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18 de fev de 2010

Preciosa - Uma História de Esperança


Um soco na boca do estômago. “Preciosa – Uma História de Esperança” não é cinema de fácil digestão. Acompanhamos a história dramática do filme com um nó na garganta, decorrente das tragédias que assombram a vida da personagem-título (sim, traduziram o nome da protagonista na versão brasileira). Obesa, analfabeta, alvo de discriminação racial, grávida do segundo filho - consequente de estupros cometidos pelo próprio pai-, Clareece Precious Jones (Gabourey Sidibe), de apenas 16 anos, também é vítima constante de agressão física e verbal por parte da mãe (Mo’Nique). Desgraças à parte, a adolescente é uma garota sonhadora, que segue uma filosofia de vida de superação, sempre tentar encontrar a luz no fim do túnel. Quando é transferida para outra escola com alunos especiais, Precious conhece uma alfabetizadora (Paula Patton), que dará todo o apoio que ela precisa para não desistir dos sonhos e mostrará a ela que a vida, apesar de ser cheia de adversidades e obstáculos, também é uma dádiva preciosa.



Embora seja repleto de situações tristes e emocionalmente devastadoras, “Preciosa”, como o subtítulo brasileiro adianta, é um filme que respira esperança e otimismo. Um dos méritos do filme é não apelar para soluções fáceis, nem cair nas armadilhas do sentimentalismo – e há cenas ali que a trilha sonora instrumental poderia subir e arrancar lágrimas dos espectadores. Mas não. O diretor Lee Daniels acerta ao adotar um estilo de filmagem próximo ao documental na maior parte do filme, possibilitando um ar bruto e cru para uma história igualmente pesada e nebulosa. Infelizmente, porém, Daniels peca gravemente nos excessos e estilismos da direção, que dá a entender que a maneira como a história é contada se sobrepõe à própria trama em si. Movimentos de câmeras inadequados e enquadramentos de cenas desproporcionais e exagerados enfraquecem o projeto, que, às vezes, funciona mais como uma ferramenta para evidenciar o “apuro artístico” do diretor do que uma história comovente.


Para dar chance ao espectador respirar entre as cenas mais atormentadas e agressivas do filme, o diretor e o roteirista estreante Geoffrey Fletcher ganham pontos por adicionar alguns momentos de fantasia da protagonista, que pode ser considerada como uma “fuga da realidade”. Essa opção, além de ser charmosa e funcionar muito bem para narrativa – também aparecendo subitamente num ótimo trabalho de edição –, torna Precious uma figura ainda mais surpreendente ao apresentar os anseios e sonhos que a garota almeja na vida. Por outro lado, o roteiro se mostra terrivelmente falho ao adicionar clichês revoltantes e cenas pavorosamente mastigadas, que mais servem para obstruir o ritmo da narrativa do que acrescentar algo de novo a ela. O que dizer de Precious penteando o cabelo em frente ao espelho e vendo o reflexo de uma garota branca, loira de cabelos compridos? Tem também a péssima ideia da foto conversando com a pessoa, sem falar na vergonhosa cena em que Precious visualiza a própria vida em um filme italiano que acompanha pela televisão.



Enquanto o filme é enfraquecido por escolhas equivocadas, o elenco é só elogios. Encarando seu primeiro papel no cinema já de cara com uma personagem tão complexa (e complexada), a atriz Gabourey Sidibe realiza um trabalho digno de veterana. Insegura e desconfiada no início, mas revelando-se uma figura isenta de timidez ao passo que o filme avança, Sidibe concebe Precious como uma personagem encantadora e comovente – muitas pessoas acusaram-na de ter a mesma expressão durante todo o filme, mas a economia da atuação é compatível com a personalidade da personagem. Já a comediante e apresentadora Mo’Nique, que interpreta a mãe monstruosa de Precious, esquiva-se de qualquer estereótipo ou caricatura e cria uma das personagens mais odiáveis do cinema nos últimos anos, representando um tour de force inesquecível. Ao passo que os cantores Lenny Kravitz e Mariah Carey não passam de figurantes de luxo, a atriz Paula Patton convence ao interpretar a professora companheira de Precious, exaltando sempre um olhar carinhoso, não se deixando ofuscar pela presença poderosa de Sidibe ao dividir uma das cenas mais emocionantes do filme.


Apadrinhado pelas celebridades Oprah Winfrey e Tyler Perry (que aqui no Brasil não é tão conhecido), talvez seja esse o motivo para que “Preciosa – Uma História de Esperança” tenha recebido mais atenção do que deveria. Ou não, já que o filme foi realmente bem recebido pela crítica norte-americana, conquistando prêmios também em festivais importantes no decorrer do ano passado. No entanto, exceto pelas atuações irretocáveis, não é um filme que fuja do convencional, valendo mais pela sua mensagem sóbria de otimismo do que como obra cinematográfica.



