Pages

21 de dez de 2010

Um Doce Olhar


“Um Doce Olhar” encerra a premiada trilogia comandada pelo diretor turco Semih Kaplanoglu, que discorre sobre diferentes fases da vida de um personagem chamado Yusuf, que, embora tenha o mesmo nome, não se trata, necessariamente, da mesma pessoa nos três filmes. Os dois primeiros são “Ovo”, lançado em 2007, que traz como protagonista um poeta e proprietário de uma livraria que retorna à cidade natal para velar o corpo da mãe; o segundo capítulo, de 2008, é “Leite”, acerca de um adolescente que não consegue aprovação no vestibular e sonha em escrever poesias. Inéditos comercialmente no Brasil, esses filmes conseguiram visibilidade por meio de exibições em festivais de cinema, onde conquistaram prêmios concorridos e estabeleceram o nome de Kaplanoglu como um autor de obras poéticas e que prezam pela sinceridade. Premiado com o Leão de Ouro no Festival de Berlim deste ano, “Um Doce Olhar” – “Mel” seria a tradução literal – reafirma o apuro visual empregado pelo diretor e o naturalismo das cenas, que, aqui, servem para ilustrar o processo de descobertas do jovem protagonista. Dessa forma, o diretor recusa qualquer artifício espetacular para tornar a fita narrativamente mais dramática, preferindo apenas apresentar, com franqueza e de forma sutil, as ansiedades e ambições de uma criança provinciana de 6 anos, o que converte automaticamente o espectador em um mero voyeur de cada reação espontânea do garoto frente às circunstâncias da vida.

No entanto, a despeito das qualidades inegáveis do longa, “Um Certo Olhar” é prejudicado pelo ritmo demasiadamente lento e pelo seu perfil absorto, que impede maior envolvimento emocionalmente por parte do espectador com a história. Escrito pelo próprio diretor em companhia do roteirista Orçun Köksal, o filme se concentra em Yusuf (Altas), um garoto de poucas palavras, introspectivo, que frequentemente sai para procurar lugares na floresta com o pai apicultor, Yakup (Besikçioglu), para fixar colméias e cultivar abelhas fabricantes de mel. Junto com a mãe (Özen), que cuida de uma lavoura de hortaliças, a família mora em uma região montanhosa no norte da Turquia, cenário onde o pequeno Yusuf começa a se relacionar com sentimentos desconhecidos.

A cena inicial é um ótimo convite para o espectador adentrar o universo lírico do filme, mas, infelizmente, essa comunicação se evapora com tantos momentos esteticamente bem construídos, mas isolados e que pouco têm a acrescentar para a narrativa. Rodado em locações externas admiráveis pela sua beleza natural, o diretor opta por imagens abertas e, geralmente, com a câmera estática a fim de explorar as belas paisagens do local, de onde também são extraídos os sons ambientes que compõem a trilha sonora do filme, como o vento uivando ou os pássaros a cantar. Entretanto, a preocupação de Kaplanoglu não se resume à plasticidade, pois essa opção de posicionamento também é interessante por subentender a mediocridade humana frente à imensidão da natureza, porém sem recorrer a mensagens panfletárias. Essa interpretação é possível durante os longos planos panorâmicos que captura o pequeno Yusuf e o meio ambiente que parece o engolir. Trata-se de um filme bucólico, em que a natureza assume um importante papel na história.

Muitos apontariam “Um Doce Olhar” como um típico “filme de festival”. Essa definição é discutível, mas que não chega a depreciar os méritos evidentes do projeto, cuja linguagem não é mesmo acessível a todos os públicos. Na verdade, não é um longa que exige muito do seu espectador, a não ser sensibilidade e paciência. É contemplativo e econômico, para ser observado e apreciado (quem conseguir) com afeição, já que se trata de um singelo filme sob a perspectiva infantil em diversos fatores da vida humana. Alguns podem se encantar com a ingenuidade do protagonista, mas outros podem torcer o nariz pela ausência de diálogos e afetação da história.



Representante da Turquia para o Oscar 2011, “Um Doce Olhar” é um filme delicado e interessante, mas que destoa completamente com algumas passagens deslocadas e, para balancear, é prejudicado pela paixão que sente por si próprio. É como dizem: mel faz bem, mas em excesso, enjoa.


NOTA: 6,5


UM DOCE OLHAR (Bal) Turquia, 2010
Direção: Semih Kaplanoglu
Roteiro: Semih Kaplanoglu e Orçun Köksal
Elenco: Bora Altas, Erdal Besikçioglu, Tülin Özen, Ayse Altay e Alev Uçarer

7 comentários:

Pedro Henrique disse...

Certas coisas funcionam, e outras não, em Um Doce Olhar. Mas Semih filma bem (alguns planos do filme vão ficar comigo por bastante tempo).

Rodrigo Mendes disse...

O cinema Tcheco (era Milos Forman) , Russo e o Turco é outro cinema que tbm aprecio. Embora tenha visto poucos da safra.

Não conferi este filme.

Ótima resenha dela Elton!

Abs.
Rodrigo

Alyson Xyzyx disse...

Ainda não vi a obra, mas ja a tenho. Desconhecia todas as informações na introdução no texto e digo que o nome "Mel" seria mais agradável, original e chamativo, mesmo que iria confirmar ainda mais a expressão "Filme de festival" que ele recebe continuamente.

Abraços, Elton!

E Cine ao Cubo ja voltando.

Valeu!

Wanderley Teixeira disse...

Alô Elton!
Parabéns pela entrada na Sociedade dos Blogueiros Cinéfilos!
Q tenhamos um 2011 com filmes e discussões interessantes.

bruno knott disse...

Pena que ele tenha essas falhas, mas fiquei interessado... gosto de filmes lentos que não sejam ruins e esse parece ser o caso!

Abraços.

Cristiano Contreiras disse...

Sou mais um que desconheço a obra, na verdade tenho pouco conhecimento sobre este tipo de "cinema"...

Seu texto me deixou mais atento.

Acho que pode ser um filme que tenha algo a acrescentar, ainda que a narrativa lenta seja nítida.

abraço!

Elton Telles disse...

PEDRO: No final, o resultado é satisfatório. O que prejudica "Um Doce Olhar" é seu ritmo demasiadamente lento; compreendo as intenções e alguns simbolismos - como quando o garotinho começa a ver a lua no reflexo da água em um balde -, mas não foi um filme tão cativante. E concordo que o diretor é muito bem sucedido, ele sabe filmar e mexer com o espectador em alguns momentos. A cena q abre o filme é um belo exemplo.


Valeu, RODRIGO. De fato tem bons exemplares dessa safra que tu citou.


ALYSON: concordo contigo, meu caro. "Mel" seria um título mais chamativo mesmo, porém talvez não tão comercial - e a distribuidora realmente achava que este filme almejava público?. No aguardo pelo Cine ao Cubo de volta à ativa o/


Valeu, WANDERLEY. A gente se vê por lá ;D


BRUNO: "Um Doce Olhar" não é mesmo ruim, mas também está muito aquém de receber um prêmio de tamanha grandeza como o Urso de Ouro. É bonito, contemplativo, silencioso e discreto. Por outro lado, carece de fluidez.


CRISTIANO: vale a pena, sim. Tem cenas muito bonitas e um espetacular trabalho de fotografia. No entanto, fiquei surpreso que Herzog escolheu um filme tão ameno (diga-se monótono rs) para premiar em Berlim. Enfim, parte da minha curiosidade em assistir o filme também veio daí.


ABRAÇOS A TODOS!