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19 de jul de 2010

O Escritor Fantasma


Foi com grande felicidade que recebi a notícia, na semana passada, de que o pedido de extradição do diretor Roman Polanski solicitado pelos Estados Unidos foi negado pela Suíça, que decidiu sabiamente por um fim nessa novela que perdura há mais de 30 anos. Não estou defendendo o diretor de sua delinquência, muito menos fazendo apologia à pedofilia, mas convenhamos que Polanski já pagou pelo crime que cometeu, sendo fiel às limitações que lhe foram impostas, sem falar que a vítima da história, Samantha Geimer – na época, com 13 anos –, poucos dias após sua libertação, disse que se sentia satisfeita com a decisão do governo suíço. Depois de 289 dias cumprindo prisão domiciliar em regime fechado, o diretor está de volta à ativa e já anunciou um novo projeto que já estava desenvolvendo o roteiro enquanto manteve-se em cativeiro. Quando foi preso em setembro de 2009, vítima de uma emboscada norte-americana em solo suíço, Polanski estava em fase de pós-produção de seu próximo filme, “O Escritor Fantasma”. Impedido pelas autoridades de supervisionar a finalização desse projeto em um local conveniente ao trabalho, foi na prisão que o diretor – que também assina como produtor – acompanhou todo o processo artístico de desenvolvimento do filme. Se em um espaço físico relativamente precário e com o psicológico abalado Polanski desenvolveu um dos melhores exemplares de sua filmografia, não ouso em pensar o estrago que o diretor teria causado se o filme fosse concluído em condições normais.

Escrito pelo próprio Polanski e pelo jornalista Robert Harris, baseado no livro deste último, o filme tem início com a contratação de um novo escritor fantasma (McGregor), cujo nome jamais é revelado, para substituir o anterior, que morreu misteriosamente. Sua função é escrever a biografia abandonada do ex-primeiro ministro britânico, o enigmático Adam Lang (Brosnan). Para isso, o novo escritor se muda para a residência do político, nos Estados Unidos, para colher os dados e declarações necessárias do biografado para o desenvolvimento do livro. Em certo momento, todos são surpreendidos pelas acusações do Tribunal de Crimes de Guerra direcionadas a Lang, condenando-o como um criminoso de guerra, que financia as invasões no Iraque. Disposto a desvendar os mistérios que envolvem esse jogo sujo, o escritor parte para uma investigação perigosa que coloca a sua sobrevivência em risco.

“O Escritor Fantasma” pode ser considerado uma feliz compilação de obras anteriores do diretor. O tal escritor do filme possui algumas similaridades, por exemplo, com o personagem interpretado por Harrison Ford no subestimado “Busca Frenética”. O impulso pela descoberta da verdade e o mergulho de cabeça em um (sub)mundo completamente adverso ao que está acostumado, que Ford se submete no filme de 1988 para descobrir o súbito sumiço da esposa pode ser facilmente aplicado ao mistério a ser desvendado pelo personagem-título deste filme. Aqui, McGregor inicia uma investigação repleta de detalhes e informações a serem levantadas para descobrir o paradeiro em que o primeiro ministro é colocado. Para ajudar na sua “busca frenética”, ele conversa com várias pessoas próximas ao político e remexe arquivos secretos a fim de elucidar as ideias e juntar as peças soltas desse quebra-cabeça. Caminhando pela superfície, o escritor do filme também é um pouco do bem intencionado estudante representado em “A Faca na Água”, que lida com pessoas confiáveis e ameaçadoras ao mesmo tempo, como também é o caso da pobre Rosemary Woodhouse, interpretada por Mia Farrow no clássico “O Bebê de Rosemary”. Todos estes personagens são uma espécie de “estranhos no ninho”, pois estão inseridos num mundo que pouco dominam, mas, mesmo assim, lutam até o final com garras afiadas – uns mais arredios que o outro.

