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13 de dez de 2010

O Último Exorcismo


Pegando carona no estrondoso faturamento nas bilheterias de filmes de terror experimentais, como “Atividade Paranormal” e o espanhol “[REC]” – que não demorou um ano, já ganhou uma pobre versão norte-americana chamada “Quarentena” –, “O Último Exorcismo” parece vir predisposto a reafirmar esse tipo de subgênero no cinema atual, que deu início com “A Bruxa de Blair”, há pouco mais de dez anos. Basicamente, trata-se de jovens curiosos munidos apenas de uma câmera, que se submetem a documentar eventos sinistros em locais desprotegidos. Como esses personagens não são cinegrafistas profissionais e ainda se encontram consumidos pelo medo de enfrentar o desconhecido, a imagem registrada não prima pela qualidade, incluindo cenas que sequer o espectador visualiza o que realmente se passa. Para alguns essa técnica funciona, porque o amadorismo proposital desperta a imaginação de quem assiste e ainda garante um grau de realismo que muitos podem até desconfiar de sua natureza ficcional. Para outros, não passa de uma pretensão pouco eficaz de mercenários que apenas almejam lucro fácil e sucesso. Nessa situação, eu jogo nos dois times, embora confesse que nenhum dos filmes citados teve algum impacto sobre mim, pois apesar da câmera trêmula e todo esse artificialismo, não considero apenas a imagem estampada na tela responsável pelo desconforto, mas sim, a conciliação destas cenas com uma atmosfera perturbadora fruto de um roteiro denso e bem preparado. E este último item, infelizmente, nenhum destes horror fake documentaries têm a oferecer.

Depois de uma carreira dedicada a exorcizar pessoas possuídas por demônios nos templos, o pastor evangélico Cotton Marcus (Fabian) desistiu dessa prática após ler um artigo no jornal em que várias pessoas tentaram expulsar o demônio de um garotinho, que acabara morrendo asfixiado. Para denunciar o processo teatral e esquemático do exorcismo, o reverendo permite que uma equipe de documentaristas filme seu último ritual de exorcismo. Dentre várias cartas que recebe de fieis pedindo ajuda, ele escolhe aleatoriamente a de Louis Sweetzer (Herthum), um homem do campo, de Louisiana, que clama por socorro, pois sua criação de gado vem sendo abatido misteriosamente e ele acha que lida com um caso de possessão demoníaca na família. Chegando ao local, o exorcista descobre que é a filha de 16 anos que é a “hospedeira” e a situação começa a ficar fora de controle.

Embora não seja original, a ideia primária do filme é muito interessante: denunciar os porcos que não economizam esforços para transformar uma “sessão de exorcismo” em um show de espetáculo – e não vou sujar meu blog postando links, basta acessar o YouTube e digitar na busca “igreja universal exorcismo” que já dá uma bela mostra dessa picaretagem. Começando de maneira promissora, apresentando a família do pastor, imagens de arquivos e depoimentos de pessoas próximas, “o Último Exorcismo” é convincente em sua alegoria ao real, o que se intensifica por trazer rostos meramente desconhecidos para protagonizar o projeto, fazendo crer que a formação, a aptidão a pregador e todos os outros eventos aconteceram mesmo na vida real. Infelizmente, depois o filme perde o foco e se converte em pura pornografia de terror para deixar o espectador com frio na espinha, o que pouco consegue, já que os sustos se revelam calculados e sem dosagem.

A câmera, nesse caso, é uma das ferramentas mais importantes, mas a direção do semi-estreante Daniel Stamm falha pela falta de autenticidade em algumas cenas-chave, como a que se passa em um celeiro – alguém aí gritou “O Exorcismo de Emily Rose”?. Nos momentos que deveria ser mais eficazes, o filme acaba traindo a lógica visual com que foi concebido, dando poder à câmera de registrar cenas milimetricamente cuidadosas, o que repercute negativamente no trabalho dos montadores. Ao editarem um plano-sequência, obviamente, ininterrupto – lembrando que o filme é registrando por apenas UMA câmera –, conferimos zooms que não foram acionados, cortes sem explicações, jogo de enquadramentos, imagem perfeitamente clean, impossível para uma pequena câmera digital. Enfim, são desleixos que denunciam o despreparo do diretor, dando a entender que “O Último Exorcismo” aparentemente foi um filme feito sob encomenda, com emergência, para ter passado tantos erros básicos de continuidade.



