em “Striptease” (1996)

Com merecimento, “Striptease” foi o grande vencedor do Framboesa de Ouro em 97, abocanhando 6 troféus, incluindo Pior Filme e Pior Diretor. Andrew Bergman, que dirigiu a parafernália, até foi receber pessoalmente a distinção pelo seu trabalho. Esse Cinelista não tem a intenção de avaliar o resultado da obra, e sim, levantar as melhores cenas de striptease do cinema. E, justiça seja feita, seria uma marmelada a ausência deste filme no ranking. Sem dublês, Demi Moore deixa o público do clube onde trabalha para levantar uma grana com o queixo caído, o que inclui Burt Reynolds dando aulas de canastrice. A performance selvagem e explosiva da dança atrelada ao “conjunto da obra” de Moore proporcionam a cena-chave da história, talvez a única que preste no meio disso tudo.



7) Linnea Quigley em “A Volta dos Mortos Vivos” (1985)

Quigley é considerada uma rainha dos filmes B dos anos 80. Entre seus sucessos, estão “A Noite do Demônio” e o aclamado pelos alternativos “Hollywood Chainsaw Hookers”, que conta a história de uma gangue de prostitutas armadas com serras elétricas para se defenderem dos clientes mal intencionados. How cool is that? Entretanto, Linnea Quigley só conseguiu esses papeis depois da ótima repercussão de sua Trash – o nome já diz muita coisa –, uma garota punk, de cabelos vermelhos e maquiagem pesada, que junto aos amigos, tentam fugir dos cadáveres ressuscitados por um gás tóxico na pacata Louisville em “A Volta dos Mortos Vivos”. A cena mais marcante do filme e que elevou a atriz à adoração dos nerds punheteiros foi a sequência em que, filosofando sobre a sensação de ser devorada por um zumbi, sobe em uma túmulo no cemitério e faz um striptease bizarro e escandaloso para a sorte daquelas criaturas que ainda não tiveram seus olhos consumidos por vermes terrestres. A cena é inesperada e fantástica, virou um clássico do trash. Na real, a atriz tem uma aparência meio piranha, mas gosto de sua personagem diferente neste filme, que não é a loira peituda, sempre em perigos. Isso se chama diversificar as opções artísticas. Ou não.

O YouTube não tem o vídeo disponível da cena específica do striptease, infelizmente, mas este é o início e já dá uma boa amostra do que esperar.



6) Kim Basinger em “9 ½ Semanas de Amor” (1986)

A cena do striptease de Kim Basinger em “9 ½ Semanas de Amor”, no auge de sua beleza, é icônica. Foi a partir daí que a música “You Can Leave Your Hat On” na voz do cantor Joe Cocker se tornou a clássica trilha sonora para tirar a roupa na frente do(a) companheiro(a). Um ambiente com a fotografia mergulhada em sombra propositalmente para não revelar tudo – talvez esse o segredo do melhor striptease: o não mostrar tudo –, a roupa que acompanha os movimentos do corpo perfeito e... Kim Basinger, né, acho que nem preciso ficar me prolongando sobre a beleza enfática da atriz, que, até hoje, aos 57, bate um bolão. Daí o leitor se pergunta: “oras, se a cena é tão boa assim, então por que está na 6ª posição”. Eu respondo: “Mickey Rourke”. Todo mundo está “entusiasmado” com o strip de Basinger e temos que aguentar o macaco de circo do Rourke, que mais parece estar assistindo a um filme de Chaplin ou fazendo caretas para um bebê sorridente do que vendo a atriz dançar, de tão over e mané que está em cena. Ao menos, Schwarzenegger na 10ª posição não rebaixava a cena; aqui, Rourke a torna semi-brochante. Troféu Abacaxi pra ele e para o diretor Adrian Lyne, que deve gargalhar quando sua esposa decide tirar a roupa e talz.



5) Sophia Loren em “Ontem, Hoje e Amanhã” (1963) e “Prêt-à-Porter” (1994)

O tempo foi muito generoso com Sophia Loren, uma das atrizes símbolos, talvez a mais importante, do cinema italiano em sua época de ouro. Aliás, a safra italiana de atrizes daquela época era praticamente insuperável no quesito beleza, vide Claudia Cardinale, Silvana Mangano, Sandra Milo, Giulietta Masina... a lista é farta. Em 1963, interpretando a prostituta solidária Anna na terceira parte da comédia “Ontem, Hoje e Amanhã”, do mestre Vittorio de Sica, Loren atende ao pedido de seu cliente fiel, Marcello Mastroianni – este foi o 4º filme dos 13 que o casal dividiria a cena –, e faz um striptease para inveja das espectadoras e delírio do público masculino, incluindo o diretor Robert Altman. Tanto é que trinta anos depois, o cineasta fez uma dobradinha de striptease com Loren e Mastroianni como voyeur em uma passagem de “Prêt-à-Porter”, homenageando o saudoso de Sica, mas “invertendo” os papéis, como se o homem, dessa vez, se vingasse ao que a personagem lhe fez no filme de 63. Além de um corpo que dispensa adjetivações, o sorriso de Sophia Loren e seus olhos grandes de felina encantam qualquer um. Eu também uivaria que nem um idiota rs.



4) Rebecca Romijn em “Femme Fatale” (2002)

“Sério que essa é a Mística do X-Men”, admira o mesmo adolescente de 15 anos. E finaliza: “vou pro quarto. Não esperem por mim”.

Fim da história.