As tramas dos filmes logicamente se diferem, mas há elementos em “O Escritor Fantasma” que remetem a outras obras importantes de Polanski, como as já citadas. No entanto, é notável o grande referencial que deteve clara influência sobre o franco-polonês na execução deste filme: o imortal Alfred Hitchcock. Desde a longa sequência inicial com vários homens discutindo a contratação do escritor – e esclarecendo todas as questões ao espectador sobre a situação que a história, a partir de então, irá se desenrolar – até a estrutura narrativa emprestada pelo filme, cujo mote principal reside na questão do “homem errado” (qual homem?), a comparação entre os dois cineastas é praticamente inevitável. Um misto de “Pacto Sinistro” com “Intriga Internacional” sob a lente pessimista tipicamente polanskiana, “O Escritor Fantasma” é um filme tão atraente e instigante quanto os dois citados, que não despende muito esforço para prender a atenção do espectador. Um thriller consistente que pode parecer um pouco confuso com a quantidade de nomes citados e personagens, mas que vai se diluindo no roteiro aplicado e bem elaborado – aliás, roteiro que se mantém atualíssimo não só sobre a Guerra do Iraque, mas a manipulação que o meio político detém sobre a sociedade, em que Polanski e Harris deixam claro ao retratar essa classe como um verdadeiro “ninho de cobras”.



Já considerado uma grande promessa após seu desempenho avassalador no subversivo “Trainspotting – Sem Limites”, o ator Ewan McGregor encarna o protagonista com uma veracidade impressionante. Detendo máximo controle sobre o personagem e evitando reações mais exageradas de situações surpreendentes, o britânico foge da figura do “herói em busca da verdade”, já que, em contraponto, suas fragilidades também são expostas, bem como a felicidade extravasada após uma fuga bem sucedida, colocando-o em um papel que qualquer ser humano, com sorte e habilidade, poderia desempenhar – e o roteiro, claro, também contribui nesse sentido. Encarando uma versão não-declarada do ex-primeiro ministro Tony Blair, Pierce Brosnan surpreende como o político dúbio e canastrão, que oscila momentos de raiva com brincadeiras mais infantis e sem compromisso, mas que parece esconder um perfil aparentemente mais agressivo e pouco confiável. Ótima no papel de esposa e conselheira, Olivia Williams rouba algumas cenas com sua personagem determinada e de gênio forte. E se Kim Cattrall passa praticamente despercebida, Tom Wilkinson empresta seu talento para protagonizar uma das passagens mais tensas do filme. Aliás, o clima de tensão é praticamente constante, e a bela trilha sonora, que evoca os acordes “sinistros” de Bernard Hermann, provoca uma estranha sensação de desconfiança e uma atmosfera misteriosa, o que contribui organicamente para a trama e confirma mais uma vez porque o francês Alexandre Desplat é considerado um dos melhores compositores em atividade.

Aos 78 anos de idade, após passar por essa turbulência que cerca sua vida pessoal, ainda desfilar talento e sobriedade na condução de um grande filme como “O Escritor Fantasma” é para poucos. Por isso expresso a minha satisfação e alegria em ter de volta um dos grandes cineastas vivos. Free Polanski! E que venham ainda muitos outros como este.



NOTA: 8,5


O ESCRITOR FANTASMA (The Ghost Writer) França, 2010
Diretor: Roman Polanski
Roteiro: Roman Polanski e Robert Harris

Elenco: Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Olivia Williams, Kim Cattrall e Timothy Hutton

9 comentários:

leo disse...

Eu estou curiosíssimo pra assistir esse O Escritor Fantasma,por diversos motivos e um deles é claro ver um novo trabalho do sempre genial Roman Polanski.
Mas é válido ressaltar que tenho lá meu pé atrás com esse filme por Pierce Brosnan ter um papel importante nele,mas nada que dê pra aguentar !
abraços .D

Alyson Xyzyx disse...

Eu acabei de ver o filme, Elton. E assumo estar profundamente preocupado com o meu texto...rsrs! Vi o filme de uma outra maneira, pois acho um filme totalmente pastelão, irônico e com isso muito divertido. Me senti meio que no universo dos Coen, por dar risadas de coisas sérias. Nem sei ainda como vou conseguir explicar que achei o filme divertido do começo ao fim e que, quando ele peca, é quando tenta ser sério demais. Em breve postarei o texto.


Abraço ae!

pseudo-autor disse...

Polanski falou de Polanski em seu novo longa...Impressionante como a história do primeiro-ministro se assemelha com a sua! Filmaço. E já estou sabendo que ele está sondando novos projetos após sua recente libertação.

cleber eldridge disse...

Tom, eai meu querido, tudo em paz? Mais que saco hein. o filme ficou semanas em cartaz por aqui, e me pergunta porque eu não fui ver? NÃO SEI! Agora tenho que esperar chegar nas locadoras!