NOTA: 6,0



PRECIOSA - UMA HISTÓRIA DE ESPERANÇA (Precious: Based on the Novel "Push" by Sapphire) EUA, 2009

Direção: Lee Daniels

Roteiro: Geoffrey Fletcher

Elenco: Gabourey Sidibe, Mo'Nique, Paula Patton, Mariah Carey e Lenny Kravitz



UPDATE: Link do programa de rádio Cinema Falado sobre o filme "Preciosa", apresentado por mim e mais 2 amigos cinéfilos.

7 comentários:

Francisco Brito disse...

O filme parece ser bastante interessante,e,a despeito de certas críticas negativas qt à obra em si,as atrizes Sidibbe e M´onique parecem msm estar com tudo,sempre elogiadas...
Pretendo ver esse filme,e mais uma vez,parabéns pelo ótimo texto,Tom!

Reinaldo Glioche disse...

Concordo que seja um filme que se ajuste a certas convenções. Principalmente no cinema independente americano.Contudo, sua chama está na história contada e no elenco que dá vida a ela. Isso é notório e vem sido reconhecido(inclusive na sua critica).
Concordo que Daniels se exceda um pouco no estilo e nos movimentos de camera, mas isso é padrão no cinema independente atual. e vá se acostumando. Depois dos triunfos de Quem quer ser um milionário? e Preciosa que adotam a linguagem de Cidade de Deus sem as devidas concessões, isso deve se alongar.
O que quero dizer, enfim, em relação ao estilo superfaturado de Daniels é que não vejo isso como um problema nessa caso em particular. Acho que os méritos de sua direção se sobrepõem a vícios que não são bem dele e sim d eum modelo de cinema.
ABS

Santiago. disse...

Análise bem pertinente a sua. Acredito que há em "Preciosa" uma conjunção de um bom roteiro e de excelentes atuações. Nem um, nem outra separadamente sustentariam a película, ainda mais, com todos os clichês do Daniels que você citou.

Concordo que a Mariah Carey e o Lenny Kravitz não comprometem a qualidade final do filme, mas poderiam ser trocados por outros atores. Até porque, a Mariah Carey está com a mesma cara da primeira até a última vez que aparece, seja em um momento descontraído, ou em momentos de maior tensão.

Por fim, uma coisa positiva na direção do Lee Daniels é a utilização do recurso da “câmera na mão tremida”, para passar a impressão de que o espectador é testemunha do dia a dia de Precious, e que de algum modo, também somos culpados por tudo que ela passa.

Abraço!

Elton Telles disse...

Olá Francisco!
O filme tem méritos, sim, seria teimosia mesmo não reconhece-los. As duas atrizes são, com certeza, os principais atrativos.


Dae Reinaldo! ;)
Eu acho que tudo tem que ter o seu propósito. Acho muito gratuito e sem propósito posicionamentos de câmera mais sofisticados quando não quer se dizer nada, apenas "embelezar" a história bruta. No entanto, reconheço o esforço de Daniels e seu sucesso em algumas escolhas, sem falar na direçao do elenco. Para fazer Mariah Carey atuar decentemente, acho que tem que ter, no mínimo, certa desenvoltura rs.


Olá, Santiago!
Poxa, muito obrigado! É, Mariah Carey não acrescenta, mas também não compromete... está no seu devido lugar, acredito. Valeu pela visita

;)


ABS!

Fernando disse...

Concordo contigo! O filme oscila em momentos muito bons com outros nem tantos... Não gosto do final, pra mim Preciosa é quase frustrante, já que esperava bem mais. A surpresa ficou por conta de Mo'nique e sua atuação dramática perfeita. Merece a estatueta dourada

Madame Lumière disse...

Olá Elton,

Gostei da sua crítica. Uma das melhores que vi sobre este filme e estou gostando da forma mais "doa a quem doer" das suas críticas. Parabéns!

Eu gostei de preciosa pela faceta da esperança que é o grande mote do filme, no entanto concordo que a direção de Lee Daniels ainda é precária em comparação a outros filmes independentes. A verdade é que não ficou de bom gosto porque não caberia em Preciosa ser um filme de bom gosto. É uma tragédia de uma jovem que está à margem, o filme tem que ter um toque mais marginalizado mesmo.

O elenco é o melhor do filme e há os equívocos mesmo que(realmente me incomodaram), principalmente o lance de espelho que foi um clichê de que toda negra quer ser branca de olhos claros e cabelo bom... um clichezinho barato porque mulheres negras costumam ser mais bem resolvidas com relação a isso do que os homens negros que desejam desfilar loiras ao seu lado como forma de embranquecimento de suas conquistas.

bjs!

Elton Telles disse...

Olá Fernando!
Não assisti a todas indicadas, mas também acho difícil alguma delas estar superior ao trabalho visceral de Mo'Nique no filme. Valeu pela visita! ;)


Oi Madame,
poxa, obrigado! Fiquei mais feliz ao ler o seu comentário =)
Você só se esqueceu de deixar o espaço para eu assinar embaixo de tudo o que disse.


ABS!