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26 de dez de 2010

A Fita Branca


Mestre em retratar os instintos mais obscuros do ser humano, o austríaco Michael Haneke construiu sua carreira no cinema com filmes polêmicos que traçam estudos cruéis sobre comportamento humano atrelados a situações adversas e temas considerados (por muitos) tabus no mundo contemporâneo. Restringindo os comentários aos mais recentes, “A Professora de Piano” (2001) discute a impossibilidade do afeto dos personagens, cujos encontros predominam a perversidade sexual; “Caché”, de 2005, é um poderoso filme sobre a manipulação da imagem e uma história tensa de vingança, que foge completamente das convenções do gênero; e seu projeto mais catártico, “Violência Gratuita” – original de 1997, que ganhou um inexplicável remake em 2007 pelas mãos do próprio diretor –, um filme repulsivo que propõem um “jogo de resistência” com o espectador e prova, no final das contas, sua passividade frente aos atos de barbaridade. São obras(-primas) provocadoras, desconcertantes e que cutucam a ferida de quem assiste. Não muito distante dessas qualidades também está o seu último filme, “A Fita Branca”, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 2009.

Concebida pelo próprio Haneke, a história é ambientada em uma aldeia protestante alemã, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, onde perversos incidentes acabam preocupando os moradores. Como todos se conhecem e, aparentemente, não sustentam inimizades com os vilarejos vizinhos, os habitantes aceitam com estranheza esses eventos violentos, que ganham maior dimensão e periodicidade, envolvendo pessoas que desempenham funções importantes no local – ou próximas a elas –, como o Barão, o doutor, a única parteira da região, dentre outros. “A Fita Branca” é sustentado por várias subtramas que mostram as reações dos habitantes perante esses acontecimentos sinistros, sendo qualquer um acusado de ser o causador da desordem, como também a próxima vítima.

Porém, mais do que indicar os possíveis autor(es) das brincadeiras macabras à medida que o enredo avança, o filme se preocupa em fazer uma interessante investigação sobre a gênese do mal, remetendo claramente aos eventos duvidosos do pequeno povoado em diálogo com a origem do Nazismo, que infecctou a Alemanha a partir da década de 30. No entanto, muitos se limitam em classificar o projeto como um mero retrato dos antecedentes nazistas, considerando apenas o país em que se passa a trama, mas o filme vai além. “A Fita Branca” se apropria de um argumento que demonstra um dos vários caminhos que direcionam uma sociedade a patamares irreversíveis de opressão, fanatismo e alienação. A educação repressora com que os personagens adultos criam seus filhos são os principais indícios da nascença do autoritarismo naquele local, o que, consequentemente, decai sobre as crianças da aldeia a suspeita pela autoria dos atos de tortura como uma maneira de extravazar a rigidez paternal. Mas essa é apenas uma possibilidade e o flerte com a incerteza apenas enriquece a trama, que se revela um ótimo exercício de dialética.

Intercalado por momentos absolutamente acachapantes, a rispidez de determinadas cenas torna a sessão de “A Fita Branca” uma experiência perturbadora, que mergulhada em um preto-e-branco sombrio e característico à época, alimenta o grau de frieza e desconforto imperantes sobre a narrativa. Apontar apenas uma das cenas soa até injusto, mas aquela em que o garoto confessa ao pai pastor que tem desejos sexuais talvez seja um dos momentos mais tensos de toda a história, explicável porque estampa o cartaz de divulgação do filme. Mas esta cena específica rivaliza com tantas outras, como a do garotinho inocente que descobre as “causas” da morte durante o jantar ou aquela que ilustra um diálogo humilhante e assombroso entre o doutor e a parteira do vilarejo, outrora amantes. O espectador não é apresentado formalmente aos personagens que povoam “A Fita Branca”, mas cenas como estas dizem muito sobre cada um, mais do que muitos filmes que não dizem nada nem sobre o protagonista em seus 90 minutos de duração.



