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18 de dez de 2010

Abutres


Enquanto assistia a “Abutres”, vários filmes começaram a pipocar na minha cabeça, porém nenhum deles, necessariamente, serve como parâmetro para fazer comparações concretas com a produção argentina, visto que tanto as propostas como as próprias histórias são bastante divergentes entre si. Mas não custa apontar algumas semelhanças. Um dos que me assaltou a mente foi “Amores Brutos”, grande filme mexicano que marcou a estreia do diretor Alejandro González Iñarritu no cinema. O grau de cotejo é bem tênue, confesso, mas a concepção visual de ambos e a eficiência como thriller urbano sombrio dialogam como nenhum outro. É uma experiência terrivelmente desagradável e perturbadora assistir a essas duas películas. Outro filme do qual me lembrei foi o oscarizado “Crash – No Limite”, apenas porque os dois projetos entregam uma ótima narrativa cíclica, que, coincidentemente, iniciam e finalizam suas histórias com os mesmos incidentes. Por fim, “Atração Perigosa”, última aventura de Ben Affleck como diretor. Tanto este como “Abutres” conciliam com astúcia subtramas completamente opostas, uma envolvendo o submundo do crime e a outra, um caso amoroso que se revelam estepes para os próprios personagens de caráter ambíguo se encontrarem. Além, claro, dos filmes serem ambientados em metrópoles onde a sensação de perigo é constante. “Abutres” é um interessante projeto que celebra o caos, usando a figura do trânsito para ilustrar sua denúncia, que dá até para fazer um paralelo com “Week End”, do Godard, mas acho bom parar por aqui com estes confrontos cinematográficos e discorrer sobre o filme em questão.

Após perder a licença da OAB, Sosa (Darín) se torna um advogado especialista em acidentes rodoviários, pois é este “ramo” que sustenta o mercado de indenizações, considerando os números expressivos de vítimas no trânsito da Argentina que o filme expõe logo em seus primeiros segundos de projeção. Trabalhando para uma agência afundada em corrupção, Sosa passa boa parte de seu tempo nas salas de espera de hospitais, nas delegacias e nas ruas da cidade procurando por clientes potenciais, vulgo, acidentados. Em uma de suas assistências a um motociclista ferido, ele conhece a médica Luján (Gusman), cujo desgastante expediente de trabalho a condena andar em uma ambulância pelas avenidas prestando socorro a casos de emergências. Quando Sosa se demite e passa a trabalhar por conta própria, os mafiosos da empresa corrupta o enxergam como um concorrente, e as ameaças para o advogado e à sua namorada colocam em risco a união do casal.

O diretor Pablo Trapero cria uma atmosfera realista muito pertinente para delinear o desenvolvimento da história. Expondo o conflito das situações acima de qualquer sintoma de misericórdia, Trapero se mostra mais preocupado com os problemas e adversidades que sustentam a trama, tanto que, a não ser quando estão juntos em momentos íntimos, acompanhamos os protagonistas sempre fatigados e claramente infelizes com a profissão que exercem, um deles recorrendo até a remédios injetados diretamente na veia para lhe dar disposição e continuar na ativa. São raros os momentos de respiros no filme, pois geralmente é acompanhado por um clima mórbido, propositalmente desconfortável. Conhecido pelos longos e chocantes planos-sequências que emprega em seus projetos – digo por “Família Rodante” e “Leonera”, os únicos do diretor dos quais assisti –, em “Abutres”, o cineasta também abusa dessa técnica, o que se revela uma opção inteligente por garantir maior dimensão de verossimilhança ao longa, que culmina em cenas com planos absolutamente fantásticos e doloridos, como os que se passam dentro do hospital e exploram a precariedade do ambiente ou a magistral sequência que encerra o filme, não recomendável para pessoas com insuficiência cardíaca.


Mas o impacto dessas cenas não seria integral se “Abutres” não contasse com uma equipe técnica composta por profissionais. A edição apurada e o soberbo design sonoro intensificam a tensão provocada pelo filme, tanto em momentos inesperados como outros que em que o espectador já prevê o que irá acontecer, mas, ainda assim, é surpreendido pela violência e crueza, elementos que o diretor Pablo Trapero não faz questão de ocultar. Este é mais um caso do cinema preocupado com os direitos humanos e com as questões sociais. “Abutres” é um filme visceral e reflexivo, que vai muito além do que lemos e assistimos nos jornais diários, mas evidencia outro ângulo de situações que estamos fartos de conferir nas páginas ou nos programas de TV.

O filme ainda reúne dois dos melhores atores argentinos em atividade. É impressionante a naturalidade com que Ricardo Darín encarna seus personagens, sempre com economia e coerência, não sendo à toa o ator mais prestigiado do país vizinho, merecendo mais créditos ainda por não se deixar seduzir por Hollywood, que já lhe fez propostas, mas ele negou todas. Bravo! E o filme também conta com a excelente Martina Gusman – esposa do diretor e produtora executiva do longa –, que dá um verdadeiro show de performance com sua Luján, uma mulher solitária e frágil, que acaba se envolvendo nesse submundo da lei por acaso e se desdobra, ao lado do amante, para driblar os criminosos.

Está aí mais um belo exemplar do cinema argentino, uma cinematografia que vem colecionando elogios festivais afora. Quanto às premiações, “Abutres” tem a ingrata missão de representar a Argentina no Oscar após a consagração de “O Segredo dos Seus Olhos” na cerimônia deste ano. Não cabe a eu fazer comparações, mas talvez seja uma tarefa difícil chegar até lá. Ao menos, à frente do Brasil, nesse sentido, a Argentina está posicionada, porque a carniça que foi a biografia do Lula, todos sabem, abutres comem e lambem o beiço.


