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15 de fev de 2010

Amor sem Escalas

Em 2006, o então estreante Jason Reitman roteirizou e dirigiu a comédia “Obrigado por Fumar”, filme que transborda ironia ao humanizar figuras moralmente desprezíveis, que trabalham como lobistas para empresas cujos produtos dividem a opinião pública quanto ao seu consumo - tabaco, armas de fogo, bebidas alcoólicas etc. Anos mais tarde, o sucesso-relâmpago da adolescente grávida, “Juno”, colocaria o jovem cineasta em evidência ao ser indicado ao Oscar de Melhor Diretor pelo trabalho na comédia independente. Filmes relativamente bem sucedidos, trata-se de dois projetos que chamaram a atenção do público por serem, de certa forma, desafiadores ao abordarem temas considerados polêmicos para serem retratados com tanta sobriedade e bom humor. Muitas pessoas questionaram a possível apologia ao fumo que seu primeiro filme fazia e outras reprovaram a história da garota que fica grávida e decide doar seu filho de forma tão simples como se estivesse dando um filhote que sua cadela criara. Com seu terceiro filme, o ótimo “Amor sem Escalas”, talvez seja a chance de Reitman se redimir com aqueles que desprezaram seus trabalhos anteriores, já que, adicionado a um roteiro inspirado e direção aplicada (já notado nos outros dois filmes), há um elemento diferencial nessa combinação: maturidade.

Escrito pelo próprio diretor ao lado do roteirista Sheldon Turner, “Amor sem Escalas” logo de cara nos apresenta seu protagonista Ryan Bingham (Clooney), homem metódico, que prima pela praticidade e é comprometido unicamente com sua profissão. Além de ministrar palestras motivacionais, Bingham trabalha em uma empresa especializada em demitir funcionários de outros estabelecimentos e, ao mesmo tempo, confortá-los psicologicamente para “correrem atrás do futuro”. Com o objetivo de alcançar 10 milhões de milhas em voos, o “demitidor” logo se vê frustrado com a decisão da empresa que trabalha em acatar a nova metodologia de trabalho desenvolvida pela jovem Natalie Keener (Kendrick), consequentemente, cessando com as viagens. Enquanto o novo sistema está em discussão para ser efetivado, Ryan, contra a própria vontade, viaja com a jovem Natalie, ensinando-a os manejos da profissão. Durante essas passagens, Bingham conhece Alex Goran (Farmiga), uma mulher interessante, que logo se torna sua “fuga da realidade”, mantendo um relacionamento aberto e passageiro.

“Amor sem Escalas” conta com uma ótima história e um roteiro bem desenvolvido, amarrando todos os seus elementos com eficiência. Além de contar com diálogos bem construídos e com conotações hilárias (como a cena da aeromoça se dirigindo a Bingham), o filme se mantém muito atual por desenvolver sua trama no cenário da crise econômica, que abalou, principalmente, os Estados Unidos há pouco tempo. A partir deste conceito, desencadeia toda a história da empresa querer reduzir os gastos ineficientes até o motivo que leva a irmã do protagonista a ter a ideia de querer plagiar “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. É um roteiro que notamos cuidado em seu desenvolvimento, e não é à toa que venceu justamente esta categoria no Globo de Ouro deste ano. Em contrapartida, é frustrante notarmos alguns deslizes no decorrer do filme, como uma cena de choro terrivelmente artificial e mal encaixada ou o momento em que envolve o personagem de Clooney e um noivo prestes a se casar. São errinhos bobos que deveriam ser cortados na sala de edição.

