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24 de nov de 2010

O Solteirão


Dentre uma infinidade de personagens desagradáveis e moralmente desprezíveis que assumiram o papel principal em grandes obras do cinema, algo interessante de se analisar são as estratégias usadas pelos filmes para que o espectador, assumindo um caráter subversivo, acabe se simpatizando com uma pessoa que é movida pelas suas imperfeições. Apesar de interpretar bruacas em tantos clássicos, quem nunca deu um sorriso maléfico com as perversidades de Bette Davis? Quem não considera Hannibal Lecter um dos personagens mais incríveis da Sétima Arte? Quem não pagou pau para o Kevin Spacey em “Os Suspeitos”? Não precisam ser personagens assumidamente vilões, mas, por exemplo, Meryl Streep no recente “O Diabo Veste Prada”. Quem não admira Miranda Priestly? A aproximação do público com esses personagens reúne vários elementos determinantes para sua eficácia, desde um trabalho de direção seguro, por vezes delicado (depende muito do gênero do filme) até os direcionamentos bem elaborados de um roteiro, sobretudo os diálogos – para ilustrar, cito mais uma vez Bette Davis, insana e divertidíssima como a megera Baby Jane Hudson. Entretanto, um fator que é indispensável para conquistar o espectador é uma boa atuação, senão todo o esforço dos demais envolvidos praticamente vai por água abaixo. “O Solteirão” é mais um desses casos bem sucedidos, mais pela soberba atuação de Michael Douglas do que qualquer outro departamento, sendo, portanto, pertinente classificá-lo como um filme de ator.

Roteirizado pelo também co-diretor, Brian Koppelman, o filme acompanha o declínio pessoal e profissional do magnata Ben Kalmen (Douglas), um sexagenário galanteador que não faz questão de esconder sua atração sexual pelas mulheres. Ele namora uma jovem divorciada, Jordan (Parker), simplesmente porque o pai dela pode sanar os problemas financeiros pelo qual Kalmen enfrenta com a falência de uma concessionária de carros do qual era proprietário. Porém, quando a mulher descobre que seu parceiro transou com Allyson (Poots), sua filha mimada de 18 anos, as consequências de sua vida particular começam a surgir, agravando-se com o relacionamento instável que divide com a filha e também pela única coisa que parece lhe tirar o sono a esta altura da vida: mulheres. Jovens, de preferência.

Promovendo um ótimo estudo de personagem, o filme explora a personalidade do protagonista conforme os integrantes secundários do elenco cruzam o seu caminho. Egoísta e irresponsável no sentido de não medir suas atitudes, certamente não estamos diante de um role model a ser seguido, mas isso não distancia o espectador de Ben, por mais que seja, como qualquer outro ser humano, cheio de defeitos. É admirável, por um lado, a convicção de que o homem tem sobre as suas escolhas, fruto das experiências que já passou na vida. Quando, em certo momento, se encontra com um jovem universitário (interpretado por Jesse Eisenberg) e lhe enche de conselhos para transar durante o período da faculdade, é curioso vê-lo passando tantas orientações quando ninguém lhe pergunta sobre coisa alguma. Percebe-se que Ben alimenta uma ânsia de querer repassar seus conhecimentos adiante, como quando analisa a lábia do jovem pelo qual sua enteada está interessada e tenta convencê-la com argumentos pessoais de que o rapaz é um fracassado. Por outro lado, o protagonista também revela sua parcela de humildade quando se reencontra com um antigo amigo de faculdade (interpretado por Danny DeVito). Eles batem papo, relembram os velhos tempos e comparam como a vida de cada um tomou rumos diferentes, fazendo até um contraponto entre as personalidades divergentes de ambos, como se o próprio indagasse: “por que ele deu certo e eu estou assim?”.

Trata-se de um personagem complexo e a viagem interior que Ben embarca é muito bem pontuada pelo roteiro, que em momento algum julga seu protagonista, muito menos lhe dá cobertura e apoio pelos seus atos inconsequentes. Daí o título do filme, “um homem solitário”. Embora esteja rodeado de pessoas à sua volta, Ben está sozinho, abandonado, pois o próprio não percebe que suas atitudes acabam afastando as pessoas de perto de si, incluindo o neto por quem ele nutre tanto carinho. Com uma equipe atrativa de profissionais coadjuvantes, além dos já citados, somam as presenças de Susan Sarandon, que finalmente está em um projeto que utiliza o talento adormecido da atriz e da ótima Jenna Fisher. Mas “O Solteirão” só tem espaço para uma pessoa brilhar, e aqui, Michael Douglas está insuperável, sem dúvida, em uma das melhores atuações de sua carreira – e falo do ator que encarnou Gordon Gekko, emocionou meio mundo em “Garotos Incríveis” e ainda revelou um ótimo timing cômico no subestimado “O Rei da Califórnia”. Douglas é a alma do filme, desaparece na pele do personagem com sua fantástica composição e naturalidade.

