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10 de dez de 2010

A Rede Social


500 milhões de usuários distribuídos em 207 países ao redor do mundo e, hoje, avaliado por uma bagatela de US$ 25 bilhões. Esses são os impressionantes números apresentados pela maior rede social da internet, o Facebook. Inicialmente criado como uma espécie de “fraternidade de elite” exclusiva aos universitários de Harvard, logo o programa tomou proporções estrondosas, conquistando o território de outros campus de faculdades norte-americanas para finalmente atingir os cinco continentes do globo em um curto espaço de tempo. Representando um grande fenômeno da internet, o Facebook é um dos sites que registra o maior número de page reviewers por dia e a frase “me adiciona no Facebook?”, como observa um dos personagens do filme, virou rapidamente um bordão entre os mais jovens, o que não se difere em nada dos dias atuais, apesar dos seis anos que se passaram. A fase anterior à criação, as ideias que customizaram o site, a súbita popularidade e os percalços judiciais que seu criador, Mark Zuckerberg, enfrentou, tudo é examinado com exatidão no magnífico “A Rede Social”. No entanto, enganam-se aqueles que pensam que a película apenas recria a história do nascimento do Facebook. O filme dirigido pelo talentoso David Fincher se apropria do processo de criação da rede social para retratar, dentre outras questões, uma geração de jovens carentes e ambiciosos com fome de reconhecimento, popularidade e aceitação social.

Adaptação do livro “Bilionários por Acaso: A Criação do Facebook”, de Ben Mezrich, “A Rede Social” mostra as etapas de desenvolvimento do site, começando pelo Facemash, em que seu autor, Mark Zuckerberg (Eisenberg), hackeou o sistema online de sete alojamentos e roubou fotos de alunas para comparar a beleza física uma da outra. Esse episódio rendeu ao jovem o primeiro contato com a Justiça, que o puniu por seis meses de suspensão da Academia. Mas este era só o começo de uma enxurrada de processos posteriores – no filme exibem apenas os dois principais. Um deles é dos gêmeos remadores Cameron e Tyler Winklevoss (ambos interpretados pelo ator Armie Hammer), que pretendiam lançar o HarvardConnection, um site de relacionamento exclusivo entre os estudantes de Harvard, e procuraram Mark justamente para o ajudarem com a criação da rede, depois processando-o por roubo de ideia. Simultaneamente, agora com o Facebook já consolidado, foi a vez do cofundador e diretor financeiro da rede social, Eduardo Saverin (Garfield), que levou o melhor amigo à corte porque ele diluiu sua participação nos bens gerados pela empresa sem apresentar explicações. O que pode parecer um filme chato de tribunal é perfeitamente dosado pelo soberbo trabalho do roteirista Aaron Sorkin, que mescla com perfeição os dois processos jurídicos, apresentando flashbacks dos fatos ocorridos e propondo uma brilhante estrutura lógica e narrativa.

Não se pode negar que a internet é mesmo um celeiro que proporciona uma espécie de “falso poder” ao usuário. Na frente de um monitor, o indivíduo se empossa de uma liberdade que ele julga ter o direito de falar e fazer o que lhe bem entender – para citar um caso recente, a jovem racista que humilhou os nordestinos no twitter, culpando-os pela vitória de Dilma Rousseff nas eleições deste ano. Enfim. Em certo momento do filme, uma estudante, ao se defender de ataques pessoais dirigidos a ela através da internet, diz a Zuckerberg para ele “voltar a seu quarto e desfilar o seu veneno como fazem os revoltados de hoje”. Tratando-se de um filme cujas atenções se concentram na criação de um site, é contraditoriamente fantástico esse argumento da personagem de criar um “universo alternativo” para a pessoa expressar seu caráter, pois é covarde o suficiente para se assumir na vida real, passando a utilizar o ambiente online para tentar mostrar ao mundo sua personalidade enrustida. Guardadas as devidas proporções, é com essa intenção que Mark decide criar o Facebook, como se tentasse abrir uma porta para ser reconhecido, ter notoriedade em meio aos membros dos chamados final clubs, que tanto almejava participar. Engraçado que, depois da fama e dos milhões que arrecada, o personagem desdenha completamente a fraternidade acadêmica, mas enquanto era um “Zé” desconhecido, invejava o fato de o amigo ter sido convidado a integrar o clube Phoenix. No entanto, para tentar sair por cima e desfilar a sua prepotência, Mark não pensa duas vezes em ficar na defensiva ao dizer “talvez eles te aceitaram pela cota de diversidade”, fazendo alusão à nacionalidade de Saverin, por ter nascido em um país de terceiro mundo (Brasil).