A premissa é ótima, mas perde o tom e descamba para um desfecho curioso, porém pouco original. Em contrapartida a esses defeitos técnicos, o elenco merece destaque. Sobretudo, a garota possuída interpretada pela estreante Ashley Bell. Reconhecida com uma indicação ao Independent Spirit Awards na categoria Melhor Atriz Coadjuvante, é surpreendente seu trabalho corporal nas cenas mais assustadoras, que se opõem completamente com sua doçura e meiguice quando esta toma forma de uma garota simples e inocente. O ator Patrick Fabian também está ótimo, principalmente no primeiro ato do filme, já que depois seu personagem ganha contornos de “herói-que-quer-fazer-justiça” e o espectador só tem sua atenção mesmo virada para Ashley, visceral em cena.

“O Último Exorcismo” não é uma catástrofe. É apenas um filme mediano, decepcionante, que caiu nas mãos erradas e que desperdiça um ótimo argumento em prol de uma estrutura relativamente cansativa. Tem um sustinhos bacaninhas, mas nada que você não tenha visto em tantos outros filmes que você consegue identificar “ela vai fazer isso”. E me digam: como alguém ainda consegue levar sustos com o previsível? Resposta: não consegue. E aí está uma das principais falhas do filme.


NOTA: 5,5


O ÚLTIMO EXORCISMO (The Last Exorcism) EUA, 2010
Direção: Daniel Stamm
Roteiro: Huck Botko e Andrew Gurland
Elenco: Patrick Fabian, Ashley Bell, Louis Herthum, Iris Bahr e Caleb Landry Jones

13 comentários:

Kahlil Affonso disse...

achei super decepcionante. o final então... nem se fala <o.

http://filme-do-dia.blogspot.com/

Robson Saldanha disse...

Você foi tão generoso com sua nota. Esse filme até começa promissor, mas depois cai em contradição e perde completamente o foco. Deus me livre vê isso de novo.

renatocinema disse...

Fiquei instigado a ver o filme.

Assisti no final de semana Renascido das Trevas de Joel Schumacher e passei raiva. Péssimoa ao extremo.

Gui Barreto disse...

Oi Elton, beleza?...

Gostei do Ultimo Exorcismo, principalmente quando retrata o mercado do exorcismo fake e as trapaças que são feitas, mas o final realmente é bem fraquinho,...sem denunciar nenhum tipo de spoiler, acho que o roteiro quis juntar várias referências de filmes anteriores e não ficou nada original....não vejo problema para o experimentalismo, alías, acho válido, desde que não se subestime a inteligência do espectador...

Abrs

pseudo-autor disse...

"Sem noção" é a melhor definição para esse filme. Até A Bruxa de Blair (que é ruim) é mais interessante do que esse.

Rodrigo Mendes disse...

Telles, meu caro! Crítica pontual, perfeita!

De fato o filme não agrada muito, mas também não é tão tosco. De todos os gêneros do cinema, o terror é o único que tem a facilidade de se repetir e ficar muito discursivo, previsível. Da mesma forma que ele pode resurgir alguma hora e causar "espanto" (ex.: O Exorcista, Pânico e A Bruxa de Blair como vc lembrou).

Eu particurlamente não vejo mais excitação e tampouco curiosidade em fitas de diabos e exorcismos.

Acho que REC ( O espanhol) voltou com um 'Q' de novidade, mas tbm se retroalimentando do que ja havia sido criado antes. Até gosto da versão EUA 'Quarentena', pelo menos na forma e técnica. Só não gostei de "Atividade Paranormal". Achei muito superestimado.

Nada como um cineminha de terror num sábado à noite. Rs! Bom ou ruim, este gênero tem lá os seus méritos.

Abs.
Rodrigo

Alyson Xyzyx disse...

Iae Elton!

Cara, esse ótimo texto é o mais positivo que vi sobre o filme até agora. Terror foi o gênero que me fez passar a assistir filme. Uma pena hoje estar do jeito que está, mas sempre bate aquela saudade e, mesmo se não for de qualidade, da vontade de ver. Já o tenho aqui comigo e verei nesse final de semana.