3) Abigail Breslin em “Pequena Miss Sunshine” (2006)

Eu já coloquei um homem na lista, agora uma criança? Sinto-me obrigado a relembrar o leitor de que o tema dessa Cineslita é elencar as 10 melhores CENAS de striptease do cinema, e não a mais sensual. Embora isso conte pontos para algumas, este, obviamente, não é o caso. São várias as explicações para Abigail Breslin estar muito bem posicionada, tanto pela sua dança inocentemente perversa até a resolução da cena, que é fantástica. Mas talvez o principal motivo seja o “suspense” criado em torno do filme sobre a apresentação da garota nesse maldito concurso freakshow e o espectador se deparar com uma criança linda, real, sincera, obediente, uma criança de verdade que só quer subir no palco e mostrar o seu melhor. A cena é hilária e comovente ao mesmo tempo. “Pequena Miss Sunshine” é um dos filmes mais bacanas e acolhedores visto nos últimos anos, e sem Abigail Breslin nada disso existiria.

Ah, perdoem a versão dublada em italiano da cena, é que Fox retirou o vídeo original do YouTube, provavelmente porque ninguém mais locava o filme por já saber o final.



2) Jane Fonda em “Barbarella” (1968)

“Barbarella” é um filme esperto. As mulheres vão querer assistir porque a protagonista é uma heroína, uma figura forte, mas que não se abdica de sua beleza e feminilidade. E os homens vão querer ver porque... bom, porque não tem melhor maneira de conquistar o público masculino no cinema do que exibir um striptease de Jane Fonda já nos créditos iniciais. Pronto, sucesso garantido. Mas, curiosamente o filme foi um fracasso retumbante nas bilheterias da época de seu lançamento e foi o tempo que o elevou a status de cult. A cena é engraçada pelo amadorismo dos efeitos visuais e hilária pela maneira sensual em que a personagem-título arranca sua roupa de astronauta quando não tem ninguém a observando, sendo o único striptease da Cinelista que não tem um espectador. Sem dizer que tirar a roupa, fazer contorcionismos e exibir esse belo corpo com gravidade zero não é privilégio de muitos; a única que vi fazendo até hoje foi Ba-Ba-Barella. Um clássico obrigatório.



1) Robert Carlyle, Mark Addy, Tom Wilkinson, Paul Barber, Steve Huison e Hugo Speer em “Ou Tudo Ou Nada” (1997)

O que eu deveria comentar aqui? Que essa é uma das melhores comédias dos anos 90 e que esse final, especificamente, é um dos mais engraçados do cinema? Play!


31 de jan. de 2011

Inverno da Alma


Não é muito comum o cinema norte-americano mostrar com sinceridade as fraquezas sociais da América, como regiões de extrema indigência que aparentam ainda viver na Idade Média, considerando os hábitos e costumes das pessoas que povoam o local aliado à falta de prosperidade que estas sentem, vítimas do cenário precário o qual estão aprisionadas. O desbravamento de Wim Wenders em “Medo e Obsessão” (2004), por exemplo, chama a atenção para uma parte de Los Angeles devastada pela miséria e violência – e o cineasta alemão objetiva com sua investigação colocar em cheque o encantamento que muitos espectadores sentem em relação aos Estados Unidos, a famosa “terra dos sonhos”. Ambientado do outro lado do país, entre o Estado de Nova York e o Canadá, “Rio Congelado” (2008) é outra produção que não faz concessões em retratar as condições inóspitas dos personagens, que encontram na ilegalidade a solução mais fácil de substituir o almoço à base de pipoca e suco artificial por uma refeição decente. Outro interessante e corajoso filme que mergulha na pobreza e na ignorância dos personagens, emprestando uma região de penúria para contar sua história é o depressivo “Inverno da Alma”, o independente mais elogiado pela crítica em 2010. Além da relação com o espaço, os três filmes se dialogam por apresentarem heroínas nos papéis centrais, vividas de forma intensa e convincente por três atrizes notáveis do cinema americano atual: Michelle Williams, Melissa Leo e Jennifer Lawrence. E não é à toa que o trio está indicado ao Oscar este ano – as duas primeiras, claro, por outros trabalhos.

Situado nas Montanhas Ozark, região subdesenvolvida que compreende os Estados de Missouri e Arkansas, no sul dos EUA, o roteiro escrito pela também diretora Debra Granik em parceria com a sócia, Anne Rosellini, se desenvolve nos esforços de Ree (Lawrence), uma garota de 17 anos que abdica do sonho de ingressar o Exército para cuidar da mãe doente e de seus dois irmãos caçulas. Um dia, a jovem recebe a visita do xerife da região, informando-lhe que seu pai traficante de drogas pagou a fiança da prisão, mas alienou a casa e toda a madeira do território como garantia de sua liberdade; porém ele precisa comparecer ao tribunal nos dias seguintes, caso contrário, todas as posses da família ficarão sob a guarda da Polícia. Ree se encarrega de procurar o pai, mas a busca incessante se torna ameaçadora quando a garota se envolve com alguns membros da vizinhança, o que inclui seu tio violento, Teardrop (Hawkes).

Para facilitar a própria via crúcis que se anuncia, ela vai à propriedade de algumas pessoas para ajudá-la, e o roteiro se revela perspicaz e eficiente na apresentação dos personagens secundários, exibindo o perfil de cada figura infeliz que rodeia aquele ambiente atrasado, em um curto espaço de tempo. Sem auxílio e ainda levando desaforo pra casa, resta à protagonista a custosa missão de partir na jornada sozinha, entretanto, sem abandonar as responsabilidades que assume para sustentar sua família. E são nessas duas variações interligadas do enredo que o roteiro enxuto da dupla se desenvolve, abrindo espaço tanto para a beleza natural de algumas cenas, como quando ensina os irmãos a manusearem uma espingarda ou a esfolarem um esquilo para comerem, como outros momentos que envolvem situações violentas e dolorosamente insuportáveis. O grande mérito de Granik e Rosellini é manter o filme sobre um manto de imprevisibilidade, o que potencializa ainda mais a curiosidade do espectador diante do (chocante) desfecho da história.

