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10 de jul de 2010

Lembranças


Um dos plots mais aborrecidos e usados indiscriminadamente em diversos filmes destinados ao público adolescente é o da “aposta”. Geralmente, consiste em dois (ou mais) jovens do sexo masculino que desafia(m) outro – o protagonista, decerto – a tomar certa atitude em relação ao sexo oposto em troca de alguma recompensa final ou o simples desfrutar da vitória. Transformar a garota feia da escola na rainha do baile, transar antes da formatura ou conquistar a garota mais popular da high school; não interessa qual seja a aposta relatada pelo filme, fato é que sempre algum personagem vai passar a enxergar o mundo com outros olhos a partir dessa experiência “desafiadora”. Para compensar a mediocridade, a maioria dessas comédias românticas preguiçosas acerta, ao menos, em assumir a imbecilidade que propõem como principal conflito da trama, preferindo dar a cara à tapa a se camuflar diante de uma falsa identidade para soar como um filme original ou instrutivo, que, convenhamos, são as últimas coisas que são. Transbordando pretensão à medida que avança, “Lembranças” é um teen movie declarado, que falha ao querer levar sua proposta a sério demais ao investir num tom mais maduro, resultando em um filme chato, manipulativo e ainda com um dos piores desfechos já visto em anos.

Escrito pelo novato Will Fetters, a aposta de “Lembranças” é lançada pelo infantil Aidan (Ellington) ao seu companheiro de quarto, Tyler (Pattinson), para conquistar a filha de um policial que os detiveram na delegacia em ocasiões passadas. Encarando o desafio como uma possível vingança ao pai policial, Tyler se aproxima da bela Ally (de Ravin) e acaba se apaixonando pela garota. Conciliando o romance com seus compromissos familiares, o rapaz ainda faz questão de cuidar da irmã mais nova, que é vítima de bullying na escola e ainda sustenta um relacionamento turbulento com o pai frio e ausente.


Mantido sobre um tom de luz predominantemente fosco, o segundo trabalho no cinema do diretor norte-americano Allen Coulter – o primeiro fora o mediano “Hollywoodland – Nos Bastidores da Fama”, de 2006 – é prejudicado pela presunção de abranger diversas situações que rodeiam aquela que deveria ser o mote principal do filme: o romance entre os protagonistas. Mas não, um dos problemas mais graves de “Lembranças” é englobar várias subtramas bobas e dispensáveis para, talvez, dramatizar ainda mais a história. O resultado é que o romance acaba sendo pouco explorado e, por vezes, chato; bem como todo o resto passa a ser um exercício de paciência, pois o tratamento frágil do roteiro para cada situação soa insatisfatório e sem consistência, originando uma série de cenas soltas e sem um fio condutor entre elas. Afinal, não há razão para que Fetters iniciasse o filme com a morte da mãe de Ally e pode-se questionar, inclusive, a inclusão na história do suicídio do irmão mais velho de Tyler. É compreensível que o filme pretendesse retratar as dores internas e passadas dos personagens principais e sustentar aquela máxima de que “a vida é feita de momentos”, mas todas essas situações falham em querer dimensionar o reflexo das lembranças de cada um, tornando-se mais um empecilho para a história do que uma contribuição orgânica para o seu andamento.


Desesperado em querer estabelecer vários laços dramáticos no meio da história, o roteirista acaba chutando para todos os lados ao investir em vários problemas externos que atingem a vida dos protagonistas. Mas além de criarmos uma identificação com eles, percebemos a ignorância de cada um ao enfrentar os desafios corriqueiros que surgem, como a cena em que Tyler leva a irmã mais nova para a sala de aula e percebe que ela é alvo de chacota entre as outras garotas. O que o rapaz imediatamente faz? Inconsequente de seus atos, ele assusta as crianças empurrando a carteira da malfeitora e joga um extintor de incêndio na porta, quebra os vidros, ou seja, um comportamento ainda mais infantil do que daquelas garotas que assistem ao “show de horrores” com olhos amedrontados. O mesmo pode ser dito de Ally, que, bem mais “tranquila”, ao ser questionada pelo pai, humilha-o expondo os defeitos dele como se fosse o responsável pela morte de sua mãe – aqui é mais compreensível, pois o script tinha que arrumar algum desentendimento entre pai e filha para, mais tarde, todos ficarem felizes novamente. Isso sem mencionar a cena protagonizada pelo pai workaholic interpretado/desperdiçado por Pierce Brosnan, que discute com o filho irresponsável em plena reunião de negócios no local onde trabalha.