Grande Abraço!

Cristiano Contreiras disse...

Seu texto foi bem correto, não acho que destruiu tanto o filme - como muitos blogs por aí evidencia. Tem blogueiro que deu até nota 2...zero! Enfim, eu fiquei tentado a assistir quando vi o trailer, mas confesso que esse tipo de abordagem anda me cansando...e há tempos não me sinto com "medo" ao ver algum filme do gênero.

Diferente de "O Exorcista", por exemplo, que até hoje me provoca certa tensão...talvez leve incômodo.

Abraço!

Gustavo Darwich disse...

Filme fraco e decepcionante. A única coisa de bom, são os poucos sustos.

Abraço.

cleber eldridge disse...

Tipo de filme que já cansou, mas, ainda agrada uma massa muito grande de pessoas, fazer o que, né?

Wally disse...

Provavelmente só deve agradar quem também gostou de "Atividade Paranormal" e seus similares. Estou curioso, confesso.

pedro tavares disse...

A história do "feitiço contra o feiticeiro"é boba demais. E para atrelar outros caminhos ao filme, o diretor cria uma bagunça generalizada. Uma pena.

Elton Telles disse...

KAHLIL: é mesmo decepcionante, principalmente o final preguiçoso. Por outro lado, é até interessante, mas é uma pena que o filme não sai da superfície...


ROBSON: definitivamente também não o verei de novo hehe. Concordo contigo de que o filme começa bem, mas depois perde sua força.


RENATOCINEMA: veja, mas sem esperar grande coisa. Mas comparado a quase todos os filmes do lzarento Joel Schumacher, "O Último Exorcismo" é digno de Oscar, cara rs.


GUI: Tudo certo! Muito pontual as suas observações. Quanto às referências, fico na dúvida se a pretensão do filme era homenagear os anteriores e não pegar carona no sucesso de tantos exemplares similares. Quanto ao experimentalismo, gosto, mas desde que seja usado por um bom propósito. No caso de "O Último Exorcismo" acho que combinou bem com a trama, mas o filme contradiz sua lógica visual lá pelas tantas, aí acho imperdoável.


PSEUDO: Gosto de "A Bruxa de Blair", mas é tudo hype. Certamente, é melhor que este.


RODRIGO? Yeah! Valeu, Rodrigo! Também gosto de um bom filme de terror, mas pena que eles vem mesmo se reciclando e apresentando poucas novidades. Mas tem mesmo seus méritos, só sou extremamente contra remakes de clássicos, como "Nightmare on Elm Street". Uma porcaria aquilo!


Grande ALYSON: terror também foi o gênero pelo qual o cinema me instigou e comecei a assisti-los não apenas como entretenimento. São raros os filmes de terror que realmente valham a pena atualmente, mas ainda somos brindados com 2 ou 3 exemplares por ano. Mas não sei se a melhor classificação para estes filmes seja mesmo "terror". Enfim, é bem subjetivo isso...


CRIS: eu acompanhei alguns blogueiros que atribuíram notas baixíssimas ao filme, mas "O Último Exorcismo" tem méritos, sim, que não podem ser ignorados. Comparar este com "O Exorcista" é covardia das grandes, e ele não causa metade do desconforto que o clássico de Friedkin. Concordo que está cada vez mais raro achar um filme assim nos dias de hoje. São poucos e nem sei se são exatamente "terror", mas sobrevivemos com os antigos mesmo. Melhor do que encher o cinema de remakes desnecessários...


GUSTAVO: não só os sustos, que achei bem calculado, mas o filme tem uma aura que parece mesmo ser real. Isso até certo ponto, depois fica esquemático e desaba naquela armadilha escrota que foi seu desfecho.


CLEBER: Hehe, temos que aturar...


WALLY: Achei melhor do que "Atividade Paranormal", mas não vai muito além disso.


PEDRO TAVARES: sim, o filme se perde mesmo e vira uma bagunça. Tem momentos que são muito bons, mas outros que não saem do lugar-comum.


ABRAÇOS A TODOS!