NOTA: 8,0


ABUTRES (Carancho) Argentina, 2010
Direção: Pablo Trapero
Roteiro: Alejandro Fadel, Martín Mauregui, Santiago Mitre e Pablo Trapero
Elenco: Ricardo Darín, Martina Gusman, Carlos Weber, José Luis Arias e Loren Acuña

10 comentários:

James Lee disse...

As boas críticas em relação ao filme, apenas me deixam mais curioso. Espero conferir em breve!

Abs,
sebosaukerl.blogspot.com

Wally disse...

Só tenho lido elogios quanto a este. O cinema argentino está sendo muito bem reconhecido ultimamente, e isso é ótimo.

leo disse...

Só elogios que leio sobre o filme e isso me deixa ainda mais curioso e definitivamente o cinema Argentino e o Sul Coreano ultimamente tem se mostrado cada vez mais forte,abraços.

Mayara Bastos disse...

Quero muito assistir. Mas é uma pena que Hollywood esteja pensando em refilmar este filme. A falta de histórias está muito grande, né? rsrs.

Beijos! ;)

bruno knott disse...

Sem dúvida o cinema argentino está na frente do nosso... tb acho complicado ser o filme na sequência de O SEGREDO DOS SEUS OLHOS, mas Abutres parece ser realmente bom. Quero ver.

Abraços.

Reinaldo Glioche disse...

De fato, é um grande filme. E a sua crítica está a altura.O bom da cultura cinematográfica é que vc rememora e relaciona filmes que, a primazia, guardam poucas semelhanças uns com os outros. Mas a relação proposta por vc enriqueceu a análise. Well done!
Bem, só gostaria de acrescer dois comentários: O primeiro é uma tiração de sarro. O Sosa não perdeu a OAB. rsrs. Esse é o registro de advogado no Brasil, mas a gnt pegou a ideia. O segundo comentário diz respeito a razão de Darín não enveredar pelo cinema americano. Em recentes entrevistas ele manifestou o desejo, mas mostrou-se resistente em virtude da língua. Disse que se sente pouco confortável atuando em outra língua que não a espanhola. É a partir de depoimentos como esses que temos de valorizar mais e mais um ator como o Rodrigo Santoro (que já atuou e bem) até em italiano.
Abs

Amanda Aouad disse...

Minha rápida passagem por São Paulo serviu para conferir esse filme no Cine Belas Artes, e realmente, é um belo exemplar. Acho difícil ganhar o Oscar depois de O Segredo... mas vale muita a pena, sem dúvidas conferir. Bela análise.

Ainda estou com o impacto da última cena.


bjs

Guilherme Primo disse...

Oi, meu nome é Guilherme, do blog Cinema, Livros e Séries, e eu gostaria de saber se você pode adicioná-lo na sua barra lateral... faço o mesmo lá! Abraço

Guilherme Primo

www.cinelise.blogspot.com

pseudo-autor disse...

Ainda não tive a chance de ver Abutres, mas minhas expectativas sobre o filme são altíssimas!

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

Elton Telles disse...

JAMES LEE: Cara, é um excelente filme. As críticas positivas não são à toa!


WALLY: sim sim, muito bom mesmo. O cinema argentino desponta como um dos mais humanistas do mundo e com ótimas narrativas. Acho muito importante esse reconhecimento dos hermanos e do cinema latino, que ainda não conquistou seu devido espaço. "Abutres" é só mais um belo exemplar.


LEO: interessante tu mencionar o cinema sul coreano. Pra mim, o melhor hoje. Todos os filmes que tenho acesso que vêm deste país me deixam boquiaberto com a qualidade técnica e narrativa. Definitivamente, merece mais reconhecimento do que vem recebendo.


MAYARA: não só este, mas li esses dias que também pretendem refilmar "O Segredo dos Seus Olhos" e isso me deixa puto de raiva. Simplesmente desnecessário!


BRUNO: Olha, se for mesmo avaliar, parece que o cinema argentino tá mesmo batendo um bolão sobre o nosso em geral, sem se restringir às escolhas dos filmes representantes ao Oscar, cuja diferença é abissal. Fico feliz por eles, de qualquer forma. Temos excelentes profissionais por aqui, o Brasil está caminhando para frente nesse sentido.


REINALDO: Obrigado pelo comentário, meu caro! Fico feliz que tenha gostado do texto!
1) nossa, passei batido essa da OAB rs. De fato, mas o filme que vi a legenda vinha dessa forma, daí reproduzi na crítica hehe. Valeu pelo lembrete.
2) Talvez tenha dado parecer errado, mas jamais recrimino atores que vao para Hollywood ou coisa do tipo, só valorizo mais aqueles que fazem boas escolhas e não são vendidos, o que não é o caso de Santoro. Darín é o Gerard Depardieu argentino, ele é foda, já mostrou o grande ator que é. Se for para os EYA, nunca que vou rebaixa-lo por essa decisão =)


Valeu, AMANDA. Também acho que não tem chances no Oscar, e a última cena pode matar um cardíaco. Fantástica aquela sequência!


PSEUDO: confiando no seu bom gosto, aposto que não irá se arrepender!


ABRAÇOS A TODOS!