Mostrando-se mais amadurecido, o roteirista, produtor (ao lado do pai, Ivan Reitman) e diretor Jason Reitman, com apenas 32 anos de idade, revela-se uma promessa em Hollywood. O trabalho de direção merece pontos pela dificuldade de enaltecer e acentuar o nível de solidão do protagonista, pois, como o próprio diz em uma das cenas, está sempre rodeado de pessoas. Assim, Reitman demonstra inteligência ao aproveitar esse contraponto e reverte-lo em momentos de exílio sem intenção, como a cena das janelas ou, ainda melhor, quando, ao desembarcar em um aeroporto, um casal se abraça em segundo plano ao passo que Bingham passa sem mesmo olhar para os lados. E, claro, Reitman também tem apoio (e isso é recíproco) na ótima seleção de atores. George Clooney se encontra no melhor papel de sua carreira, compõe um personagem engraçado e carismático, apesar das limitações do próprio papel. Anna Kendrick é beneficiada pelo roteiro e, graças à atuação pontual, é capaz de conquistar o espectador ao fazê-lo compreender suas frustrações e objetivos de vida. A minha favorita, no entanto, é a atuação e a personagem de Vera Farmiga, que revela uma ótima química com Clooney e consegue se destacar nas poucas cenas que aparece – e, na maior parte, estas cenas são todas divididas com o protagonista.




Porém, pode-se dizer que o grande triunfo de “Amor sem Escalas” é não ser maniqueísta em sua mensagem. “A vida é melhor quando compartilhada” é a palavra de ordem, mas o filme faz questão de mostrar os benefícios e também as tempestuosidades de um relacionamento. Isso também evita o filme cair num sentimentalismo bobo, que seria desproporcional à história. Indicado a 6 categorias no Oscar deste ano, incluindo Melhor Filme, “Amor sem Escalas” (depois de assistirmos ao filme, percebemos que este título é um baita spoiler) testemunha a evolução de um diretor em plena ascensão. E torcemos para que continue com projetos mais sólidos como este daqui pra frente.


NOTA: 7,5


AMOR SEM ESCALAS (Up in the Air) EUA, 2009
Direção: Jason Reitman
Roteiro: Jason Reitman e Sheldon Turner
Elenco: George Clooney, Anna Kendrick, Vera Farmiga e Jason Bateman

11 comentários:

Paulo Soares disse...

Gostei de Amor sem escalas também, como você bem disse se mostra um trabalho bem maduro, principalmente seu texto.
E as atuações me agradaram, com exceção da Vera Farmiga, que está correta, mas na minha opinião nada fez além apenas aparecer em tela.

Madame Lumière disse...

Olá Elton,
Gostei bastante de Amor sem Escalas. Acho-o um filme limpo e direto ao ponto assim como o Cinema de Reitman Filho.
Amor sem Escalas consolida ainda mais o talento de Jason Reitman e consegue ter a marca do diretor em uma forma clássica de dirigir e um roteiro cool, na medida certa com seus trabalhos anteriores ainda que menos "chocante". Acho o roteiro adaptado um dos melhores dos últimos 2 anos e que mereceu o GGA.

Abs!

bruno knott disse...

Como você falou, ele foge de um sentimantalismo e eu considero isso uma das maiores virtudes dele.

Acabei gostei mais do filme do que você. Dei nota 9.

Abraços.

Elton Telles disse...

Hey Paulo! Digamos que Farmiga não tem uma cena exclusiva que a destaca, diferentemente de Kendrick. Mas a atuação da atriz me conquistou pela naturalidade, além de ser uma personagem encantadora e não se ofuscar diante de um George Clooney em seus melhores dias. =)

Olá Madame,
O roteiro de "Amor sem Escalas" é mesmo muito bem construído e amarrado. Reitman e Turner aproveitaram muito bem os personagens e o conceito da crise econômica como pano de fundo para a sua história.

Olá Bruno!
independente da nota, também achei "Amor sem Escalas" um ótimo filme. Caiu um pouco na cotação por ter algumas irregularidades que não compromete, mas enfraquece seu andamento.


ABS!

J. Jack disse...

Tom, tudo bom?
Bom, eu gostei exageradamente desse filme, tanto que é o meu favorito dentre os 10 indicados da academia, porém sem chances nenhuma de lever infelizmente! É também um dos melhores do ano, mas tem como entender porque não gostou tanto!

ABRAÇO.

Reinaldo Glioche disse...