Recurso banalizado em inúmeros projetos como artifício para mastigar a história e torná-la mais compreensível ao espectador, a elegante narração em off de “A Fita Branca” desempenha papel importante, funcionando como catalisador da aura de mistério que alicerça o filme. E é com muito pouco que Haneke, exibindo seu já conhecido rigor técnico e precisão, transforma a pequena aldeia em um antro de maldade, inveja e indiferença. Violento, mas sem ser explícito, a força do filme reside na crueza dos diálogos, em conjunto com a solidez da câmera silenciosa e com um elenco majoritariamente composto por estreantes – sobretudo as crianças –, que assumem personagens desafiadores e rendem performances memoráveis.

Ainda contando com uma fotografia exuberante assinada pelo também austríaco Christian Berger – parceiro habitual de Haneke –, “A Fita Branca” é um filme que não dá respostas fáceis, por outro lado, oferece uma parábola contundente e reflexiva.


NOTA: 8,5


A FITA BRANCA (Das Weisse Band – Eine Deutsche Kindergeschichte) Alemanha, 2009
Direção e Roteiro: Michael Haneke
Elenco: Christian Friedel, Leonie Beneschi, Ulrich Tukur, Burghat Klaussner e Susanne Lothar

9 comentários:

Wally disse...

Eu achei esse filme incrível. Terminou e eu queria apenas revê-lo. A minuciosidade da condução, a fotografia, o roteiro, as atuações... filme maravilhoso. Dei 9.

Hugo disse...

O cinema de Michael Haneke não é para todos, suas histórias vão fundo no lado negro da personalidade humana.

Estou com filme em casa para assistir.

Abraço

Reinaldo Glioche disse...

Uau! Perfeita crítica Elton. Vc desconstruiu o filme de forma assertiva. Gostei, principalmente, de sua menção a elegância (e a função catalisadora) da narração em off aqui. Excelente percepção.
Grande abraço!

Alyson Xyzyx disse...

Não senti muita empolgação da sua parte com o filme, isso confere ou é apenas impressão minha?

Olha, Michael Haneke adora se aprofundar nas entrelinhas dos mais estranhos sentimentos humanos, principalmente quando chega perto de ser desumano. É a idéia de Michael sobre a nossa pele. Exposta numa luminosa pintura em preto e branco retratado em choques constantes

Ao meu ver, nada é tão forte quanto o argumento e suas situações e a exploração de suas figuras. O filme é, para mim, sobre a corrupção da inocência e como aqueles que fomentam a corrupção, como pode colher os frutos desse horror trabalhado pelo próprio ego.

“A Fita branca” também argumenta que a "justiça" pode ser pouco mais do que um manto de disfarce - alguns dos indivíduos aparentemente mais retos são aqueles com o mais profundo dessecação moral. Por que nos surpreenderíamos com certas atitudes, sendo que o que vem do homem, nada mais nos surpreende?

Haneke também não trata de estereótipos unidimensionais. Com isso, os personagens são as fontes de onde saem às podridões subjacentes das pessoas locais do vilarejo, aparentemente bem orientadas e plácidas, mas o diretor é implacável em ilustrar os elementos contraditórios.
O interessante é que Haneke não fornece todos os significados das reflexões que devem ser tiradas dos personagens com facilidade. É tudo delineado e dedutivo. Não há uma solução limpa, apenas possibilidades.

Haneke cria um ritmo deliberado, retardando o ritmo narrativo. Assim como em Violência Gratuita, pegamos momentos em que a câmera não se movimenta, mas muita coisa acontece, até quando somos vetados de certas ações.

E tenho todos os filmes do cara e vejo que cada vez mais ele mantem a constancia de fazer obras-primas.

Abraço! Diretos aqui de Maringa, pena que é rapidão. Fica pra proxima aquela sessão. hehe.

renatocinema disse...

Assisti esse filme no dia errado.