Sem pó de arroz no rosto e batom vagabundo nos lábios, confesso que não esperava absolutamente nada da atuação de Robert Pattinson, visto o constrangimento que o próprio se submete na saga “Crepúsculo”. Mas, aqui, o ator se sai surpreendentemente bem, interpretando o papel do “poeta delinquente romântico”, aquele tipinho intelectual e conquistador, com surtos de rebeldia e avesso a banhos ou qualquer manifestação de higiene pessoal. O par romântico é complementado pela atriz Emilie de Ravin que, assim como Pattinson, interpreta uma personagem chata, mas que consegue injetar algum “ânimo” a ela, apesar de o roteiro relegá-la completamente ao segundo plano. Chris Cooper e Pierce Brosnan também fazem pequenas participações, mas são papéis secundários para completar a agenda, os dois são capazes de fazer coisas muito melhores – e eu não diria isso de Brosnan até ficar surpreso com sua atuação excelente no último Polanski, “O Escritor Fantasma”.

Abarrotado de situações constrangedoras e que são praticamente ignoradas nas cenas seguintes por incompetência do roteiro e do diretor manipulador, o espectador está ciente de que assiste um filme ruim até chegar aos 10 minutos finais. É incrível como poucos minutos podem destruir completamente um filme, assim como comentei na minha crítica de “Educação” – embora o filme de Scherfig, diferente deste, seja um ótimo exemplar. Aqui percebemos a covardia e desespero sufocante do roteiro ao querer dar um desfecho “emocionante” para a história, que, aliado à falta de delicadeza do diretor, contribui para um final dos mais toscos e irritantes do cinema contemporâneo. Tudo que eu queria era esquecer, mas essa vai ser uma lembrança amarga que vai ser difícil apagar da minha memória cinéfila.


NOTA: 3,0


LEMBRANÇAS (Remember Me) EUA, 2010
Diretor: Allen Coulter

Roteiro: Will Fetters
Elenco: Robert Pattinson, Emilie de Ravin, Tate Ellington, Chris Cooper e Pierce Brosnan

9 comentários:

Cristiano Contreiras disse...

É uma pena que não tenha gostado do filme, teu texto é carregado de uma crítica altamente imensa, chega a soar amargo, rs.

Mas, eu tenho que discordar totalmente de você.

Não acho um filme fraco, muito menos manipulativo como você diz - e, para mim, o final - além de bem criativo e inesperado - soma um bom resultado neste filme que é mais intimista e mostra dores reais.

O foco no filme não é e nunca foi no romance entre Tyler e Ally, mas sim a forma como ambos tentam lidar com os problemas de vida e dores diversas, a dois. É até bom que ambos não sejam tão melosos e evitem frases de efeitos, ao longo das cenas. Gostei disso.

E me espanta você dizer que o roteirista pecou em colocar certos atos e motivações dos personagens: pelo contrário, Tyler (e eu também), assim como muita gente, age instintivamente...é emocional..se tua irmã fosse agredida tão abruptalmente por qualquer pessoa, ainda que fosse por crianças, eu duvido que você não sentiria vontade de procurá-las para dar um puxão de orelha ou um alerta...Tyler explode naquela cena como muito ser humano faria, já que é doloroso vê o que a irmã dele passa...não é fácil e acho a atitude dele realista...nós, seres humanos, somos movidos por nossas emoções e sensações...pode até ser infantil e impulsivo ele ter agido assim, mas não importa: foi a forma dele extravasar o que sentia e mostrar àquelas crianças o quão crueis eram.

Os dramas vividos por Tyler e Ally são mais coerentes, reais e tangíveis que vários filmes por aí tentam usar do melodrama pra convencer alguém.

Pode não ser um filme perfeito e de fato nem é, mas eu gostei muito do resultado.

Abraço!

Daniela Gomes disse...