Segundo trabalho nos cinemas de Debra Granik – o primeiro foi “Down to the Bone”, que impulsionou a carreira da atriz Vera Farmiga –, “Inverno da Alma” traduz uma concentração narrativa admirável. Não apenas em relação à história, mas no que concerne à delineação dos personagens, à importância de cada um e suas reações mediante ao que reúne todos naquele espaço: o sumiço do pai da garota. Sem querer apresentar provas concretas, Granik deixa a cargo do espectador a desconfiança e a crença do que julgar mais coerente para a resolução do caso; a dúvida é bastante incômoda, mas o realismo cruel de “Inverno da Alma” definitivamente não intenciona passar a mão na cabeça do espectador, e o gradativo tom de suspense estabelecido pela diretora confirma essa declarada “despreocupação” de afago.



Contando com um elenco de apoio predominante de rostos desconhecidos, John Hawkes deixa escapar ótimas nuances na sua caracterização como o tio ambíguo da protagonista, que mesmo se oferecendo disposto a protegê-la, não demonstra nenhum tipo de emoção com a sobrinha. Dale Dickley se beneficia pelo rosto marcado e se destaca como a vizinha fria e perigosa, uma mulher ignorante que recorre à violência física como principal método para resolver seus problemas. Chamo atenção para a curta, mas importante aparição de Sheryl Lee, a eterna Laura Palmer de “Twin Peaks”, que interpreta a amante do foragido. E, claro, resenhar “Inverno da Alma” sem comentar o tour de force de Jennifer Lawrence é o mesmo que escrever sobre “Psicose” e ignorar Hitchcock. Presenteada com uma personagem complexa e destemida, a semi-estreante imprime personalidade em um desempenho sóbrio e intenso. Entregando-se totalmente ao papel, a atriz não excede no sotaque sulista e interage com o ambiente sujo de maneira realista e sem espetacularizar nenhum movimento. Atuação contida de uma personagem robusta e bem definida, que lhe vale a atenção merecida que vem recebendo nas premiações, inclusive a recente candidatura ao Oscar de Melhor Atriz.

Além da nomeação para Lawrence, “Inverno da Alma” recebeu indicações para a atuação coadjuvante de Hawkes, para o roteiro adaptado do livro homônimo, de Daniel Woodrell, e Melhor Filme, representando a grande surpresa da categoria principal desta edição. E se frequentemente nas críticas eu lamento algumas traduções redutoras e estúpidas que muitas distribuidoras rebatizam os filmes estrangeiros no Brasil, também acho bacana reconhecer quando um título seja pertinente à obra. Além de lírico, “Inverno da Alma” se adequa perfeitamente ao coração petrificado em gelo e à inexistência de sangue nas veias da maioria daqueles corpos sem misericórdia, nem sentimentos. Uma grata surpresa.


NOTA: 7,5


INVERNO DA ALMA (Winter’s Bone) EUA, 2010
Direção: Debra Granik
Roteiro: Debra Granik e Anne Rosellini
Elenco: Jennifer Lawrence, John Hawkes, Dale Dickley, Lauren Sweetser e Garret Dillahunt

27 de jan. de 2011

Eu Matei Minha Mãe


Durante a aula de francês, a professora Julie (Clément) propõe um trabalho aos alunos para ser feito em grupo: entrevistar um dos pais e colher dados referentes aos seu emprego e condições trabalhistas, com o intuito de levantar estatísticas sobre a profissão que seus responsáveis exercem. Ao receber a folha de tarefas, Hubert (Dolan) se dirige à professora e pergunta se poderia fazer o exercício baseado em sua tia, justificando que não encontra o pai com frequência – o que é uma verdade – e, para evitar mais um diálogo indesejado com a matriarca histérica com quem divide o mesmo teto, ele inventa que sua mãe está morta. Daí a denominação “Eu Matei Minha Mãe”, que muitos espectadores devem ter ficado hesitantes com a rispidez e crueldade do título, mas na verdade o filme é um drama familiar com pitadas de humor que se sustenta no confronto diário envolvendo a desvairada Chantale (Dorval) e seu filho adolescente mimado e aspirante a artista. Trata-se de um relacionamento difícil entre a mãe impaciente e descontrolada e o garoto de 16 anos, que já se enerva só por examinar os movimentos da boca da mãe e seus desleixos de etiqueta enquanto esta saboreia um pão com manteiga logo pela manhã – imaginem o que acontece quando ela termina a refeição. No entanto, sem querer defender a figura materna, que não bate mesmo bem da cabeça, acho que seria perfeitamente compreensível se o filme se chamasse “Quero Matar Meu Filho”, porque o jovem não fica em débito com a mãe quando o assunto é estupidez. E o que resta a fazer o espectador diante de um filme protagonizado por duas figuras estritamente insuportáveis, que trocam farpas apenas para na cena seguinte se reconciliarem e depois se ofenderem gratuitamente?

“Eu Matei Minha Mãe” segue basicamente esse esquema monótono e previsível, e as poucas subtramas – se é que posso chamar assim – são inclusas apenas para ressaltar o sentimento de deslocação do protagonista naquele ambiente e os personagens coadjuvantes são usados para confortar suas angústias de viver com uma mãe que ele adora odiar. Aí entram a sua professora, que se transforma em uma conselheira, pois também alimentava divergências com o pai; seu namorado Antonin (Arnaud), que pode até ser considerado uma distração para Hubert, já que o interesse amoroso que o rapaz sente pelo protagonista não é recíproco; e, por fim, a sua “sogra”, uma mulher liberal e despojada, que permite o filho fazer sexo de porta aberta seguido de um cigarrinho de artista, inclusa na história apenas para estabelecer um contraponto frouxo com a mãe “morta” do título. No entanto, apesar da superficialidade do roteiro, há elementos que merecem ser destacados como a questão da homossexualidade, que poderia ser mais um assunto para gerar embate entre eles, mas é encarado de forma singela na trama, como um atestado de confiança que sentem um pelo o outro – mas convenhamos que tem que se esforçar para não desconfiar de nada, vendo a parede do quarto do filho estampada com fotos de James Dean, River Phoenix logo acima da cama e um pôster de “Titanic”.

