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8 de fev de 2010

(500) Dias com Ela


Assim como o terror, a comédia romântica é um gênero que vem se reciclando e caindo em desprestígio com o passar do tempo devido, principalmente, à sua falta de originalidade. Claro, trata-se de uma afirmação inteiramente pessoal, pois ainda há pessoas que encaram o pior exemplar do gênero como um divertido passatempo ou um filme “despretensioso” e “engraçadinho”. No entanto, com uma notável e preocupante carência de boas comédias românticas atuais, é mais que compreensível o recebimento tão positivo do público e da crítica com o independente “(500) Dias com Ela”, quando na verdade é apenas mais um filme superestimado, que engana ao se camuflar num ar pretensiosamente “cool” para ocultar suas falhas. É um bom filme, mas nada que justifique todo esse ato profético que muitos vêm jogando sobre a película, que não se difere das demais comédias românticas comuns na concepção de sua trama, nem mesmo acrescenta nada de novo ao gênero.


Escrito pelos estreantes Scott Neustadter e Michael H. Weber, o filme reconstrói sem linearidade alguns dos 500 dias em que Tom (Gordon-Levitt) se encontra cegamente apaixonado por Summer (Deschanel). Enquanto o rapaz é um jovem que acredita na magia do amor e na consistência do relacionamento, a garota é mais racional nesse sentido e concebe esse sentimento como uma “jaula para a liberdade”, algo que não passa de pura fantasia. Após Summer botar um fim no namoro dos dois, Tom fica notoriamente abalado com a decisão repentina da excompanheira, mas encontra apoio nas “dicas” da irmã mais nova Rachel (Moretz) para ajudá-lo a reconquistá-la.


Conhecido como diretor de videoclipes, “(500) Dias com Ela” marca a estreia de Marc Webb na condução de um filme. Trata-se de um trabalho que se mostra irregular em alguns quesitos, principalmente no distanciamento que o diretor acompanha o relacionamento dos protagonistas. O espectador acaba ficando indiferente a algumas situações extremamente importantes para o andamento do filme, sem se familiarizar com os dramas pessoais e as frustrações de Tom justamente por descuidos da direção, que se preocupa mais em documentar a história do que mergulhar no enredo e fazer parte dela. E deve-se chamar atenção para a bobagem de utilizar o estilo documental para traçar o perfil dos personagens, acompanhada por uma narração em off desnecessária e também a inclusão de depoimentos soltos no meio do filme, que soam completamente deslocados e não acrescentam nada à narrativa.


O filme é recheado de clichês bobos que comprometem levemente a sua história, sem contar nas citações e referências gratuitas de outras obras cinematográficas - enquanto o clássico “A Primeira Noite de Um Homem” é bem encaixado para evidenciar os sentimentos de um dos personagens, alguns clássicos do sueco Ingmar Bergman são utilizados como simples masturbação intelectual e atesta que o diretor apenas conhece esses filmes, já que são completamente irrelevantes para o contexto em si. Mas o filme acaba conquistando o espectador com algumas cenas muito bem construídas pelo roteiro, como a visita do casal a uma loja de departamento de móveis ou a sequência de dança em pleno parque público. E, como vantagem o filme se apóia numa excelente trilha sonora, composta por canções doces de Regina Spektor e Carla Bruni até outras mais “pesadas” como Wolfmother e The Smiths. Ótima seleção musical e muito bem encaixada no filme.



Mostrando-se um ator promissor e já tendo exibido ótimas performances em filmes como “Mistérios da Carne” e “O Vigia”, Joseph Gordon-Levitt faz um bom trabalho como o personagem central, ao passo que a atriz Zooey Deschanel parece estar determinada a deixar a apatia e a falta de carisma ser sua marca registrada. Porém, se isso prejudicou sua atuação em “Fim dos Tempos” (aliás, nada se salva naquele filme do Shyamalan), curiosamente essa opção da atriz funciona muito bem para a proposta do filme, já que o mistério envolto da personagem se mantém até o (ótimo) desfecho.


Talvez seja isso que tenha despertado o interesse de Tom pela garota. Quem sabe? Aliás, só podemos usar essa opção como justificativa, já que Summer faz questão de se mostrar uma pessoa egoísta, fria e, por vezes, indiferente. Eu mesmo não passaria nem (1) dia com ela.



NOTA: 6,5



(500) DIAS COM ELA ((500) Days of Summer). EUA, 2009

Direção: Marc Webb

Roteiro: Scott Neustadter e Michael H. Weber

Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Zooey Deschanel, Chloe Moretz e Geoffrey Arend

13 comentários:

Kaio disse...

auhauhauhua,a summer é uma pu** mesmo.mas gosto muito do filme,inclusive,tá no meu top 5 do ano :)

Francisco Brito disse...

De modo geral,não simpatizo com essas comediazinhas indies que são mais hype do que qualquer outra coisa.
Parabéns pelo texto,Tom...primeira resenha q vejo que não endeusa esse filme...e Zooey Deschanel é linda,mas é uma nulidade como atriz msm.
Abç!

Jack Lewis disse...

Tom, HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!
Eu adorei, como a grande maioria, e sim senti uma falta dele no OSCAR desse ano! Além do Joseph estar ótimo.

Reinaldo Glioche disse...

Eu tb não passaria 1 dia com ela. rsrs
Gostei da critica. Põe os pingos nos is.O filme, embora seja bom, está longe de ser esse estouro todo. É eficiente e bem engendrado, mas não é digno do hype desmedido que causou. ABS

bruno knott disse...

