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21 de nov de 2010

Filmes em Diálogo: "Tudo o que o Céu Permite" (1956), "O Medo Devora a Alma" (1974) e "Longe do Paraíso" (2002)

Considerado o mestre do melodrama, o dinamarquês Douglas Sirk consolidou a sua carreira e posteriormente tornou-se referência neste estilo por acrescentar sofisticação e agradável formalidade visual a filmes com histórias aparentemente simples e convencionais. Sem exigir muito do intelecto do espectador, a filmografia de Sirk consiste em tramas sentimentais e de fácil compreensão, que procura atingir e envolver o público. Por vezes, flerta com o sentimentalóide, mas renega o exagero das composições e apenas pinta (ou tenta) uma fração da realidade que nos ronda. Esse conteúdo acessível foi ligeiramente emprestado pelas rádios e pela televisão como base de suas novelas, mas daí o termo “melodrama” acabou sendo banalizado, referindo-se a histórias maniqueístas e que se debruçam sem pestanejar sobre o sentimentalismo barato e ofensivo. Dentre as contribuições mais marcantes de Douglas Sirk para o cinema estão “Palavras ao Vento” (1956), “Almas Maculadas” (1958), “Imitação da Vida” (1959) e o fabuloso filme que, nesta postagem, pretendo dialogar com outros dois, “Tudo o que o Céu Permite” (1956).

Consumado por um technocolor embasbacante, “Tudo o que o Céu Permite” mostra o envolvimento de uma delicada viúva de meia-idade (interpretada por Jane Wyman) com o seu jardineiro, um belo rapaz consideravelmente mais novo (Rock Hudson, um dos maiores galãs da Velha Hollywood). Aprisionada pela ideologia do american way of life, seus amigos mais próximos, incluindo os filhos, passam a reprovar as atitudes da mulher, anteriormente vista como um exemplo para todos, e ela se torna alvo de fofocas e invenções referentes à sua fidelidade e respeito com o marido falecido. Com o tempo, o longa ganhou destaque e serviu até de inspiração para o controverso diretor alemão Rainer Werner Fassbinder, que em 1974 filmou “O Medo Devora a Alma”. O filme é basicamente o mesmo plot do de Sirk, só mudam as caracterizações dos personagens. Trata-se da relação amorosa entre uma viúva idosa (Brigitte Mira) com um imigrante marroquino que trabalha na Alemanha como mecânico (El Hedi bem Salem). Além das diferenças culturais, soma-se a idade de ambos: a mulher tem três filhos e mais de 60 anos, enquanto o estrangeiro é 20 anos mais novo.

Por fim, chegamos aos anos 2000, mais precisamente em 2002, para conferir a homenagem que o talentoso diretor Todd Haynes (“Velvet Goldmine”, “Não Estou Lá”) presta a Douglas Sirk. Mergulhando na atmosfera dos anos 50, Haynes se apropria dos convencionalismos estéticos de Sirk para retratar o casamento esmorecido de Frank (Dennis Quaid) e Cathy (Julianne Moore), uma mãe dedicada e exemplar dona-de-casa, que acaba encontrando em seu jardineiro negro e viúvo (interpretado por Dennis Haysbert) um reconforto pela sua vida matrimonial em ruínas. Essas três excelentes obras contam, cada uma à sua maneira, histórias de casos amorosos ou de aproximação entre pessoas solitárias e solidárias, mas que acabam se tornando vítimas dos preconceitos abomináveis que regem toda uma cultura reacionária presente na sociedade. No entanto, deixando-se se levarem pela repreensão de terceiros, essas mesmas pessoas também acabam se tornando reféns de suas próprias escolhas. Enquanto um deles encontra espaço para o happy ending, outros dois são mais emocionalmente pessimistas e depressivos.

Em uma sociedade que valoriza as posses em detrimento dos sentimentos, em que o status é posto acima da existência de caráter, é revoltante testemunhar as fofocas e suposições que são criadas e espalhadas ao vento sobre os personagens centrais. Seja a vizinha fofoqueira ou a falsa amiga ricaça, toda essa petulância em querer cuidar da vida dos outros indicam certa infelicidade por parte dessas pessoas, ou talvez frustração, inveja por estarem soterradas em uma vida medíocre. Ainda mais lamentável é perceber que esses atos de intolerância reverberam até os dias de hoje. Alguns dizem que já avançamos muito nesse sentido, devo concordar com esse posicionamento, pois percebo que há maiores liberdades, mas ainda há muitas pessoas que têm a mentalidade da Idade Média e depositam na fé, na “cultura” ou “educação”, mas nunca na própria ignorância, a discriminação que pratica. Não sei se isso indica necessariamente uma evolução, mas analisando por outro lado, também não representa um retrocesso. A dura realidade é que ainda estamos estagnados nesta ideologia limitada.