Enfraquecido com terceiro ato pálido e muito repente, “O Solteirão” ainda é uma ótima “dramédia”, que mescla com propriedade algumas tiradas engraçadas e uma atmosfera levemente melancólica. E, acima de tudo isso, o desempenho brilhante de Douglas, que esperamos que se recupere do recente câncer diagnosticado e venha a oferecer mais atuações, que, como esta, é digna de seu imenso talento.


NOTA: 7,5


O SOLTEIRÃO (Solitary Man) EUA, 2010
Direção: Brian Koppelman e David Levien
Roteiro: Brian Koppelman
Elenco: Michael Douglas, Mary-Louise Parker, Jenna Fisher, Imogen Poots, Jesse Eisenberg, Susan Sarandon e Danny DeVito

9 comentários:

Cássio Bezerra disse...

Grande crítica, Elton!
De verdade, está muitíssimo bem escrito teu texto, rapaz. Parabéns!

Percebo que este Homem Solitário faz coro ao desabafo do Jovem Werther:

"Mas, ah!, corremos, voamos e quando lá chegamos, quando o longe se faz perto, nada se alterou, e nós encontramo-nos com nossas mesmas misérias, com os mesmos e estreitos limites, e de novo a nossa alma suspira pelo mesmo bálsamo que acabou de se esvair."

Aliás, preciso muito conferí-lo!

Grande abraço, meu amigo.
;)

Reinaldo Glioche disse...

Faço coro ao Cássio. Grande crítica. Sua contextualização inicial, aliás, se ajusta tanto ao papel de Douglas em O solteirão quanto em Wall street (talvez mais nesse segundo filme).
Concordo plenamente com suas impressões a respeito do filme e torço para que Douglas seja contemplado nas premiações com indicações. Até agora, é a atuação do ano.
Grande abraço!

pseudo-autor disse...

Estou precisando ver esse filme. Tem muita gente falando bem dele! E o Douglas está num ano formidável (à parte o problema do câncer).

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

cleber eldridge disse...

Quero conferir esse filme, mesmo que me parece bem mediano!

Cristiano Contreiras disse...

Eu vi o trailer e já li opiniões diversas sobre esse. Mas, confesso que DETESTO Michael Douglas - acho ele o mesmo sempre. Na verdade, parece interpretar ele próprio. Poucos filmes ele conseguiu mudar a mesma "cara-de-sempre", talvez no ótimo "Vidas em Jogo" de David Fincher...

Eu gosto de Mary Louise Parker e Sarandon, então esse filme tem pontos positivos, além da premissa muito bem articulada por você nesse texto.

Abração!

leo disse...

iaê Elton
Bem como de costume adorei o seu texto,e fiquei até curioso e compartilho com o Cristiano o gosto sobre Michael Douglas,não curto muito.
Mas parece ser um bom filme,abraços.

alan raspante. disse...

Enfim, você me convenceu, não iria ver este filme, mas depois do teu texto, não tem como não ver!

[]'s

Mayara Bastos disse...

O elenco é ótimo, apesar da premissa lembrar outros filmes que já contaram dilemas como o que Michael Douglas está passando. À conferir.

Beijos! ;)

Elton Telles disse...

Cássio: poxa, cara, muito obrigado pelo seu comentário e pelo elogio. Fico feliz em saber que gostou. Não conhecia esta frase, mas lembra sim a questão de "O Solteirão", pois apesar de tudo, da vida bem vivida, o cara se encontra sozinho no mundo, solitário. Confira sim, é um ótimo filme!


Reinaldo: valeu, chapa! Ah sim, citar Gordon Gekko iria ficar repetitivo, mas o primeiro parágrafo se apropria a ele facilmente. E, sim, Douglas está absolutamente fantástico. Merece indicações e quiça, prêmios nessa temporada. Também torço pelo seu merecido reconhecimento.


Pseudo: estamos todos torcendo por ele quanto à recuperação desta maldita doença. E, sim, ele está em um belo ano. Que venham muitos outros!


Cleber: vá, mas de coração aberto =)


Cris: obrigado. Mas discordo desse argumento de que Douglas interpreta ele mesmo em todos os filmes. O cara é tão natural, tão convincente que muitas pessoas atribuem esse demérito a ele, o que eu acho ser o mesmo que falam do George Clooney. Ambos têm poder de escolher os seus papéis e sei lá, escolhem aquilo que lhes estão a alcance, mas nem por isso seja ele mesmo. Parker e Sarandon pouco aparecem, mas estão muito bem.


Leo: o filme é ótimo e Douglas, a alma e coração do projeto. Pode ser que tu venha a gostar de Douglas depois de assistir =)


Ae Alan! Cara, antes de tudo, fiquei triste com o fechamento do Filmes e Cigarros. Não tive oportunidade de comentar nem nada pq vc já havia desativado o blog, mas fico feliz que ainda esteja vindo me visitar, Alan. Tu é sempre bem-vindo, parceiro. E yeah! Assista o filme sim, é ótimo, e tem uma das melhores atuações do ano! o/


Mayara: o elenco é o diferencial e, sim, não é lá um filme original, mas ainda assim, ótimo.


ABRAÇO A TODOS!