Aliás, Zuckerberg é mesmo um filho da mãe. Indiferente, arrogante e desagradável, o filme não faz concessões à figura do rapaz, mas também, em nenhum momento, julga sua conduta e modo de encarar as coisas. Pelo contrário, até admiramos a convicção e empenho do jovem, que, por um lado, é dizimado pela falta de experiência em lidar com negócios. “A Rede Social” não faz questão de criar nenhum personagem que conquiste o coração do espectador e isso explica a frieza e individualismo de cada, mas é justamente neste jogo de egos que reside um dos grandes méritos do filme. Com um texto primoroso e diálogos rápidos, ácidos, o filme dispensa qualquer “cena-espetáculo” para ser memorável e prender o espectador na poltrona, sendo unicamente sustentado com a história desenvolvida com magnitude e a inteligência dos realizadores por detrás dessa sinfonia multifacetada.

Mais contido em relação a seus filmes anteriores, o excelente David Fincher acerta ao não abusar das tomadas para não tornar o material excedente, mas ainda assim, entrega um fabuloso trabalho na condução da história, carregando consigo um virtuosismo muito bem trabalhado. Com a câmera sempre atenta às minúcias de cada situação, Fincher captou perfeitamente a essência dessa geração de jovens empreendedores que despontam no mercado e arrecadam alto com suas invenções – além de Zuckerberg, temos Sean Parker (Timberlake), fundador da Napster e que tem participação ativa no Facebook – e muito curioso um cantor interpretar o responsável pela decadência das vendas de CDS que abalou a indústria fonográfica. Vivendo em uma sociedade essencialmente midiática, também não deixa de ser interessante encarar a internet sob essa perspectiva levantada pelo filme de “um mundo de possibilidades”. Em uma das cenas, o presidente da Harvard diz que “os estudantes da universidade estão sempre inventando empregos para ganhar dinheiro em vez de trabalharem em um”. Quer maior exemplo do que este?



As comparações que “A Rede Social” vem recebendo com “Cidadão Kane” não são gratuitas, definitivamente. Da mesma forma que a imprensa abalou a estrutura da sociedade como demonstra a obra-prima de Orson Welles, aqui enxergamos o papel da internet como parte integrante da vida de tantas pessoas, ocasionando até uma “dependência virtual”. O que, de um lado, é libertador, por outro, é uma prisão carcerária a qual o indivíduo se submete e nem sequer visualiza.

Contando com um elenco integralmente composto por jovens promissores, o futuro Homem-Aranha Andrew Garfield está excelente como o amigo traído, aproveitando sempre ao máximo as cenas em que aparece. Da mesma forma, com muita naturalidade, está o ator Armie Hammer, que recebe a difícil missão de interpretar irmãos gêmeos, mas com personalidades diferentes – e escalar um ator (ainda) desconhecido foi uma sacada genial dos realizadores, pois aposto que 95% dos espectadores acreditam que são gêmeos na vida real. Eu caí como um pato. E para a surpresa geral da nação, Justin Timberlake é um dos grandes destaques do elenco. Confortável no papel e muito convincente na caracterização de seu sábio, mas irresponsável personagem, ele protagoniza uma das melhores sequências do filme, que se passa em um restaurante quando conversam sobre o futuro do Facebook ao mesmo tempo em que a cena é intercalada pelo depoimento de Eduardo em uma banca jurídica. Mas ninguém apaga o brilho de Jesse Eisenberg, fantástico no papel principal. Com a fala rápida e certa inexpressividade habitual vista em seus trabalhos anteriores como o espetacular “Zumbilândia”, acho admirável como o ator converte todas essas “deficiências” em qualidades e conquista o espectador seja pelo seu jeito desleixado ou pelo desdém que sente pela raça humana – tanto neste filme como na comédia com os zumbis.

Com a trilha sonora original e muito bem encaixada assinada pelo vocalista do Nine Inch Nails, Trent Reznor, outro ponto positivo de “A Rede Social” é o magnífico trabalho de edição da dupla Kirk Baxter e Angus Wall (parceiros habituais de Fincher), que fornece um ritmo frenético à história, indispensável em se tratando de uma mescla de tantos episódios. Já conquistando vários troféus e indicações nessa temporada de premiações que se inicia, “A Rede Social” certamente é um dos melhores filmes do ano. Inteligente e atual, utiliza um acontecimento verídico para traçar um pertinente registro de uma era que ainda está engatinhando, sem falar no ótimo estudo de personagem que propõe e que se revela magistral em sua ironia: como um cara tão apático conseguiu reunir milhões de “amigos” e conquistar tantos inimigos durante esse processo. Até esse quadro se reverter – e hoje, claro, já se reverteu com a popularidade conquistada pelo rapaz -, aposto que Zuckerberg fez calos nos dedos de tanto apertar a tecla F5.