Escrito, dirigido e produzido pelo canadense Xavier Dolan, o rapaz de apenas 20 anos também assina os créditos de figurinista de “Eu Matei Minha Mãe”, sua (elogiada) estreia nos cinemas, que lhe rendeu três prêmios no Festival de Cannes em 2009 e dezenas de outras honrarias em festivais menores. É curioso por um lado porque percebemos que o filme é beneficiado com um fôlego mais jovial, tem uma pegada firme que oscila alguns momentos videoclípticos até aceitáveis, porém é muita pompa e pouco conteúdo. Este é um ótimo representante do “cinema-frescura”, daqueles que mais se preocupam em como dizer, mas não dizem absolutamente nada. Com a pretensão óbvia e desesperada de se esquivar das concepções convencionais, como diretor, Dolan se limita na própria linguagem frenética e, ao mesmo tempo, contemplativa que emprega à sua história, reciclando os mesmos clichés das famílias desestruturadas, e apenas recontando-os de uma maneira diferente. Algumas opções se revelam interessantes, como o close em objetos que compõem o cenário que os personagens estarão inseridos na próxima cena, mas a (falta de) noção de espaço e os enquadramentos supérfluos e milimetricamente calculados acabam distraindo em vez de ajudar o espectador a adentrar o clima “pesado” do filme.



A despeito do overacting, Dolan se sai correto na composição de seu personagem ingrato – que o próprio criou, devo ressaltar –, ao passo que a ótima Anne Dorval rende alguns momentos inesquecíveis, positivamente – quando conversa com o diretor de um colégio por telefone – e negativamente, como na cena em que invade aos berros a escola do filho para tirar satisfações com o garoto, o que me fez virar a cara de vergonha em perceber ao absurdo que o roteiro apela para comprarmos a ideia de que Hubert tem mesmo motivos para odiar a sua mãe. Ai, ai. Porém, apesar das brigas intermináveis, compreendemos pelas cenas de reconciliação que esses dois loucos escondem um amor mútuo, só que não fazem questão de mostrar.

Com mais dois filmes engatados graças ao sucesso de “Eu Matei Minha Mãe” – que Dolan declarou ser semi-autobiográfico –, o diretor ainda tem que confirmar a que veio e talvez sair da zona de conforto, senão vai acabar como um Louis Garrel da vida. O que, sinceramente, eu acho que é a sua intenção.


NOTA: 5,0


EU MATEI MINHA MÃE (J’ai Tué ma Mère) Canadá, 2009
Direção e Roteiro: Xavier Dolan
Elenco: Xavier Dolan, Anne Dorval, François Arnaud, Suzanne Clément e Patrícia Tuslane

24 de jan. de 2011

O Turista


O principal atrativo que faz de “O Turista” um filme imperdível é a equipe invejável de profissionais envolvidos na criação artística do longa. Em março do ano passado, quando o projeto foi anunciado, muitos cinéfilos já ficaram antenados com um possível grande filme de espionagem que poderia surgir, pois levando em consideração o time de grandes nomes que encabeçam a fita, era de se esperar uma obra-prima. Chamem para diretor o alemão Florian Henckel von Donnersmarck, que fez plateias de todo mundo se emocionarem com o belíssimo “A Vida dos Outros”, e ainda lhe atribua a missão de roteirizar um filme de ação com pitadas de romance ao lado de escritores do calibre de Christopher McQuarrie e Julian Fellowes. Nada mais do que um James Newton Howard para se encarregar da trilha sonora, como responsável de dar a iluminação adequada a uma Veneza estonteante um tal de John Seale, Joe Hutshing fica incumbido de editar o resultado final das filmagens e ninguém mais do que uma “costureira” conhecida no mercado como Colleen Atwood para desenhar alguns vestidos luxuosos para a atriz principal. Para engrossar o caldo, convide como protagonistas nada mais do que Johnny Depp e Angelina Jolie, dois dos atores mais cobiçados de Hollywood – e das revistas de fofocas – e façam deles um casal romântico. Voilá! O manual para se fazer um clássico do gênero ou, ao menos, um ótimo entretenimento está pronto. Contudo, é lamentável que, na prática, absolutamente todas (TODAS!) essas peças fundamentais para “O Turista” engrenar estavam enferrujadas, rendendo uma das maiores frustrações dos últimos anos que reúna tantos oscarizados por metro quadrado.

Em Paris, as câmeras atentas da Scotland Yard, em operação junto com a polícia local, registram cada movimento da bela Elise (Jolie) na tentativa de surgir alguma informação para capturar o seu amante, Alexander Pierce, um fugitivo que não está apenas na mira da Polícia Metropolitana de Londres por desviar milhões em impostos, mas também na lista de procuras do mafioso Reginald Shaw (Berkoff), que fora roubado por Pierce enquanto este era seu empregado. Na cena inicial, a mulher recebe um bilhete assinado pelo foragido ordenando-a a embarcar no próximo trem para Veneza, encontrar um homem durante a viagem que possa “lembrá-lo” e repassar sua identidade ao desconhecido, como um plano para despistar os inimigos. Elise escolhe o pacato e sensível professor de matemática Frank (Depp), que está na Itália a passeio, e a partir dessa atraente sequência inicial, pode-se esperar todos os clichés possíveis dos filmes sobre “o homem errado”, só que com doses miseráveis de carisma e suspense.