Oi Elton, tudo bem? Como vc sabe, gostei desse filme. Acho-o de uma maturidade (dentro da obra de Reitman, dentro do cinema contemporâneo e no momento que o mundo atravessa) gigantesca. Sua analise bem fundamentada endossa isso. No entanto, me obrigo a fazer uma ressalva. De fato, houve quem acusasse Reitman de apologia ao fumo, mas repare que não há uma cena sequer de cigarro no filme. Ele não assume o ponto de vista de seu personagem, assim como isso tb não ocorre em Juno. Esta-se falando ali de visões de mundo, aquelas foram apenas as plataformas para os comentários. Sei que vc, pelo menos pelo teor da critica, não compartilha dessa visão pregiçosa, mas esse comentário é só um adendo. Grande abraço!

Elton Telles disse...

Olá, Jack!
Não faço cara feia se "Amor sem Escalas" se consagrar como o vencedor deste Oscar, não. O problema é que as chances são mínimas, mas em Roteiro Adaptado é franco favorito e tem a minha torcida - embora tenha visto apenas 3 dos indicados =)


Olá, Reinaldo! Tudo certo.
Estou junto com você quanto a "Obrigado por Fumar" e "Juno". Gosto muito dos dois filmes e reparto com você essa mesma percepção sobre eles. A maturidade de Reitman, refiro-me, além do aprimoramento das técnicas de direção, também à abrangencia do conteúdo de seu filme, que é muito mais maduro que os outros 2 anteriores.


ABS!

André disse...

Tom.. primeiramente.. nunca imaginaria que vc se chamasse Elton! O engraçado é que sempre que via seus comentários lá nas comunas do Orkut e nunca parei pra perguntar: "Como será que o 'Tom' se chama?!", rs.

Enfim..

Tom sua crítica tá muito bacana! Compartilho da sua opinião em praticamente tudo, porém fui mais generoso que você, rs... dei logo um 9 pra "Up in the Air".

Gostei de "Juno", mas não considero um filme digno das tantas indicações por ele recebidas. Agora em "Amor sem Escalas" Reitman acerta a mão e faz um belo filme amarrando muito bem a questão do existencialismo, descompromisso sentimental com a crise econômica.

Assisti "Amor sem Escalas" já tem um tempinho e sinto que é hora de rever, gostei bastante.

E a Farmiga, além de estar incrivelmente sex, é super competente. É a melhor do elenco pra mim também!

Parabéns El(TOM)! Abraço!

Kaio disse...

Ótimo filme,demorei pra entrar no clima mas depois o longa melhorou bastante.E achei que a Kendrick teve a melhor do elenco,quem diria que ela depois de Twishit ia fazer um filme desses

Wally disse...

Eu simplesmente não consigo enxergar esta mensagem de "a vida é melhor quando compartilhada" que todos afirmam. A questão é que o filme é tão sincero e amargo que ele enfia o personagem em uma realidade ilusória que tal sabedoria seria concreta. O que não é, pois o ser humano é particular e não corresponde à generalizações. Achei este o grande mérito deste maravilhoso filme.

Nota 9,0

Elton Telles disse...

Ae Alex!
Pois é, meu caro, essa é a minha graça rs.
Poxa, muito obrigado pela visita e pelo comentário! \o/
Farmiga está realmente apaixonante, mas todo o elenco está em perfeita sintonia ;)


Dae Kaio!
Pois é. Anna Kendrick chamou a atenção depois de uma ficção científica independente chamada "Rocket Science". Ganhou notoriedade aí. Depois fez a merda da saga "Crepúsculo" e, ainda bem, encontrou um projeto para mostrar sua competência.


Olá Wally!
Acredito que seja subjetivo o fato de um indivíduo se familiarizar com a companhia de outrem. Muitas pessoas não sentem falta, e aí que o personagem de Clooney se diferencia do de Kendrick. No entanto, o filme passa essa mensagem nas entrelinhas - a própria direçao de Reitman e até o design de produção reforçam essa mensagem de que a solidão é mesmo "ruim", o que não é necessariamente uma opinião unânime.


ABS!