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12 de mai de 2010

Aconteceu em Woodstock


O grande Festival de Woodstock colocou o nome da pequena vila no mapa. Eram poucas pessoas que, até então, conheciam o pacato vilarejo localizado no sul do Estado de Nova York, nos Estados Unidos. Pertencente ao Condado de Ulster, Woodstock iria ser palco de um dos maiores eventos musicais do mundo, que provocaria mudanças radicais na ordem cultural e social vigentes na época. Porém, a população do lugar não aceitou a instalação do festival em seu território, o que resultou na transferência dos shows à cidadela de Bethel, a poucos quilômetros de distância. O Woodstock Music & Art Fair foi o epicentro do movimento hippie e um dos momentos-chaves que marcou a geração da contracultura, em protesto à estúpida guerra travada no Vietnã, que completava 10 anos em 1969. O último filme do diretor Ang Lee acompanha perifericamente o processo de preparação do festival em questão, desde os acertos de aluguel da fazenda que abrigaria as apresentações até a chegada de “pessoas doidas, cabeludas e descalças” – como define um dos personagens do filme – ao local. Entretanto, é lamentável perceber que o projeto não faz jus à magia de um dos maiores eventos do século passado, sufocando a energia, o vigor e a vibração com um filme chato e minimamente desinteressante. Infelizmente, “Aconteceu em Woodstock” não aconteceu.

Quando o filme tem início, como pano de fundo aos créditos iniciais, testemunhamos a quietude e tranquilidade da pacata cidade de Bethel, comprovada pelo despovoamento de algumas regiões, principalmente no que diz respeito aos (poucos) hotéis e pousadas do vilarejo. Uma delas pertence à família Teichberg. Afundada em dívidas e reclamações dos (igualmente poucos) hóspedes, a escassez de clientela está levando o patrimônio familiar à falência. O jovem Elliot (Martin) se abstém da vontade que alimenta de se tornar um decorador e tentar a sorte em Nova York para ajudar os pais a saírem da miséria que se encontram. Ao saber de apresentações marcadas na região de cantores do porte de Janis Joplin e Jimi Hendrix, o rapaz entra rapidamente em contato com os organizadores do evento para convencê-los a trazerem o festival até Bethel, pois, dessa forma, ajudaria na renda familiar com a hospedagem dos visitantes. Contrariando a esmagadora maioria de moradores da cidadezinha, Bethel sedia o Festival de Woodstock, alcançando resultados financeiramente positivos aos Teichberg, além de proporcionar ao jovem Elliot uma viagem alucinante em busca da própria identidade.

O roteiro escrito por James Schamus – parceiro de longa data do diretor Ang Lee – não poupa os espectadores dos inúmeros estereótipos e clichés que caracterizaram a década de 1960. Sem dar voz àquelas pessoas, a trama relaciona o público de Woodstock como se fossem todos iguais e isentos de personalidade própria, simplesmente por se vestirem e terem aparência semelhante. Quando dois hippies, dentre o meio milhão que formava a platéia dos shows, têm a oportunidade de, eventualmente, se diferenciarem dos demais, é frustrante perceber que são reduzidos ao pior estereótipo dessa figura: sob efeito de entorpecentes, soltam frases ridículas, sem sentido, pré-concebidas e fabricadas pela sociedade a este tipo de tribo. Não excluo a possibilidade de representar alguns hippies com as características que lhes tornam mais conhecidos, mas, afinal, o filme reconstrói o cenário de Woodstock, portanto é inaceitável o tratamento arbitrário que o próprio público do festival foi retratado pelo filme.

Limitado ao lema “paz e amor”, “Aconteceu em Woodstock” não se preocupa em contextualizar o que o festival, de fato, representou, nem por que ocorreram essas sequências de shows ou de que maneira todo esse movimento repercutiu na sociedade americana. Denunciando uma visão de inocência preocupante, Schamus perde grande parte do tempo com subtramas desnecessárias, em vez de se concentrar em criar uma atmosfera compatível ao envolvimento dos três dias de Woodstock. Acredito que este seja o principal pecado do filme. No final das contas, essa “homenagem” aos 40 anos do festival – completados em 2009, ano de lançamento do filme – acaba sendo decepcionante, já que nem o evento recebe o destaque que merecia, nem mesmo o que aparenta ser o principal foco da trama – o processo de autodescoberta do jovem protagonista – tem resultado satisfatório, fruto do bombardeio de personagens secundários, aliado à falta de carisma do ator Demetri Martin.


