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28 de ago de 2010

As Melhores Coisas do Mundo


“Você quer saber o endereço do inferno? O inferno é aqui!”, diz um dos personagens adolescentes do filme ao pai, apontando o polegar em direção ao colégio onde estuda. Nem vou entrar no mérito de discutir os motivos que justificam o Ensino Médio ser uma das fases mais paradoxais e controversas da vida de qualquer pessoa escolarizada. Afinal, é justamente durante esse árduo período que os jovens começam a lidar com as responsabilidades e deveres diários dos ambientes externos, ao mesmo tempo em que esbarram contra diversos pilares com os quais se identificam e, aos poucos, criam a própria personalidade – alguns se apóiam no modismo efêmero, mas essa também é uma forma de modelar o caráter. Sem dúvidas, a adolescência é uma fase deveras conflituosa, mas que não deixa de ser interessante por ser um momento de decisões e descobertas, nem sempre tão prazerosas como a maioria gostaria, mas é o momento das primeiras escolhas, é o momento de experimentar e de ser “irresponsável” por opção; em suma, é um momento único da vida. Sem rodeios e firulas, “As Melhores Coisas do Mundo” faz um belo e autêntico retrato dessa fase tão espinhosa, cheia de altos e baixos. Mesmo que se trate de um ensaio fiel da adolescência, o terceiro projeto da diretora Laís Bodanzky não tem restrições de idade, pois é praticamente impossível o espectador, ao acompanhar as situações retratadas na história, não se relembrar e reviver um pouco tudo outra vez.

Repetindo a parceria da diretora com o roteirista (e marido) Luiz Bolognesi, “As Melhores Coisas do Mundo” é inspirado em uma série de livros escritos pelo jornalista Gilberto Dimenstein ao lado da escritora Heloísa Prieto. O filme se concentra no personagem Hermano, apelidado pelos amigos de Mano (Miguez), um garoto de 15 anos, pertencente à classe média de São Paulo. Um acontecimento na família faz com que ele perceba que virar adulto não é uma tarefa fácil, e assim passamos a acompanhar as inseguranças e (in)experiências do garoto, desde a primeira transa até as humilhações no colégio. O roteiro faz um apanhado de situações que rodeiam e interferem na vida de Mano, que passa a acreditar na ideia de que o caminho para se chegar à felicidade na fase adulta é muito mais complicado do que se imaginava.

A partir das conquistas e adversidades que Mano se depara no decorrer do filme, os demais personagens também acabam dividindo seus dilemas, desde uma paixonite infantil por um professor e a infidelidade até as ofensas gratuitas advindas dos companheiros de classe. Uma das maiores virtudes de “As Melhores Coisas do Mundo” é a opção de fazer um simples registro do comportamento da juventude atual, mostrando como essa geração de jovens consumida pela indiferença e intolerância convive com as diferenças, em vez de distribuir sermões pelas atitudes imprudentes dos mesmos. Outra questão muito interessante em discussão é o “amadurecimento” precoce, como a mãe de um aluno, em certo momento do filme, diz que os professores podem ser as vítimas em algumas situações, visto a popularização da internet, iPods, MP4, 5, 6, 10, enfim – e muitos outros motivos que também alimentam a maturação antes do tempo. E se estão todos interessados em fofocas e nas vidas alheias – uma aluna estúpida mantém um blog com as “notícias mais quentes” da escola -, o filme demonstra o descaso dos jovens com a política dentro do caótico ambiente escolar que os próprios frequentam; um lugar hostil, onde qualquer um pode ser o “zoado da vez”, como Mano esbraveja em um desabafo travestido de discurso.