Sem contar que os filmes também jorram uma fonte de egoísmo partindo dos personagens secundários. Cegos pelo individualismo, a própria família das mulheres preferem vê-las relegadas à infelicidade e ao vazio existencial do que terem seus nomes correndo boca a boca dos invejosos. Em “Tudo o que o Céu Permite”, os filhos mimados da viúva alegam que o envolvimento da mãe com um jardineiro mais novo iria acabar com a imagem da família e que sua atitude é um desrespeito contra o pai morto. A mulher, em razão dos filhos, põe um fim no relacionamento. Mais tarde, a garota diz à mãe que vai se casar e o filho vai morar no exterior, e o que seria da personagem de Wyman? Desapareceria no ostracismo, apenas alimentado as amizades frívolas que pouco lhe acrescentava. Em “O Medo Devora a Alma”, a filha se posiciona contrária à mãe idosa se relacionar com um estrangeiro, mas não percebe que seu marido alemão (?) é um verme incapaz de levantar do sofá e procurar emprego. Da mesma forma, em “Longe do Paraíso”, o marido que reprime seus desejos homossexuais aponta o dedo para a esposa que está (apenas!) se encontrando com o jardineiro negro, mas mantém, às escondidas, um relacionamento extraconjugal com um homem com quem trabalha no escritório – e isso, não, de maneira alguma mancharia sua vida pessoal e sua carreira profissional.

Compreendo que analisar essas situações isoladas de fora é muito mais fácil, complicado seria se eu estivesse na pele desses personagens. No entanto, não faço exceção a mim e nem a ninguém quanto a alimentar preconceitos: todos têm em maior ou menor grau, o que fere é que alguns parecem fazer questão de mostrar e serem propositalmente desagradáveis com seus posicionamentos. Para estes, só desejo uma morte bem lenta (hahaha, brincadeira!). É a aquela velha história de olhar para a janela afora e dizer que os vizinhos não lavam bem a roupa, quando, na verdade, é a sua vidraça que está imunda. O relacionamento sincero de duas pessoas (dois seres humanos) serem dizimados por conta da xenofobia, do preconceito racial, preconceito de idades, pela renda financeira ou pela posição que assume na sociedade. Isso é lamentável.


São três grandes filmes que se dialogam nesse sentido de apresentar a cumplicidade e o encontro de duas pessoas amáveis, mas que são apedrejadas pelos demais por sustentarem diferenças entre eles. “Tudo o que o Céu Permite” é um filme romântico e encantador, apresenta um departamento técnico arrojado e detalhista, contando com atuações sinceras de atores que dão maior dimensão ao sofrimento de seus personagens. Enquanto isso, na Alemanha dos anos 70, “O Medo Devora a Alma” – parece título de filme de lobisomem –, apresentam duas pessoas de baixa escala socioeconômica que se apaixonam. Com uma estrutura seca, o filme é amargo e tece uma pertinente crítica social, obtendo como resultado dois prêmios no Festival de Cannes. E retornando aos subúrbios norte-americanos, o ousado “Longe do Paraíso” se torna um filme mais enriquecido com a subtrama espetacular envolvendo o personagem do marido e, em algumas de suas cenas, mostra que o câncer da mentalidade social não é resolvido por tratamentos médicos, e nem existem remédios para esse tratamento a não ser a aceitação e paz interior.

“A felicidade nem sempre é divertida”. Essa é a frase que aparece quando o filme de Fassbinder começa. Muito curiosa. Seria a felicidade apenas um estado de espírito passageiro? É possível alcançar a felicidade integral? Eu acho que não, mas todo mundo tem direito a uma pequena parcela, e, quem sabe, talvez o primeiro passo para se alcançar essa pequena quota de felicidade é começar cuidando exclusivamente de nossas próprias vidas.

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