“Aconteceu em Woodstock”, por outro lado, é bem sucedido na recriação da época, adotando locações propícias para a história, bem como o trabalho de destaque do figurinista Joseph G. Aulisi, que auxilia na tentativa de fazer o espectador mergulhar naquele período em pleno estado de erupção. Mas todo esse trabalho acaba sendo um exercício em vão, visto que o filme se torna uma bagunça, que acaba estimulando o desinteresse no espectador em vez de atraí-lo. Forçando uma briga estúpida entre mãe e filho só para criar um momento de conflito no terceiro ato, assim como ignorando completamente as reações dos moradores da pequena Bethel e apresentando resoluções fáceis a situações de extremo embaraço, “Aconteceu em Woodstock” acaba soando frágil e incompleto.

O eficiente diretor taiwanês Ang Lee também não consegue salvar o projeto, emprestando ritmo lento ao filme e peca ao utilizar excessivamente a tela divida em duas, três, até quatro quadros. Essa opção indica a preocupação de mostrar ângulos e percepções diferentes sobre o mesmo acontecimento ao espectador, mas é prosaica e completamente desnecessária em alguns momentos, como a encenação de uma peça de teatro. Favorecido com algumas cenas engraçadas – principalmente as que contam com a presença da fantástica Imelda Staunton, como a mãe rigorosa – no final das contas, “Aconteceu em Woodstock” falha ao não capturar a essência do festival, resultando em um retrato sem alma daquele que foi o maior evento musical da História.


NOTA: 4,0


ACONTECEU EM WOODSTOCK (Taking Woodstock) EUA, 2009
Direção: Ang Lee
Roteiro: James Schamus
Elenco: Demetri Martin, Imelda Staunton, Henry Goodman, Eugene Levy e Liev
Schreiber

12 comentários:

Fernando Império disse...

Foi um filme que acabei "passando"... as críticas não foram positivas e o filme caiu no ostracismo. Não era para ter acontecido isso, já que Ang Lee e o tema abordado são bastante interessantes...

Francisco Brito disse...

Excelente crítica de um filme q não tenho lá mt interesse em assisti-lo.
Abraços!

Reinaldo Glioche disse...

Pecado cinéfilo: Ainda não vi. Se bem que depois da sua contextualização não parece assim o pecado tão grave...
ABS

Wally disse...

Ainda não vi. Ele dividiu muitas opiniões. Estou curioso.

Karen Faccin disse...

Só lamento. Acho que já deve estar bem claro o meu repúdio por qualquer tentativade de reprodução do festival de Woodstock, seja em filmes ou mesmo em reedições catastróficas assim como presenciamos recentemente,rsrs.

Pelo seu texto pude perceber o quão descontextualizado e sem propósito é "Aconteceu em Woodstock". Triste ver a banalização e estereotipização de um festival tão importante.

Prefiro nem me dar ao trabalho.

Raspante disse...

Ainda não vi este longa, por falta de oportunidade, pois não achei o DVD para alugar. Mas pelo visto, posso vê-lo sem pressa, rs

Alyson Xyzyx disse...

Geralmente quando vejo alguem reclamando do ritmo de um filme, eu sempre digo que isso é um dos termos mais relativos para ver um filme. Mas, pelo o que conheço Ang Lee, seus trabalhos realmente tem esse problema por parte técnica e não por outra coisa; e ritmo lento e um "temão" desses não podem estar num mesmo filme.


Abraços, Elton!

Rodrigo Mendes disse...

OLá!!!

Primeira vez aqui.

Layout da hora!

Ang Lee ainda tem créditos comigo. Apesar deste filme e 'Hulk', de vez em quando ele faz obras primas como 'Tigre e o Dragão' e ou/ 'Razão e Sensibilidade'.

Abs!

Clenio disse...

Oi...