Amadurecendo cada vez mais na função de diretora depois dos ótimos “Bicho de Sete Cabeças” e “Chega de Saudade”, Laís Bodanzky conduz o seu novo projeto com muita segurança e sensibilidade, fazendo com que todo o universo concebido do filme seja palpável ao espectador. E isso, ela consegue com méritos. Curioso que, na sala de cinema em que assisti ao filme – lotada de adolescentes –, alguns riram do fato de um dos personagens se assumirem homossexual logo no início do filme, mas perto do final quando uma brincadeira maldosa é direcionada à pessoa por ela ser gay, os risos ouvidos antes não se repetiram. Isso demonstra certa sensibilização e aproximidade do público pela história que está sendo contada. Sem falar que Bodanzky consegue inserir momentos realmente emocionantes e comoventes no meio da trama, como as belíssimas cenas dos ovos na cozinha ou a que se ouvem acordes de um violão sendo tocados em um quarto de hospital. Ainda mais em um filme com temática voltada primordialmente ao público adolescente, são raras essas inserções mais delicadas e introspectivas.



Não deixando jamais se intimidarem pela câmera, ao assistir “As Melhores Coisas do Mundo”, parece que estamos diante de atores mirins com experiência em atuação, mas todos não passam de novatos que foram selecionados por um concorrido teste de seleção. E as escolhas foram certeiras, ao menos satisfatórias, já que a espontaneidade com que desempenham seus papeis contribui positivamente ao filme, conferindo autenticidade tanto nos diálogos como no comportamento descontraído e natural. Encabeçando o elenco, o estreante Francisco Miguez realiza um ótimo trabalho ao alternar os momentos de alegria e sofrimento do personagem, que chega até a desafinar a voz em momentos que julga embaraçosos. Da mesma forma, Gabriela Rocha e Gabriel Illanes interpretam Carol e Deco, respectivamente, com boa desenvoltura e carisma. Sem falar no restante do elenco, alguns compostos por caras já conhecidas como Caio Blat, Fiuk, Zé Carlos Machado, Paulo Vilhena e a sempre excelente Denise Fraga, que se despe das caricaturas cômicas para interpretar uma mulher em uma situação desconfortável e que usa os códigos deontológicos como guia para suas escolhas.


O filme ainda é embalado por uma trilha sonora de total destaque, transitando de Beatles a Arnaldo Antunes, que canta a excelente canção-título. Para os detratores do cinema nacional que usam chavões batidos para evidenciar o desdém que sentem pelas produções feitas no Brasil – “ai, é muito mal feito”, “só conta história de favela e pobreza...” – acredito que não irão se decepcionar com mais um belo exemplar da nossa cinematografia. Até agora, não há dúvidas de que “As Melhores Coisas do Mundo” é também um dos melhores filmes do ano.


NOTA: 8,5


AS MELHORES COISAS DO MUNDO (Idem) Brasil, 2010
Direção: Laís Bodanzky
Roteiro: Luiz Bolognesi

Elenco: Francisco Miguez, Gabriela Rocha, Fiuk, Denise Fraga, Gabriel Illanes e Caio Blat

12 comentários:

@Raspante disse...

Ainda não vi, mais estou um pouco impressionado com este sucesso todo, principalmente de crítica, o filme deve ser mesmo muito bom!
Ótimo texto Elton!
Agora s[o falta eu ver o filme...

pseudo-autor disse...

O mérito é todo da diretora. A Laís é ótima e já tinha provado isso no Bicho de 7 cabeças e no Chega de Saudade. E trabalhar com adolescente deve dar um trabalho do cão!

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

cleber eldridge disse...

LOL, pensei que não ia voltar mais, rs. Você assim como muitos outros elogiaram o filme de certa forma, ainda não conferi a obra que parece ser um cinema brasileiro sincero. Farei assim que possivel.

Tom, abraço.

Amanda Aouad disse...

É um belo filme, sim, retrata com verdade os adolescentes, como você falou, e nos envolve naquele dia a dia. A cena dos ovos é um primor, sem dúvidas. E discordo do pseudo-autor aí em cima, acho que o mérito é muito da Laís, mas também do Luiz que soube compor um roteiro realista.

Ah, respondi lá, mas reforço aqui. Claro que pode linkar o CinePipocaCult a esse espaço. Já vou colocar o pós.premiere lá no blogrool.

abraços

Reinaldo Glioche disse...