NOTA: 10,0


A REDE SOCIAL (The Social Network) EUA, 2010
Direção: David Fincher
Roteiro: Aaron Sorkin
Elenco: Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Armie Hammer, Max Minghella e Rashida Jones

9 comentários:

Reinaldo Glioche disse...

Uau. Vc cobriu todas as arestas. Como vc sabe, concordo plenamente com a sua avaliação. Fincher entrega um dos grandes filmes não só do ano, como dos últimos tempos. De quebra, vc adicionou muito oportunamente a atualidade do impacto da internet nas relações sociais. Algo bastante presente no filme e que escapa a muitos espectadores.
Grande abraço!

bruno knott disse...

Elton, parabéns. Esse é o melhor review sobre o filme que eu li... e não falo só em relação a blogs!

De fato foi ótima a ideia de usar um ator desconhecido pra interpretar os gêmeos, obviamente eu tb achava que eram gêmeos de verdade... hehehe

Essa cena q vc citou do Timberlake no restaurante é ótima, mas uma das minhas preferidas é aquela em que ele e o Zuckerberg conversam dentro de uma balada...

E finalmente, não peguei essa piadinha em relação a cota de diversidade. Boa pra ver como o rapaz é um tanto pau no cu.

Enfim, dei 9 para o filme.

Abração!

Cristiano Contreiras disse...

Realmente, um dos melhores textos que já li sobre o filme - e mostra bem sua paixão em relação a ele.

mas, eu, infelizmente, não concordo integralmente contigo.

Acho que é um filme bom sim, tem seus méritos e a trama representa bem o mundo que vivemos hoje - em seus aspectos da virtualidade; da relação social; das amizades dúbias e todos os outros questionamentos que o filme faz.

Mas, ainda que o elenco conceba uma interpretação louvável - de fato Eisenberg e Garfield impressionam, até mesmo Timberlake - eu não achei o filme essa obra-prima não.

A dinamica exagerada, o senso verborrágico dele, me irritou um pouco...cansou, na verdade.

Mas, é questão de gosto mesmo.

Abraço!

pseudo-autor disse...

Filmaço! Retratou bem essa geração de novos milionários jovens e arrogantes. Se eu já não ia com a cara do Sean Parker, agora então...

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

Rodrigo Mendes disse...

Elton. Seux texto é 10 e o filme também!

Rispidez está na linguagem da narrativa de A Rede Social. Combina tb com a rispidez do mercado de tecnologia.

Abraços
Rodrigo

Sandro Azevedo disse...

Nota 10? Que beleza!
Ainda não vi o filme, por isso confesso que não li sua crítica! Preciso ir urgente no cinema pra voltar aqui e ler! hehe.. Abração!

renatocinema disse...

Ola.

Somente hoje vi seu comentário no filme O Poderoso Chefão. Ficaria honrado com o link. A vontade.

Esse filme do David Fincher estou muito ansiso para assistir. MAs, não estou dando conta de tanto filme bom para assistir.kkkk.

Abs

Jonathan zZZzZZz Rodrigues disse...

eu também sequer suspeitei dos gêmeos serem o mesmo ator.

ótimo texto cara, to até divulgando aqui.

Elton Telles disse...

REINALDO: Valeu pelo comentário! Se no começo muitos desconfiavam de um filme sobre a origem do Facebook, é uma grata surpresa perceber que não se trata só da história, mas de um retrato bem desenvolvido de uma geração. Fincher, realmente, superou.


BRUNO K.: Uau, Bruno! Muito obrigado pelo prestígio, cara. Fico muito feliz em ouvir isso. Pois é, o esquema dos gêmeos foi aquele mesmo utilizado por Fincher em "Benjamin Button", mas de forma bem mais sutil, e como não conhecíamos o tal Armie Hammer, caímos que nem um pato rs. E a cena da balada tbm é ótima.


CRIS: muito obrigado pelo comentário, Cris. Entendo perfeitamente seu ponto de vista. É mesmo um filme ágil e que exige certa dedicação e paciência do espectador. Mas recomendo assistir pela segunda vez porque vc acaba absorvendo mais o conteúdo e descobre como o filme é, sim, uma obra-prima =D


PSEUDO: [2]. Sean Parker MY ASS! rs, mas as melhores partes do filme é quando ele está em cena, não necessariamente por ele, achei uma coincidência mesmo.


RODRIGO: Valeu, chapa! Sim, a linguagem do filme até se apropria do perfil do que está retratando. É, não tá fácil pra ngm... rs.


SANDRO: corre, velho. Vai ganhar o Oscar o/ e com merecimentos!


RENATO: Já linkei. Bem vindo ao P.P. Sim, eu tbm estou lotaaado de filmes atrasados para conferir, cara, mas "A Rede Social" era o primeiro da lista. Assista e depois me conte o que achou =)


Grande JONATHAN, muito obrigado, meu caro! Apareça mais vezes!


ABS A TODOS!