
Abril de 2003. Foi nesse período que o escalador Aron Ralston reservou um final de semana ensolarado para se aventurar em mais uma de suas expedições buscando explorar a beleza natural de escarpadas regiões montanhosas e aproveitar a espetacular paisagem geográfica para registrar a viagem com os dispositivos de sua única – e fiel – acompanhante, uma pequena câmera de mão. O lugar escolhido para o desbravamento foi o cânion Blue John, localizado nos confins do Estado de Utah, oeste dos Estados Unidos. Lá, Ralston conhece duas excursionistas perdidas e se oferece como guia para orientá-las no percurso, mas o destino do rapaz é outro: sua pretensão é chegar até um local estratégico para praticar rapel. No entanto, para economizar tempo e disposição física, o alpinista resolve cortar o trajeto por um atalho, mas se depara, literalmente, com uma pedra no meio do caminho. Ao apoiar-se nas paredes rochosas em uma fenda estreita, uma pedra de meia tonelada o derruba até à superfície e esmaga sua mão, o que lhe deixa prisioneiro no deserto por agonizantes 127 horas. As lembranças desse lamentável episódio deram origem ao livro “Between a Rock and a Hard Place”, recentemente adaptado para as telonas pelos oscarizados Simon Beaufoy e Danny Boyle. O resultado é uma experiência empírica das mais insuportáveis do cinema contemporâneo, e o filme em si uma das produções mais audaciosas e admiráveis em termos narrativos de 2010.
Afinal, a premissa do filme é um desafio por natureza. Como manter um público de espectadores acostumados com shows pirotécnicos de efeitos visuais permanecerem interessados em uma história que se passa quase integralmente no mesmo cenário e com um único personagem? Todos os departamentos do filme trabalham a favor para que “127 Horas” não se transforme em 93 minutos de pura monotonia, e conseguem a proeza com louvores. Não sei se é início de uma onda ou pura coincidência, mas o “cinema claustrofobia” é uma vertente que está ganhando certo destaque, considerando alguns lançamentos recentes, como “FilmeFobia” – terror brazuca experimental e pouco conhecido –, “Enterrado Vivo” e o 3-D “Santuário”, atualmente em cartaz nos cinemas. “127 Horas” incrementa esse tipo de exemplar, cuja sensação angustiante de sentir-se refém de alguma estrutura – sejam ela as profundezas do mar, um caixão ou uma rachadura entre duas montanhas – é a condição básica para o espectador corajoso que intenciona acompanhar o desfecho da armadilha casual.
Para potencializar o grau de desespero do protagonista encurralado e não deixar a sessão enfadonha, o roteiro aposta em flashbacks e algumas ilusões decorrentes da situação deplorável que ele se encontra – sem água e mantimentos, chega a beber a própria urina e comer a lente de contato. Assim, o espírito aventureiro que denunciava nos primeiros minutos se dissipa e o filme passa a investir em um drama existencialista. Durante os 5 dias que permaneceu preso nas rochas, Aron repensa a própria conduta, rendendo o melhor momento da trama quando simula um talk show representando ao mesmo tempo o anfitrião irônico e o convidado – ele mesmo – em posição desconfortável por reconhecer seus fracassos comportamentais sustentados pelo egoísmo, que o rapaz se autodeclara praticante ativo.
Sem demonstrar interesse de transformá-lo em um tipo de herói, “127 Horas” se mostra até relativamente intolerante com algumas atitudes reprováveis do alpinista, que perto da morte, passa a avaliar alguns acontecimentos dos quais se questiona os pensamentos que o levou às conclusões de seus atos – sobretudo quando envolve a namorada, que, aparentemente, ainda mexe com sua cabeça. Se algumas das recordações do protagonista se excedem e soam desnecessárias, outras beiram o lirismo, como quando Aron, enclausurado entre as rochas com direito a apenas 15 minutos diários de raio solar, se recorda de um evento da infância em que ele e seu pai assistem ao nascer do sol – sem dúvidas, uma lembrança que jamais lhe assaltaria a memória se não fosse pela emboscada que se encontra. Aí, entra em campo a espetacular montagem de Jon Harris, responsável não apenas pela requintada inserção dos flashbacks e pela dinâmica da tela dividida em partes, mas pelos cortes rápidos e precisos que entregam cada reação do rapaz com pontualidade.
Debruçando-se sobre uma linguagem moderna próxima ao videoclipe, que muito se aproxima daquela empregada em “Quem Quer Ser um Milionário?”, o diretor Danny Boyle se apropria do ritmo frenético, impulsionado pelo hábil jogo de câmeras registrando enquadramentos diferenciados, o que confere mais dinamismo à cena. Da mesma forma, Boyle utiliza recursos estéticos interessantes, como alternar o registro convencional do filme com a filmadora não-profissional de Ralston ou o recuo apressado adotado em duas cenas específicas, quando situa o espectador da profundidade em que ele se encontra e a distância do local até seu ponto de partida, evidenciado no momento em que o rapaz sedento fantasia uma bebida e a câmera localiza um Gatorade transpirando no banco traseiro de seu carro. Acompanhando todas essas alternâncias com propriedade, a fotografia da dupla Anthony Dod Mantle e Enrique Chediak é outro fator muito bem trabalhado no filme, desde a luz que salienta a aridez e o clima escaldante do cânion até a iluminação executada com profissionalismo, que altera conforme os diversos ângulos captados no mesmo ambiente.
As áreas técnica do filme, ressalto, são impecáveis. Contudo, o perfeito casamento telepático com que se comunicam pode passar despercebido por muitos espectadores não apenas pela aflição que a história evoca, mas devido ao tour de force de James Franco. Sem nenhum outro elemento para dividir a cena consigo, Franco é o centro absoluto das atenções e sua atuação é não menos que brilhante nas horas de desespero, de delírios, de esperança, tudo expressado com realismo, que, claro, não seria tão fiel se não fosse pelo desempenho dos profissionais técnicos. É uma pena, portanto, a desconfiança de que o filme vá sair com nenhuma estatueta entre as 6 categorias que compete no Oscar desse ano – incluindo Melhor Filme e Roteiro Adaptado. Mas analisando friamente a concorrência pesada, talvez essa possível “esnobada” possa consagrar filmes melhores. Ou então “O Discurso do Rei”.
NOTA: 8,0
127 HORAS (127 Hours) EUA, 2010
Direção: Danny Boyle
Roteiro: Simon Beaufoy e Danny Boyle
Elenco: James Franco, Kate Mara, Amber Tamblyn e Clémence Poésy





