Pra começar, uma “brincadeira despretensiosa” – expressão semelhante ao que muitos críticos usam para defender esse rascunho de cinema: qual gênero “O Turista” poderia ser classificado? Não me julguem, também acho arbitrário querer enquadrar um filme dentro de um gênero específico, considerando a natureza multifacetada de muitos projetos, mas acho válido, ao menos, citar uma das denominações até como um repasse de informação a outras pessoas interessadas. Eu sei, por exemplo, que a maioria dos votantes do Globo de Ouro se divertiu e conseguiram achar alguma graça nas piadas cretinas do filme a ponto de classificá-lo como uma comédia e indicar a produção em uma das categorias máximas da premiação. De acordo. Outras pessoas têm o livre arbítrio de achar um filme de ação, já que a trilha sonora de Howard é eletrizante – ótima de se ouvir no computador – e tenta convencer o espectador a todo custo de que as cenas de perseguição presentes no filme são mesmo empolgantes, o que eu discordo completamente. Achei de uma monotonia sacal e uma falta de ritmo que incomoda; poucas vezes presenciei uma sequência tão patética e desestimulante como aquela em que Elise tenta resgatar Frank com um barco nos canais de Veneza, o que me custou a acreditar que foram necessários dois montadores para executar esse trabalho ridículo – entre eles o duplamente oscarizado Joe Hutshing. A arma de defesa de muitos: “o filme não cai nos clichés dos filmes de ação norte-americanos, tem um ar mais europeu”. Hã? Assistam “Um Homem Misterioso”, com George Clooney, e depois conversamos.



Romance? Também pode ser, já que lá pelas tantas, dois indivíduos completamente diferentes acham um ponto em comum entre si e se apaixonam, trocam um ou dois beijos e o preço do ingresso do cinema só para ver Depp e Jolie se beijando já foi garantido. Minha versão: durante todo o filme, tive a impressão de ter um muro de 2 metros separando os atores em lados opostos, pois a química e o dinamismo entre o casal é nulo, inexistente e inexpressivo. Como se sentir fisgado e considerar “O Turista” um romance se o par que supostamente deveria ser romântico não passa de dois tocos de madeira? E pra comprometer ainda mais o projeto, parece que ninguém avisou à Jolie que ela deveria interpretar uma “agente da Interpol disfarçada para capturar o homem que ela ama (!)”, em vez disso, a atriz apenas faz exposição da sua figura, lambuzando os lábios de batom vermelho, vestindo roupas elegantes, mas exageradas para todas as ocasiões que aparece – foi mal, Atwood – e desfilando por entre os cenários para que todos os figurantes – que nem estes se salvam – cedam espaço para Mrs. Pitt possa desfilar. Linda? Uau, simplesmente deslumbrante, quem fala mal das curvas e dos olhares fatais de Angelina Jolie não bate bem da cabeça, mas este é um filme, e não um comercial da Dolce e Gabbana, oras. E Johnny Depp também não fica devendo em nada com sua performance absolutamente vergonhosa, sem dúvidas, a pior de sua carreira.

A única explicação (ou não) para uma direção tão mecânica e sem um pingo de autenticidade de von Donnersmarck talvez tenha sido a o peso da responsabilidade de estrear no cinema comercial norte-americano já dirigindo um filme com uma equipe monstruosa em termos de talento, o que naturalmente tenha brotado muita expectativa em cima da produção. No mais, por conta da sua estreia avassaladora no comando de “A Vida dos Outros”, ainda deposito alguma confiança no diretor. Seu próximo trabalho é que vai definir a que realmente veio. Enfim, exibindo uma história sem fôlego extraído de um roteiro primário e mal desenvolvido, “O Turista” simplesmente é um filme que não tinha razão de existir porque representa uma vergonha para todos os envolvidos, que, sem dúvidas, tem muito mais potencial do que essa porcaria, como diriam os defensores, de “caráter europeu”.


NOTA: 1,0


O TURISTA (The Tourist) EUA, 2010
Direção: Florian Henckel von Donnersmarck
Roteiro: Florian Henckel von Donnersmarck, Christopher McQuarrie e Julian Fellowes
Elenco: Johnny Depp, Angelina Jolie, Paul Bettany, Timothy Dalton e Steven Berkoff

20 de jan. de 2011

Sentimento de Culpa


Quem nunca assistiu a um filme acompanhado de alguém que, ao término da sessão, se sentiu frustrado por não acontecer “nada”? É curioso perceber que a maioria das pessoas vai ao cinema mais com a intenção de acompanhar os desdobramentos de uma história, em vez de testemunhar um retrato da realidade, que mesmo não apresentando grandes acontecimentos ou reviravoltas mirabolantes, de alguma forma, produz algum efeito positivo – ou negativo, desconfortável, por que não? – no espectador por introduzir nas entrelinhas, de forma sutil, um assunto que desperta a reflexão. Há muitos teóricos que depositam a responsabilidade sobre Hollywood por terem usado o cinema como uma simples ferramenta para contar histórias, afirmação esta que casa perfeitamente com a do renomado cineasta francês François Truffaut, que, certa vez, disse algo semelhante à “os melhores filmes não têm os melhores roteiros”. Eu considero essa citação polêmica e oscilante, pois dependendo do meu humor, assino embaixo, mas isso varia conforme o filme, a situação, o tempo, o espaço e vários outros fatores que devem ser avaliados. No mais, discordo muito dos detratores de que Hollywood é a “culpada” por pasteurizar o cinema e reduzi-lo a meras histórias com modelo definido – começo, desenvolvimento e desfecho –, já que todo o mundo basicamente importou e progrediu com essa ideia, de uma forma ou de outra.

Enfim, sendo norte-americano ou não, é de se comemorar quando nos deparamos com um filme que foge completamente desse conceito esquemático e se preocupa mais com o clima, com o ambiente, com o momento e com os personagens, buscando uma maneira de casar esses aspectos com veracidade e fazer com que soam interessantes para o espectador. “Sentimento de Culpa” é um desses raros exemplares, tendo o seu maior mérito a negação do esforço para que tudo pareça convincente, pois tudo flui com perfeita naturalidade. Escrito pela também diretora Nicole Holofcener, a trama se baseia em duas famílias cuja única similaridade que dividem é a de morarem no mesmo prédio, em apartamentos opostos. Kate (Keener) e Alex (Platt) administram um mercado mobiliário, em que as peças antiquadas são compradas de filhos de idosos recém-falecidos. Com a intenção de ampliar os cômodos da casa, o casal praticamente risca os dias no calendário para que a senhora de 91 anos que mora ao lado, a ranzinza Andra (Guilbert), bata as botas para que eles possam comprar seu apartamento, que ela divide com a jovem neta Rebecca (Hall). Entre passeios pelo bairro com os cachorros e encontros casuais no elevador, as duas famílias ficam unidas e dessa aproximação, nasce entre eles uma modesta amizade concomitante ao tal sentimento de culpa do título.