Rodrigo Mendes disse...

Oi Elton,

nem gosto de comentar esse lance do Polanski, mas o cara pagou o quê? Pelo crime? Ficou anos em prisão domiciliar bebendo os melhores vinhos e, provavelmente comendo as melhores mulheres, rs! Enfim...

quanto ao filme do "polêmico" e tão falacioso cineasta (que curto muito seu trabalho) é excelente!

Ewan McGregor em grande forma e Pierce Brosnan mostrando novas facetas.

O único filme do Polanski que não curto é o estranho ' O Último Portal' com Depp!

Abs,
Rodrigo

Reinaldo Glioche disse...

Excelente filme. No mesmo nível de sua crítica muito bem contextualizada. Um filme de clima. E um ótimo clima.

Wally disse...

Bela obra, muito bem conduzida. Aquele plano final é genial.

Madame Lumière disse...

É, querido Elton,
Sua ilustre resenha contextualiza bem o fardo Polanskiano. Não sei tanto os detalhes da emboscada que fizeram com ele e prefiro não entrar no mérito da criminalidade, mas ele já sofreu o bastante, basta lembrar da morte brutal de sua ex-esposa a atriz Sharon Tate. Algo que derrubaria qualquer homem.

Gosto do fato de O Escritor Fantasma ter suspense e ter um ambiente não confiável, porque é exatamente isso que o cineasta provou também na pele , por isso a obra também tem uma nuance autoral.

A sua belíssima frase "o britânico foge da figura do “herói em busca da verdade”, já que, em contraponto, suas fragilidades também são expostas, bem como a felicidade extravasada após uma fuga bem sucedida, colocando-o em um papel que qualquer ser humano" ecoou bastante em minha leitura dá uma dimensão de como McGregor entra nesta trama e de como ela se aproxima do que se vivencia todos os dias, ou seja, o ser humano suscetível às suas próprias vulnerabilidades em um ambiente cínico.

bjs!

Elton Telles disse...

Leo: vá confiante. Também tinha uma certa resistência com Pierce Brosnan no elenco, mas o cara funciona perfeitamente no papel que interpreta. Está ótmo como o enigmático Adam Lang. Fora que é um novo Polanski, é obrigatório a todo amante do cinema ;D


Alyson: Wow! Teremos então uma crítica mais incomum do filme. Esperarei pra ver o seu texto, meu caro. Interessante a sua percepção.


Pseudo-Autor: não deixa de ser verdade o que tu disse, já que toda a perseguição do filme pode ser mesmo uma alusão à sua própria vida. Sim, ele escreveu um roteiro enquanto estava preso e vai começar a filmar em breve (pra nossa felicidade) o/


Cleber: acontece, meu caro. Se for enumerar o tanto de filmes que perdi aqui, ah...


Rodrigo, realmente esse assunto é bem delicado e controverso. Sugiro que tu assista o documentário "Roman Polanski: Wanted and Desire", lá tem uma perspectiva bem interessante do absurdo das atitudes da justiça norte-americana em cima desse caso. Sem contar que é meio estranho se formos ver o que uma garota de 13 anos fazia em uma "festa de arromba" rs em plena casa do Jack Nicholson? Esses lados acho que poucas pessoas se questionam porque é mais fácil julgar e tal... e claro, o que ele fez foi reprovável, degradante, não o defendo por ser talentoso (muita gente confunde isso!), mas o caso foi transformado em um espetáculo por um juiz grotesco sedento por fama. Deu no que deu. Por essas e outras, acho que Polanski já pagou pelo crime que cometeu, embora tenha bebido os melhores vinhos e comido a Emmanuelle Seigner o dia inteiro - se fosse assim, até eu! Hahahaha!

Concordo com tudo que tu disse. E acrescento que não gostei muito de seu penúltimo filme, "Oliver Twist".


Grande Reinaldo! Valeu pelo comentário, sua opinião é muito válida pra mim. =)


Wally: plano final desconcertante, tipicamente polanskiano.


Obrigado pelas ponderações, MaDame. Legal você ter ressaltado essa atmosfera pouco confiável de "O Escritor Fantasma", estamos sujeitos a qualquer emboscada e qualquer passo em falso... pow! A trilha de Alexandre Desplat também contribui muito para esse clima. E assino embaixo do que acrescentou sobre o personagem central, completamente deslocado em um lugar cínico.


ABS!!!