Acho que vc foi um pouco duro com este filme. Ele nem de longe é uma obra-prima, mas tem certo valor, principalmente porque seu objetivo é falar sobre a mudança pessoal na vida de determinada personagem tendo o festival apenas como pano de fundo.
Concordo com algumas observações mas se vc quiser pode conferir o que eu acho aqui:

http://lennysmind.blogspot.com/2010/02/aconteceu-em-woodstock.html

Se quiser conferir tenho também outro blog sobre cinema

www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com

Grande abraço e parabéns pelo blog. Curti bastante.

Clênio

cabaretcinefilo disse...

Tom, tudo bom?
Infelizmente discordo de tudo o que li, e por sinal é um dos melhores filmes do ano passado, claro, pelo menos pra mim. Ang Lee, em mais um direção que mostra o quanto de sensibilidade o diretor tem e um certo carisma ao tratar da homossexualidade. A história pessoal de Eliot Tiber cruzou-se com o festival de música pop que se tornou ícone de uma geração ou como Ang Lee conseguiu dirigir Woodstock.

Elton Telles disse...

Fernando, concordo contigo. Ang Lee é um excelente diretor, assim como "Woodstock" seria um grande tema para ser abordado, mas, infelizmente, o casamento entre eles não foi satisfatório. Não vai sobreviver pra contar história, bem esquecível, mesmo.


Hey Chico!
Valeu pelo seu comentário. O filme vale por algumas cenas cômicas e tal, mas é bem decepcionante, no geral.


Reinaldo, ainda assim, recomendo que seja assistido. Não pelo filme em si, mas por fazer parte da filmografia de um grande diretor da atualidade. Parte ingrata, devo ressaltas, ao lado de "Hulk" =)


Wally, dividiu mesmo as opiniões.


Hahaha amor, sempre tento esquecer essa maldita noite. Já assistiu "Brilho Eterno..."? Mais ou menos isso rs.
"Aconteceu em Woodstock" deixa claro que o festival não é seu cerne principal, mas falha tanto na recriação do evento (clichés e mais clichés), bem como na contextualização de seu protagonista em meio àquele cenário. Triste de ver.



Olá, Raspante!
O DVD chegou recentemente nas locadoras. Veja, mas não precisa ser para agora rs... quando não tiver nenhuma opção melhor, aí dê uma chance para Ang Lee =D


ALyson, eu não identifico o "ritmo lento" de alguns filmes do Ang Lee como um problema. Acho muito propício para se contar a emocionante história de "O Segredo de Brokeback Mountain" ou até os desdobramentos do recente "Desejo e Perigo"; mas como vc apontou, "lentidão" + Woodstock = SEM CONDIÇÕES. O mesmo para o "Hulk".


Olá, Rodrigo!
Bem vindo ao Pós-Première e valeu pelo seu comentário!
Ang Lee também tem (muitos) créditos comigo, é um grande realizador, mas "Hulk" e este são as ovelhas negras de sua filmografia.


Olá, Clenio! Valeu pelo seu comentário!
Eu percebi que o foco do filme é mesmo na busca de identidade do protagonista, mas achei um tanto quanto desfalcado e problemático esse desdobramento do filme. Muitos personagens secundários, uma escassez de dosagens nas cenas e até mesmo o ator-cara-de-bunda Demetri Martin não colaboraram com isso.


Hey Cleber!
Também gosto muito do Ang Lee, mas aqui eu achei que ele comeu muita poeira, pois também estava um pouco engessado com o roteiro frágil do James Schamus. Eu achei o filme uma bagunça, sem falar que não me preocupei em nenhum momento com o protagonista. Achei-o chato e distante na maioria das cenas.


ABS!

dialogandocinema disse...

Ainda não assisti a este filme, embora já o tenha em DVD e trate-se de um Ang Lee. Li muitas críticas negativas a respeito. Na verdade, sei que pode acontecer de eu me surpreender e discordar da opinião alheia, prova disso são inúmeros clássicos de hoje que foram esnobados pela crítica de seu tempo, que não o souberam entender. Não sei se é este o caso de Woodstock. Sinceramente, espero que seja! Mas como tu mesmo dissestes, há sempre muita coisa melhor para se ver, e é exatamente por isso que este filme está no final da fila dos filmes que tenho para ver.
À propósito, estou adicionando o Pós Première ao Dialogando Cinema; http://dialogandocinema.blogspot.com/
Um abraço.