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24 de jul de 2010

Vício Frenético


Nicolas Cage é um enigma para mim. Eu ainda não descobri se o ator só funciona quando interpreta personagens viciados ou rende boas atuações somente quando é amparado por um bom diretor de elenco. Recapitulando seus trabalhos nos últimos 5 anos, Cage estava praticamente atingindo o fundo do poço ao entregar performances vergonhosas nos igualmente reprováveis “O Motoqueiro Fantasma”, “O Vidente”, “Perigo em Bangkok”, “Presságio” e daí por diante. Por outro lado, é curioso perceber que, quando resolve mostrar serviço, o ator simplesmente arrebenta e não deixa sequer vestígios daquele que, num ato de insanidade, topou participar dos filmes citados. Talvez nem o próprio se leve a sério porque esses filmes, na essência, não são levados a sério nem pelos próprios produtores. E se enumerei algumas bombas que Cage participou, é minha obrigação equilibrar a balança e ressaltar seus brilhantes trabalhos em filmes como “Coração Selvagem”, “Despedida em Las Vegas” – pelo qual venceu o Oscar em 1996 –, “Adaptação” e “O Senhor das Armas”. Com exceção deste último, coincidentemente todos os outros personagens que Cage interpretou são movidos à base de alguma droga, seja ela lícita ou não. O descontrolado Sailor Ripley e a namorada levam uma vida clandestina regada a tabaco e álcool em “Coração Selvagem”; no filme pelo qual levou o prêmio da Academia, o ator encarna com perfeição um alcoólatra que pretende beber até morrer; e em “Adaptação”, Cage interpreta o hipocondríaco roteirista Charlie Kaufman.

Bom, se o segredo de Cage não está nos personagens junkies, talvez resida no talento de condução que os diretores David Lynch, Mike Figgis e Spike Jonze realizaram em seus respectivos filmes – em que todos os atores envolvidos são dignos de reconhecimento. Digo (tudo) isso porque “Vício Frenético” possui todas essas qualidades: o personagem central adota a heroína como seu combustível para ficar em pé e quem está no comando por trás das câmeras é o genial diretor alemão Werner Herzog. O resultado: Nicolas Cage abandona a canastrice e entrega a melhor atuação de sua carreira já consagrada, dando vida a um anti-herói insano, bizarro e memorável.

Mais conhecido pelos seus trabalhos na TV em séries como “L.A. Law” e “Law & Order”, o roteirista William M. Finkelstein estreia nos cinemas com o roteiro de “Vício Frenético”. Baseado no argumento do filme de mesmo nome lançado em 1992, a história gira em torno da conturbada conciliação entre trabalho e vida pessoal do integrante da polícia de Nova Orleans, Terence McDonagh (Cage). Recentemente promovido ao cargo de tenente, McDonagh é escalado para liderar uma investigação que busca os desdobramentos de uma chacina resultante na morte de cinco pessoas da mesma família. Ao mesmo tempo em que procura pelos mandantes do crime, o tenente protege a namorada prostituta Frankie (Mendes) de clientes perigosos, presta assistência ao pai alcoólatra (Bower), tenta enganar autoridades de que não ameaçou uma idosa e ainda procura meios de fugir de uma dívida numerosa proveniente de apostas com jogos. Tudo isso incrementado a muita maconha, heroína e crack, já que, em vez de combater os hábitos que originam os crimes que investiga, McDonagh é o primeiro da boca de fumo a financiar o tráfico.

Um dos maiores desafios de “Vício Frenético” é justamente promover a aproximação entre o espectador e o personagem central, um sujeito que mais apresenta seus defeitos de caráter do que alguma qualidade considerada positiva. Demonstrando falta de ética gritante, McDonagh se apropria da corrupção e da desgraça alheia para resolver problemas pessoais. À base da chantagem e ameaças, o policial abusivo tira proveito de situações penosas para benefício próprio, evidenciando egoísmo e descaso com tudo aquilo que não envolve o seu nome – como a cena grotesca em que faz sexo com uma garota dopada num estacionamento do bar em troca de crack, tudo sob o olhar indignado do namorado da moça. Representando tudo aquilo que não esperamos de um tenente da polícia, McDonagh chega ao cúmulo de agredir fisicamente uma idosa para que esta lhe passe informações necessárias para ajudá-lo na investigação – resultando em uma das passagens mais hilárias da produção, um humor negro afiado, digno de Herzog. Se o envolvimento com um crápula como McDonagh parece ser improvável, por outro lado, é surpreendente testemunhar a atenção e demonstração de carinho que o mesmo divide com a namorada e a preocupação que sustenta pelo pai, mostrando-se sempre colaborativo e amigável. A cena em que o tenente leva Frankie para uma edícula improvisada e conta passagens de sua infância ou quando ele senta no sofá para assistir TV com a madrasta chapada são momentos raros de beleza em meio a um filme tão “desagradável” e que empresta o adjetivo do título para caracterizar o ritmo desenfreado que o protagonista leva a própria vida.