Pô, eu não ligaria de passar 500 dias com Summer, afinal era a Zooey Deschannel... hehehehe

Mas, então, não senti esse distanciamento que você falou. Ou, quer dizer, senti quando se tratava da Summer, mas no final do filme eu poderia considerar o Tom como um camarada meu... E creio que essa foi a intenção do cara.

Daria um 8 pro filme, facilmente.

Abs!

Elton Telles disse...

Kaio, hahahaha! Também não precisa ofender a coitada =)

Valeu Francisco! Pois é, muitas pessoas que conheço gostaram muito do filme, talvez por isso fui assistir com as expectativas nas alturas, mas não vi nada de diferente, nem original.

Jack, estavam cogitando o filme para Roteiro Original no Oscar, né? Mais uma prova de que é superestimado xD

Dae Reinaldo! Tivemos a mesma impressão do filme.

Hahahaha Bruno, eu passaria até 1.000 dias com a Zooey Deschanel, mas Summer Finn não dá! =D
Uma coisa que você disse é mesmo discutível. Antes de começar o filme, nos créditos, aparece uma mensagem alertando que se tiver familiaridade com a vida real, é pura coincidência. Depois diz o nome de uma garota e a chama de "vadia". Acho que é assim que terminamos o filme pensando em Summer. "VADIA! Como fez isso com o cara?" Mas achei essa alternativa muito pouco aprofundada, sem mostrar os motivos aparentes de Summer ter feito isso com ele e tal...foi muito repentino. Enfim, é mais um desmérito do roteiro.

ABS!

Karen disse...

Confesso que não me decepcionei com os quesitos "trilha sonora" e "figurino".
Os demais deixaram um pouco a desejar.
Achei super válido essa "inversão de papéis", deixando o lado mais sentimental, dependente e sensível para os garotos.
Ah, e a cena da superloja de móveis é de looonge a the best!

Quanto ao Tom(?), passaria 500, 600, todos os dias da minha vida com ele! *-*

Francisco Brito disse...

"Quanto ao Tom(?), passaria 500, 600, todos os dias da minha vida com ele! "


Qual dos dois?Ambiguidade detected.:P

Wally disse...

Achei o filme tão sincero, íntimo e bem escrito que até com a Summer eu consegui me apaixonar. Por um tempo, claro. Afinal, somos colocados nos sapatos do personagem.

Nota 9,0

Luis Galvão disse...

Mesmo gostando muito do filme, não tenho como contra argumentar, tudo que você falou é verdade, e eu me sinto um pouco enganado por apreciar tanto um obra que esconder falhas com simplicidade e beleza.

Elton Telles disse...

Hahahaha! Eu acredito que a Karen escolheu o Tom da vida real, poxa... =D


Wally, é um bom filme, sem dúvidas.


Luis, é super comum acontecer isso o que tu disse. Um exemplo que me veio à cabeça é "Pequena Miss Sunshine", que se deleita em simplicidade, mas não para esconder falhas, simplesmente dá fôlego e originalidade aos clichés. Por essas e outras, é um filme apaixonante.

ABS!

Madame Lumière disse...

Oi Elton,
Gostei do desfecho da sua resenha. Eu também não passaria nem 1 dia com Ela e nem com ele. Pulo para outro filme com um bonitão monsieur rsrs.
Bem, eu penso um pouco diferente de você, embora concorde que o filme não é toda esta perfeição cool. Apesar disso, não acho as falhas de 500 dias com ela gritantes nem incômodas e o distanciamento do diretor não me afeta dado que enxergo este distanciamento como uma forma de passar a responsabilidade para o espectador ver o quanto é foda um cara estar na fossa rsrs,tendo que me deixo levar mais pela sensibilidade do amor não correspondido que é o que me interessa na fita. Não acho o filme ultra hype, mas acho que foge do água com açucar de que, no final, os amantes ficam juntos como 99% das comédias românticas. Neste ponto, acho o filme mais honesto porque existem vários Toms pisados por Summers e vice-versa. Summer é antipática mas ela não difere muito de pessoas que não querem nenhum compromisso, principalmente na posição de mulher. Digo com total segurança, mulheres odeiam caras grudentos como Tom, apaixonadinhos demais... dá até naúseas rsrs.

Na verdade, Elton, penso que o amor é clichê logo é difícil não clicherizar o amor no cinema.

abs!

Elton Telles disse...

Oi Madame!

É, "(500) Dias com Ela" é o tipo de filme que divide opiniões mesmo. Quando me referi ao distanciamento do diretor em contar a história, digo porque o espectador não cria uma conexão precisa com Tom e suas frustrações. Acompanhamos o sofrimento do rapaz, mas o filme fica em débito por não tornar tudo isso palpável a quem assiste. Quando estamos nos familiarizando com Tom, o filme pula 200 dias e vai pra frente. Esse recurso, por vezes divertido, é relativamente complicado e não permite que façamos parte da história, ao meu ponto de vista.

Mas, sim, o filme é muito superior a tantas outras comédias românticas embaladas, prontas e previsíveis. Só achei muito perfume francês importado do Paraguai =)

Agora isso...
"Na verdade, Elton, penso que o amor é clichê logo é difícil não clicherizar o amor no cinema".

ainda que seja verdade, há várias obras que se isentar de clichés para contar uma bela história de amor. Mas tu tem toda a razão!
;)


ab!