Eu escuto tantos elogios sobre essa produção.......e não gostei quando vi.

Vou assistir novamente.

URGENTE

Gui Barreto disse...

E ai Elton, td bem?

Acredita que até hoje não assisti nada do Haneke. Tenho A Fita Branca e Violência Gratuita, mas até hoje não tive tempo de assistir ainda...preciso reservar umas horinhas pra ver, mas realmente todo mundo diz que as produções dele são mto boas.....preciso conferir..

Belo texto...parabens!

Abrs

Rodrigo Mendes disse...

DETONOU!!! Rs

Excelente texto!

Este filme me mata. Fico pasmo com ele!

Abs.
Rodrigo

Daniela Gomes disse...

Olá Elton :)
Sumida, como sempre, mas com tempo para comentar em algumas rápidas passadas. Hoje em especial, porque não entendi o 8,5 em meio a tantos elogios pontuados. Concordo caso o motivo seja em relação com as outras obras do diretor, as comentadas mesmo. Mas ainda assim, gosto tanto de "A Fita Branca" que daria 10.
Excelentes críticas rapaz. Gosto muito de passar por aqui.
Grande Abraço,
Dani

Elton Telles disse...

WALLY: pois eu revi na sequência. Difícil foi digerir toda a gelidez da história, mas a segunda vez foi mais para admirar o trabalho de todos esses departamentos que tu citou. É mesmo um trabalho louvável de todos, em um filme denso e perturbador.


HUGO: de acordo. Não é o seu melhor, mas está certamente entre eles. E isso, tu sabe, é um puta elogio.


Ae REINALDO, muito obrigado pelo seu comentário! A narração em off de "A Fita Branca" é uma ferramenta indispensável para permanecer o grau de mistério. Foi muito utilizada e a voz do professor já velho também traz ressonâncias de um homem que, creio eu, foi vítima da guerra, dentre tantas interpretações rs.


ALYSON, uau, perfeitas colocações! Assino embaixo de absolutamente todas as suas observações sobre o filme e o minuncioso trabalho de Haneke. Interessante, como tu aponta, que Haneke sempre sugere, indica nas entrelinhas; ele mergulha nos olhos dos personagens, mas a incerteza assombra os cômodos e ambientes daquele vilarejo "inseguro". Assim como um estudo psicológico, também enxergo "A Fita Branca" como uma indução de que esse tal vilarejo não tem raízes fixadas, nem tempo determinado. Está aqui e ali, sendo possível de se plantar em todos os lugares e a qualquer época.

Hehe, foi impressão sua! Gostei demais do filme, acho excelente! E que pena que ficou pouco tempo em Maringá, me dê um toque quando vir novamente! (Y)


RENATO, à primeira vista o espectador pode estranhar mesmo. É um filme admirável, mas não é a melhor coisa para se assistir. É um filme incômodo e provocador. É um digno Haneke rs. Dê mais uma chance. Talvez revisitando, tu note as grandes qualidades dessa parábola soturna =D


Vlaeu, GUI. Cara, blasfêmia não assistir nada do Haneke. Veja pra ontem! Filmaços um atrás do outro ;)


RODRIGO: Ae, valeu pelo comentário! o/


Ae DANIELA, que grata surpresa ver um comentário seu aqui no blog. Fico feliz de te ver por aqui, mas triste pelo Lágrimas e Cinemas não estar sendo atualizado. Tem alguma previsão de retorno?

Muito obrigado pela passagem! Então, "A Fita Branca" é um excelente filme, sem dúvidas, mas tiveram algumas coisinhas que não me agradaram, mas é sacanagem tu me pedir para apontar os "defeitos" de um filme tão bom rs. Eu acho que o tratamento de alguns personagens foram meio exagerados, e outros estão apenas fazendo volume no filme, entre outras coisinhas que nada comprometem a qualidade indiscutível do filme. Valeu pela visita e volte sempre que puder ;)


ABRAÇOS A TODOS!