Essas alternâncias extremas de personalidade são administradas brilhantemente pela atuação visceral de Nicolas Cage. Entregando-se de corpo e alma à proposta do personagem, o ator constrói um sujeito reprovável, mas que acaba conquistando a simpatia do espectador, tamanho absurdo e bizarrice com que encara as adversidades que enfrenta. Os ricos detalhes que caracterizam seu comportamento favorecem a composição do ator, que é “egoísta” a ponto de roubar todos os holofotes para si, principalmente nas cenas em que age sob efeito de drogas. A atriz Eva Mendes já se profissionalizou em interpretar mulheres usuárias e libidinosas, pois praticamente repete as mesmas personagens de “+ Velozes + Furiosos” e “Os Donos da Noite”, ao passo que o rapper Alvin ‘Xzibit’ Joiner se mostra cada vez mais confortável em frente às câmeras. Fechando o elenco, tem as participações eficientes dos atores Val Kilmer, Jennifer Coolidge (ótima), Michael Shannon e Fairuza Balk.

Além de comprovar o talento na direção de atores, Werner Herzog se mostra afiado e desafiador ao incentivar os atos de insanidade de seu personagem central, numa clara alusão à incapacidade do homem em alcançar o autocontrole diante de situações extremas. A maestria do diretor alemão é comprovada pelo êxito em criar um filme de tirar o fôlego sem precisar recorrer aos cortes abruptos da edição, nem cenas de ação embaladas por uma trilha sonora ensurdecedora. “Vício Frenético” abraça o gênero policial, mas não repete os mesmos cacoetes encontrados facilmente na maioria dos filmes do gênero. Valorizando mais a interação entre os personagens do que a ação em cena, Herzog opta pela câmera mais “passiva” (e ousada), enquanto o frenesi e a loucura são emanados do espetacular roteiro, que se encontra em sincronia perfeita com os atores – sobretudo Nicolas Cage.

Recentemente, Herzog vem investindo seu talento na produção de documentários, como o extraordinário “O Homem Urso” e o ainda inédito no Brasil “Encounters at the End of the World” – que recebeu uma indicação ao Oscar na categoria Melhor Documentário. Responsável por grandes obras-primas do cinema, dentre elas “O Enigma de Kaspar Hauser”, “Fitzcarraldo” e “Nosferatu”, o importante é que um dos grandes representantes do prolífero período do Novo Cinema Alemão ainda continue na ativa. Quanto a Nicolas Cage, espero que seus trabalhos futuros sejam com diretores tão talentosos como Herzog – e que, de preferência, lhe ofereçam personagens loucos e chapados.


NOTA: 9,0


VÍCIO FRENÉTICO (The Bad Lieutenant: Port of Call – New Orleans) EUA, 2009
Direção: Werner Herzog
Roteiro: William M. Finkelstein
Elenco: Nicolas Cage, Eva Mendes, Alvin ‘Xzibit’ Joiner, Val Kilmer, Tom Bower e Jennifer Coolidge

11 comentários:

Cristiano Contreiras disse...

Repito o quão talentoso é você na maneira como propõe teu texto..a forma como discorre os principais elementos do filme em si, com um olhar apurado e atento...além de trazer referências e citações aos contextos dos atores em si. Bom seu primeiro parágrafo, concordo contigo - Cage realmente estava num período esquisito de sua carreira...se bem que ele fez mais filmes bons, além do citado por você, como Cidade dos Anjos que, apesar de ter o romance melodrama básico, foi eficaz...

Eu gostei da maneira como analisou seu personagem, não tinha conhecimento dessa ousadia no roteiro e nem na abordagem até polêmica como demonstra o Terence McDonagh em cena...me pareceu forte até o modo como ele age...preciso conferir o filme, de fato.

Confesso que não tinha tido interesse até então, nem mesmo com o trailer que já tinha visto no youtube. Ainda mais por detestar Eva Mendes - sempre interpreta ela própria.

Abraço!

Alan Raspante disse...

Não gosto muito do Cage, como vc enfatizou no primeiro paragráfo o ator vem escolhendo péssimos filmes e coloca seu talento a prova. Se mesmo com essas produções horrendas o ator consegue ainda se sobressair e pegar alguns papéis, quer dizer, que algum talento ele tem, rs
Mas ainda sim, não simpatizo muito com ele. Enfim, depois de ler sua resenha e ver sua nota, bem é impossível não dizer que "Vício Frenético" se tornou convidativo, rs

Abs.

bruno knott disse...