Bela crítica Elton. Concordo que seja um dos melhores filmes do ano (brasileiro até aqui é este e o Cabeça a prêmio) e acrescento: para mim é o melhor trabalho de Laís Bodanzky. Um filme coeso e multifacetado. Vigoso e rigoroso, sem deixar de ser atencioso com seu público alvo.
Grande abraço!

Rodrigo Mendes disse...

Oi Elton!!

As Melhores Coisas...é muito bacana melhor que Malhação, rs!

A Laís Bodanszy tem uma execelente filmografia. Sempre gostei de Chega de Saudade e Bicho de 7 cabeças foi um "Up" no cinema nacional pré Cidade De Deus, em relação ao público e ao âmbito cult. Também foi o primeiro papel do Rodrigo Santoro no cinema. Enfim, imperdíveis os seus filmes.

Aqui ela faz tudo fluir muito bem, os conflitos são nu e crus e nada de tric tric quando o papo é adolescência.

Sobre GHOST WORLD...mais um filme que perdi no cinema Falado =// É o meu tempo e horário na Faculdade.
Um filme muito bacana também e ressalto a participação do falecido Brad Renfro no filme. Excelente!

Abs!
Rodrigo

Victor Machferreh disse...

Arrebentou com a Crítica elton!
Isso aew! O filme é a prova que o cinema brasileiro está ganhando o prestígio que merece nesta nova fase.

Parabéns a toda produção e parabéns ao Elton que tão bem retratou o filme

leo disse...

Ainda não assisti mais Laís Bodanzky costuma não me decepcionar e acredito bastante que não irá.

césar disse...

Nossa, ja tinha visto algo sobre esse filme; com essa sua critica, a vontade de ve-lo se concretizou.

Seu texto ta muito dez. Parabens pelo blog. Aos poucos, vou conhecendo melhor.

Mayara Bastos disse...

Curiosíssima para assistir esse filme, parece de total identificação para pessoas de minha idade. rsrs. ;)

Saulo S. disse...

Ótimo filme, recomendo!

volverumfilme.blogspot.com

Elton Telles disse...

Alan: é um dos melhores filmes nacionais lançado este ano, meu caro. Vale muito a pena, é um excelente filme. Não mostra apenas o lado bom da juventude, é equilibrado com os percalços que rodam essa fase tão boa da vida =)


Hahaha Pseudo, de fato trabalhar com adolescentes não deve ser uma coisa tão fácil, mas pelo resultado na tela, o casting foi muito acertado. Claro que Bodanzky atinge níveis sublimes na direção, mas os méritos são divididos ali. Desde os atores até o roteiro e a edição rítmica... uma composição muito acertada.


Cleber: faculdade, meu caro, consumindo meu tempo... rs. Assista sim, com certeza tu vai se identificar.


Amanda: concordo em absolutamente tudo. Valeu pelo comentário.


Reinaldo: dae cara! Estou em débito com o Marco Ricca, quero muito assistir "Cabeça a Prêmio". E concordo, Bodanzky aborda um universo de coisas na adolescência, mas ainda assim é um filme agradável a este público - o que não pode dizer o mesmo de Gus van Sant, mas isso não é um demérito de forma alguma =)


Rodrigo: gosto também da Laís Bodanzky, acho uma diretora que consegue amarrar os seus filmes e adicionar toques ainda mais interessantes na história. "Bicho de 7 Cabeças" e "Chega de Saudade" são belos filmes nacionais, e "As Melhores Coisas..." só vem a somar =)

Ah, que pena que perdeu "Ghost World" no CF. Em breve, disponibilizo o download =)
Brad Renfro... bem lembrado! Sofrendo na mão da Thora Birch rs.


E aí, Victor! Valeu pelo comentário, cara. E valeu pela presença para assistir o filme novamente rs. o/


Leo e Mayara: vão confiante.


Cesar: Valeu, Cesar! Obrigado por passar aqui no Pós-Première. E o filme é muito bom, sim!


Saulo: o/


ABS A TODOS!