Com certeza, esse seria mais um filme que muitos espectadores acomodados diriam que “nada” acontece. Na verdade, não há mesmo um assunto evidente que o filme pretende discutir, mas sem invadir a privacidade dos personagens, o roteiro de Holofcener consegue a proeza de contar sua eficiente história apenas retratando os momentos de conforto e os pontos de fraquezas dessas figuras – e é justamente essa irresistível dicotomia que os fazem ser pessoas tão reais. No entanto, se for para destacar “sobre” o que é “Sentimento de Culpa”, arriscaria em dizer que se trata de um belo retrato sobre a rejeição do inevitável processo de maturidade/envelhecimento e da efemeridade da existência humana.

O primeiro tema é representado pela adolescente de 15 anos Abby (Steele), que se preocupa com as acnes em forma de vulcões que pipocam em seu rosto e vislumbra com um jeans caríssimo para realçar seu corpo em formação. A irônica e malvada irmã mais velha de Rebecca, Mary (Peet, ótima), se enquadra no quesito de negar o próprio envelhecimento, já que reserva horas do seu tempo para se esticar uma cama bronzeadora a fim de se aparentar mais jovem, e quando não está fritando o corpo na máquina, prontifica-se a vigiar (e invejar) a garota mais nova pelo qual seu namorado a trocou. Também se pode incluir nesse time o pai da família, interpretado por Oliver Platt, que frequentemente tira sarro da vizinha idosa, caçoa de um homem de cabelos brancos em determinada cena e para esconder a idade que tem, decide fazer tratamentos faciais e sentir-se satisfeito com a própria aparência.



Já a questão da morte, além de Rebecca trabalhar em uma clínica onde tira radiografia de mulheres com possíveis tumores na mama – sendo o contato com casos de óbito, portanto, inevitável – a jovem ainda tem em casa uma senhora com um pé na cova por conta da saúde debilitada, que apenas aguarda o momento pelo qual todos – menos ela – estão esperando. E não poderia deixar de citar a própria questão dos móveis usados e vendidos pelo casal. É engraçado e, ao mesmo tempo, doloroso acompanhar os sintomas de arrependimento que assaltam Kate, interpretada com absoluto talento por Catherine Keener. Atuando como protagonista em todos os quatro filmes de Holofcener desde então – entre eles, os corretos “Encontro de Irmãs” e “Amigas com Dinheiro” –, Keener constrói uma personagem complexa que se revela um paradoxo em forma de gente, mesclando meiguice, solidariedade e delicadeza, já que praticamente sustenta os mendigos do seu bairro, com o egoísmo e o sarcasmo de seus comentários ácidos. Mas, assim como todos, são personagens tremendamente humanos, palpáveis, que foram muito felizes em cair nas mãos de atores competentes como os que aqui se encontram – tanto que o Independent Spirit Awards deste ano vai conceder o prêmio Robert Altman Awards de Melhor Elenco para este excelente grupo de atores. Honra merecidíssima, diga-se.

Alternando entre momentos dóceis e outros um tanto agressivos – com a fabulosa cena do jantar em “comemoração” dos 91 anos de Andra, em que todos até poderiam fazer uma vaquinha para lhe dar um caixão de presente –, “Sentimento de Culpa” é simultaneamente um filme agradável e amargo como fel, nocivo, porém com um humor negro que chega a ofender, maduro e ingênuo, e, por fim, engraçado pela argúcia, mas também emocionante graças ao seu realismo. E se um pequeno filme independente de 90 minutos conseguiu combinar tantas qualidades opostas – como a sua personagem central – e não soar forçado, no mínimo, é um filme que não deve ser ignorado.


NOTA: 8,0


SENTIMENTO DE CULPA (Please Give) EUA, 2010
Direção e Roteiro: Nicole Holofcener
Elenco: Catherine Keener, Rebecca Hall, Oliver Platt, Amanda Peet, Sarah Steele e Ann Guilbert

18 de jan. de 2011

Atração Perigosa


O início da década passada representou um declínio em queda livre na carreira artística de Ben Affleck, após a glória de conquistar em 97 o Oscar de Roteiro Original por “Gênio Indomável”. A partir daí, focando suas atenções na área da atuação, Affleck encarou papeis coadjuvantes em filmes badalados, como “Armageddon” e “Shakespeare Apaixonado”. A popularidade do ator aumentou, no entanto, ao protagonizar blockbusters de qualidade duvidosa como “Pearl Harbor”, “O Demolidor” e o fracasso “Sobrevivendo ao Natal”, os quais lhe rendeu algumas merecidas indicações ao Framboesa de Ouro. Com a moral no mais profundo abismo negro da indústria e ainda denegrindo a própria imagem em programas de TV se gabando do sucesso efêmero, a situação do ator engrossou quando engatou um romance desgastado pela mídia com a cantora e atriz Jennifer Lopez, que, juntos, se aventuraram em um dos filmes mais bizarros do cinema, “Contato de Risco”. Ninguém esperava um retorno de alguém já fadado ao fracasso, mas o progressivo comeback de Affleck começou em 2006, quando foi laureado no Festival de Veneza com o prêmio de Melhor Ator por “Hollywoodland – Bastidores da Fama”. No ano seguinte, estreando na função de diretor, Affleck comandou “Medo da Verdade”, projeto corajoso que conta com uma narrativa admiravelmente bem conduzida; e em 2009, ofuscou um grande elenco na pele de um congressista ambicioso em “Intrigas de Estado”. Recentemente, dirigiu e protagonizou o thriller “Atração Perigosa”, um dos filmes mais elogiados pela crítica em 2010 e que registrou um invejável faturamento nas bilheterias: US$ 92 milhões só nos EUA.