Parabéns Elton!! Ótimo texto.

Gosto muito do Herzog e a presença do Cage deixou o filme melhor ainda. Tb considero essa a melhor interpretação dele.

Das bombas que você citou, só discordo de Presságio. Ok, não é um grande exemplo de cinema, mas ele funciona para o que se propõe.

Abraços!

Wally disse...

Este filme é ótimo - melhor papel de Nic Cage em anos!

Madame Lumière disse...

Boa tarde Elton,

Mais uma vez você arrasou. Sou apaixonada pela forma como escreve sobre cinema, de uma lucidez incrível, sem dúvidas, um dos melhores bloggers de cinema.

Particulamente, gosto de Herzog como uma fiel apreciadora de tudo que é produzido em arte alemã, porém Vício Frenético dificulta minha paixão à esta película exatamente porque é um filme que entra demais no mundano carater de um policial, o anti-herói como vc mesmo citou. Ao mesmo tempo que o filme me atraí por todos os predicativos que comentaste, além de um Nicholas Cage inspirado e muito louco, acho que o filme não é simpático(e de fato não deve sê-lo). De relevante, acho que a atmosfera do filme que mais parece uma viagem alucinógena é formidável, a idéia é essa.

O que mais gosto neste filme é realmente como é conciliado no roteiro o extremo bom e o mau do personagem. É possível odiá-lo e simpatizá-lo com ele(ou no mínimo, se sensibilizar com a atuação primorosa de Cage e achar que ele é um drogado ferrado). Além disso, é lamentável ver que escórias como ele estão por aí, agindo como loucos e atormentando as pessoas sem um pingo de remorso, sendo que seus papéis sociais são exatamente fazer o bem. A cena da garota + namorado é podre demais.

Bjs!

cleber disse...

Não conheço muito da filmografia do diretor, na verdade esse foi o único que assisti, e infelizmente não gostei do filme -, não gostei porque já havia visto a versão de 1992 e as diferenças são muitas. Talvez nem seja uma refilmagem.

Reinaldo Glioche disse...

Não reconheço todas essas virtudes nesse Vicío frenático. É um filme razoável, embora conte com esse desempenho avassalador de Nicolas Cage. Na comparação com o original de Abel Ferrara, fica empobrecido. É, obviamente, uma obra interessante dentro da filmografia de Herzog, mas individualmente é fraco, na minha avaliação.
abs

2T disse...

Ainda não tive a oportunidade de ver esse filme. Estou esperando para ver o original, mas tudo que li foi positivo. Elogiaram bastante o filme e principalmente a atuação do Cage.

Some KICK-ASS na lista de bons filmes do cara. E concordo que nem ele mesmo se leva a sério de vez em quando. Ja foi um dos meus atores favoritos, mas ultimamente... pena.

Rodrigo Mendes disse...

OI Elton!
O Cage, oscila muito na carreira. Eu achei ele ótimo em 'Presságio', onde discordo de você. Mas fitas como: Motoqueiro Fantasma, O Vidente e o remake The Scarecrow, de fato são terríveis!

Herzog tem um apurado senso de estética e visão artística, desde os documentários fronteira com a ficção que ele produziu.

Parabéns pela resenha. Conversei com seu texto e adoro a precisão que você menciona no post falando de cada fita.

Abs,
Rodrigo

Alyson Xyzyx disse...

Fala Elton! Tudo certo e contigo?
.
Men, concordo plenamente contigo em relação ao Cage. Pois, como você disse, o que chama a atenção não é que Cage faz um papel bom e outro ruim, mas sim que quando ele se sai bem, nem parece que um dia chegou a ser péssimo. Em Presságio acontece toda essa oscilação de momentos. São as caracteristicas dele boas e ruins em sua carreira, num só filme e acaba por resultar em mais um trabalho reprovável, que parece que é compensado nesse.

Tentei esperar um tempo livre para mim assistir a esse filme (tenho o dvd), mas provavelmente só daqui a duas semanas (vida corrida, rapaz!), mas pelo que li, Herzog continua com suas qualidades de sempre procurar aproximar o espectador do personagem, quando não isso, ele sempre tenta nos englobar em toda a aura de suas obras. Assim que tiver tempo, vejo o filme.

E, me add no orkut, cara: http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=16380332694789502395

Abraço ae!

Volver um filme disse...

Olha, não tinha muito interesse nesse filme não, mas depois do seu texto fiquei com vontade de assisti-lo!
Nicolas Cage pra mim é um caso quase perdido, uma pena!

Abraço
saulo