Os números favoráveis estabelecem Ben Affleck como um cineasta que tem um futuro promissor por trás das câmeras, e seu último filme pode ser, até agora, considerado o ápice de sua filmografia curta, porém notável. Ainda colhendo as cinzas do passado fruto das más escolhas e influências, a redenção do ator se apresenta, principalmente, pela revelação dos competentes trabalhos de direção como este. Baseado no livro “Prince of Thieves”, de Chuck Hogan, a história se passa na cidade de Boston, mais precisamente em uma parte dela, a comunidade de Charlestown – “A Cidade”, do título original –, uma região perigosa encoberta pela nuvem negra do medo e da insegurança.

“Mãe” de assaltantes de bancos e carros-fortes, Charlestown, como indica a citação de um oficial da polícia logo nos créditos iniciais, tem uma tradição hereditária de bandidagem. Partindo desta afirmação, o roteiro se desenrola e introduz a gangue liderada por Douglas McRay (Affleck), cujo pai, Stephen (Cooper) foi setenciado à prisão perpétua ao ser detido roubando um carro-forte. O rapaz comanda uma equipe de ladrões cuidadosos, responsáveis e com total disciplina antes de agir, mas algo sai errado durante um assalto a um banco e eles levam como refém a jovem gerente Claire (Hall), que, mais tarde acaba se envolvendo com o líder do grupo sem realmente saber quem ele é. Essa aproximação com a vítima irrita seu comparsa e melhor amigo James (Renner), que exibindo um perfil agressivo e pouco temperamental, cria discórdias entre os membros, que, posteriormente, se veem como os alvos principais de uma investigação do FBI, sob o comando do incrédulo agente especial Adam Frawley (Hamm).

“Atração Perigosa” é um competente filme de ação que se mostra hábil em balancear cenas em que a adrenalina escorre pelo celulóide com outros momentos mais construtivos para a história, o que inclui alguns detalhes ditos pelos personagens que julgamos desnecessários, mas que, no decorrer da trama, é utilizado com inteligência pelo roteiro bem delineado. Ainda que traga nada de inovador ao gênero, o filme é interessante pelo olhar que Affleck lança sobre Boston, permanecendo fiel às suas pretensões, sem querer aprofundar nenhum descabido tipo de estudo social sobre divergências entre classes – talvez a principal explicação desse alto contingente de violência em Charlestown. Se recorresse com afinco a este tipo de análise, o material perderia o tom e a identidade, além de perigar o contato com o óbvio que caracteriza tantas produções que levantam críticas superficiais. Mais contido, em contrapartida, o diretor investe em registros panorâmicos da cidade, destacando pontos de referência e áreas residenciais, justamente com a intenção de mostrar o contraste de uma região aparentemente pacífica e com locações bem planejadas, mas que é conhecida como uma verdadeira faculdade do crime, cujo conteúdo se aprende desde o berço.



Outro ponto eficiente de “Atração Perigosa” consiste nas ótimas cenas de ação, sobretudo a que envolve uma perseguição pelas ruas apertadas da cidade. Se em tantos enlatados – o primeiro que me vem à cabeça é “Ponto de Vista” – quem assiste já sabe que o “mocinho” vai escapar, as armadilhas desta cena, em particular, direcionam o espectador a um respiro de alívio ao seu final por conta da tensão provocada com o auxílio fundamental da câmera nervosa de Affleck, que encontra a sintonia perfeita com o trabalho do excelente montador Dylan Tichenor. No entanto, “Atração Perigosa” não se despe totalmente dos clichés e frequentemente opta por caminhos mais convencionais para cair no gosto do público com maior facilidade. O aspecto mais incômodo, nesse sentido, é a determinação da personalidade dos personagens centrais, como a figura do agente do FBI, interpretado por Jon Hamm, que basicamente se comporta como se fosse o bandido da história (irônico, insuportável, temperamental e antiético); Affleck, que flerta com a canastrice no filme, interpreta um sujeito bondoso, apesar do mau caratismo; e, por fim, a ótima Rebecca Hall, que empresta a caricatura da mocinha frágil e desprotegida, conforme exige o roteiro.

Mas ainda que essa caracterização seja grave, não se impõe sobre o trabalho homogeneamente satisfatório do elenco, cujos destaques vão para Jeremy Renner – indicado ao Globo de Ouro, ao SAG e pretendente ao Oscar – e Chris Cooper, que merecia mais atenção pelo filme, já que a única cena em que aparece está simplesmente perfeito. Ainda trazendo ótimos desempenhos da gossip girl Blake Lively e do veterano Pete Postlethwaite, recém falecido vítima de câncer, “Atração Perigosa” é um bom filme que se preocupa com a história da mesma forma que exibe proteção e cuidados com seus personagens, mesmo que o todo não deixe de ser bem previsível.


NOTA: 6,5


ATRAÇÃO PERIGOSA (The Town) EUA, 2010
Direção: Ben Affleck
Roteiro: Peter Craig, Ben Affleck e Aaron Stockard
Elenco: Ben Affleck, Rebecca Hall, Jon Hamm, Jeremy Renner, Blake Lively, Pete Postlethwaite e Chris Cooper

12 de jan. de 2011

Minhas Mães e Meu Pai


É notável no cinema contemporâneo certa desvirtuação de valores quando se discute o multifacetado universo do “cinema independente”. Antes, pode-se dizer que talvez fosse o único método para um novato aspirante a cineasta expor seus dotes artísticos, mas havia também aqueles renomados auteurs radicais que reprovavam qualquer intervenção dos estúdios no conteúdo de seus filmes, e optavam pela fidelização de seus sentimentos com obras que os próprios pudessem financiar. Além das qualidades básicas que caracterizam esse tipo de expressão à margem da indústria, como o desvinculo com grandes produtoras e os baixos orçamentos, o cinema indie ganhou nova roupagem, fixando uma noção de identidade própria, que muitas vezes viabilizam filmes memoráveis, mas tantas outras acaba sendo um boicote à originalidade. Não dá pra negar que, nos últimos anos, o cinema independente parece ter criado uma cartilha com elementos peculiares (e inconvenientes) que recheiam uma parcela considerável dos filmes lançados e que, mal saíram do forno, recebem – pela mídia, principalmente – o carimbo de “alternativo” na certidão de registro. Alternativo uma ova! Isso só no nome, porque não passam de estereótipos e clichés criados dentro de casa, que destroem com qualquer conceito de “liberdade” e “independência” que tanto esses artistas tentam pregar. Infelizmente, este é o caso do supervalorizado “Minhas Mães e Meu Pai”, um indie sem autenticidade que não sai de sua área de conforto concebida por essa “mini-indústria”, que como o mercadão hollywoodiano, também reserva graves limitações.

O roteiro, escrito pela também diretora Lisa Cholodenko ao lado de Stuart Blumberg (“Show de Vizinha”), se concentra na família encabeçada pelo casal homossexual formado pela médica Nic (Bening) e a arquiteta paisagista Jules (Moore). Mães de filhos adolescentes, a relação entre os membros é agradável e a paz reina na casa da família até o momento em que o filho mais novo, Laser (Hutcherson), convence sua irmã de 18, Joni (Wasikowska), a telefonar para o Centro de Fertilidade e coletar informações sobre seu pai biológico. Então, entra na história o descontraído Paul (Ruffalo), que se torna uma visita constante na casa da família, o que desenfreia uma crise de ciúmes e desestabiliza o ambiente outrora pacífico do lar.

Talvez o aspecto mais frustrante de “Minhas Mães e Meu Pai” é perceber que o plot do filme renderia uma produção com muito potencial; entretanto a opção de Cholodenko por navegar em mares calmos, utilizando como muleta os conceitos pré-estabelecidos pelo cinema independente norte-americano, fez nascer uma das maiores decepções do ano – não que o filme seja excepcionalmente ruim, mas só ficou na promessa. Dotado de um roteiro absurdamente enferrujado, mais do que intenções artísticas, aparentemente o que a diretora – homossexual assumida – pretende com este filme é mostrar que gays têm dois olhos, uma boca, duas orelhas e um nariz. Em outras palavras, também são pessoas responsáveis, amorosas, com sentimentos e intelectualmente capazes de manter um trabalho e conciliá-lo com uma família perfeita. O tratamento convencional que recebe destoa de uma exigência mais atenta, comprometida e menos óbvia, pois “Minhas Mães e Meu Pai” é sustentado por um emaranhado de convenções que permeia na história.

O roteiro esquemático e calculado ainda tramita por decisões bem insatisfatórias, como o envolvimento entre Jules e Paul, justificado por um motivo patife, que Manoel Carlos deva ter usado em quase todos os seus folhetins da Rede Globo. Esse direcionamento errôneo compromete a trabalho de direção e desencadeia os exageros de Nic, que, em muitos momentos, enche a cara de vinho e age de forma totalmente estúpida, evidenciando não ter domínio próprio ao vomitar várias grosserias para seu cônjuge. Aqui, a razão pelas atitudes da personagem é até aceitável, mas o excesso rebaixa a figura – está mais para isso do que para um personagem sólido, tamanha a caricatura. Ademais, o filme peca pela economia das cenas mais proveitosas e ainda entrega momentos absolutamente mal desenvolvidos e vexaminosos, como aquela maldita parte que envolve um vídeo pornô, que ganha avaliação negativa no quesito sutileza.



No entanto, é muito injusto levantar apenas os defeitos do filme, visto que “Minhas Mães e Meu Pai” é caloroso, acolhedor e deixa transparecer emotividade em seus 25 minutos finais, o que cativa o espectador, mas é uma pena que essa dose de vivacidade só apareça no terceiro ato. Da mesma forma, há momentos isolados que merecem menção como a tentativa de Nic em se aproximar de Paul na ótima cena de jantar, em que ambos fazem um dueto de Joni Mitchell ou quando o rapaz e Jules convencem o espectador de que não vão mais prosseguir com as puladas de cerca para na próxima tomada cortar para os dois na cama, “arrependidos” do sexo. A maior virtude, no entanto, reside mesmo nos seu elenco homogeneamente eficaz. E considerando as limitações do roteiro para o desenvolvimento dos personagens, é até um milagre o que esses talentosos atores alcançaram com suas performances espertas e convincentes.

Sabotado por uma tradução ridícula e cafona, digno de uma comédia dos anos 90 protagonizada por Goldie Hawn, Bette Midler e Chevy Chase (?), seria muito mais coerente a distribuidora (francamente, Imagem Filmes...) usar o pé da letra do título original. Eu interpreto “As Crianças Estão Bem” como aquela resposta automática que muitos pais dão ao serem perguntados pelos filhos, mas, neste caso, seria até uma própria restrição ao personagem de Ruffalo impostas pelas protagonistas, como se se explicassem “as crianças estão bem, não precisam de uma figura paterna para completarem seus caracteres.” Com quatro nomeações no Globo de Ouro, “Minhas Mães e Meu Pai” tem tudo para se consagrar na premiação, visto a lista de indicados igualmente medíocre. Mas lá pode, contanto que essa dobradinha não se repita no Oscar, ficarei bem satisfeito.


NOTA: 5,5


MINHAS MÃES E MEU PAI (The Kids Are All Right) EUA, 2010
Direção: Lisa Cholodenko
Roteiro: Lisa Cholodenko e Stuart Blumberg
Elenco: Annette Bening, Julianne Moore, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska e Josh Hutcherson