Não guardo reminiscências amargas deste filme como você, apesar do desconfortante e frustante final.
Gostei de sentir uma boa atuação do Pattinson e a química do casal é bastante deliciosa, apesar de repousar nas já citadas falhas.
Meu comentário é menos completo, mas bate com o seu em alguns pontos. Exceto pelo fato de eu ter achado que o filme foi bom e de ter sido engolida pela manipulação final. Sou uma manteiga. Me deubulhei, mas de forma totalmente desconfortável. Lágrimas que surgiram de forma forçada. Uma pena! Rs

Um abraço para ti.

Obs: Você citou o "O Escritor Fantasma". Vale um texto, não? Estou tentada a escrever sobre, mas estou totalmente sem tempo. Mas o filme merece. Muito bom!

cleber eldridge disse...

Allen Coulter é um diretor ao menos interessante, um que filme começa mal dentro de um contexto aceitável, termina pior, com um desfecho absurdo, barato e distante da tônica, muito ruim.

bruno knott disse...

Tenho uma relativa vontade de assistilo, apesar da sua nota 3!

Li bem sobre ele em alguns outros lugares, mas sempre com ressalvas.a

Alan Raspante disse...

Sua crítica é tudo o que penso do filme, mas nunca disse, rs
Gostei da crítica! rsrs
Bem o filme, é um filme teen... vai fazer sucesso na sessão da tarde! RUTE!

Thiago disse...

Esse eu quero ver ainda. Uma chance de ver o Pattinson sem pó no rosto, haha. Já tinha lido que o filme era ruim, vamos ver ne, rs.

Abraço

Reinaldo Glioche disse...

Embora não ache que o filme chegue a ser tão ruim, concordo com sua avaliação do filme. Vc esmiuçou muito bem os manjados subterfúgios perpetrados pela fita.
abs

Madame Lumière disse...

Olá Elton,

Gostei da sua crítica, embora eu tenha me esforçado em ver algumas qualidades em Lembranças, mas no geral, é um filme melancólico, com um Pattinson aproveitado e algumas premissas que têm a ver com o dia a dia do adolescente/criança problemática como bullying,suicídio e perdas em geral, falta de diálogo com os pais.

Gostei da parte introdutória da sua resenha. Plot bem lembrado!

abs!

Elton Telles disse...

Cris: eu não sou tão mal assim hahaha! Calma, foi só a minha impressão com o filme, não acabei com ele de graça =D

Também acho um ponto positivo o casal não ficar trocando carícias e palavras afetuosas o tempo todo, mas o que eu achei bem deficiente foi o direcionamento do roteiro em querer abranger várias subtramas e não ser eficiente em nenhuma delas, sem relevância e sem um fio condutor para ligá-las. E ainda bem clichés, sem nenhuma originalidade (pai ausente, garotinha vítima de bullying...).

E até entendo você defender a resposta instintiva de Tyler na cena em que testemunha aqueles monstros em forma de garotas infernizarem sua irmã, mas ele realmente achava que jogando o extintor de incêndio na porta, resolveria tudo? Violência corresponde com violência? Ele foi tão ou mais idiota do que as garotinhas. Achei bem de mau gosto essa cena.

sem falar que algumas inclusões no filme são colocadas só para aumentar o drama e o chororô, mas que são bem reducionistas e não contribuem organicamente para a trama, como a mãe dela sendo assassinada na estação de trem.

valeu pela intervenção o/


Daniela: buenas! Obrigado pelo comentário. Ainda que você tenha chorado, ainda bem que reconheceu a verdadeira origem das lágrimas hahaha, total pastelão. Mas é normal, eu já me emocionei com cada bobagem no cinema que é até vergonhoso dividir aqui rs.

E crítica de "O Escritor Fantasma" vem em breve ;)


Cleber: Coulter ainda não me disse ao que veio. Gostei moderadamente de "Hollywoodland", mas aqui reprovo totalmente seu trabalho, péssima direção. Portanto, ainda não tiro conclusões, até porque 2 trabalhos não dizem muita coisa do talento da pessoa, mas ele está em débito comigo rs.


Bruno: assista, mas vá com os 2 pés atrás. E recomendo desligar o filme antes antes de seus 10 minutos finais hahaha!


Alan: obrigado pelo comentário. Bem isso, fará sucesso na Sessão da Tarde, um substituto à altura daquele filme que o namorado da Julia Roberts morre, "Dying Young", eu acho rs.


Thiago: Pattinson se sai relativamente bem. Eu gostei do seu trabalho, mas vi muitas pessoas jogando pedra. Não sei. O pessoal do site do Framboesa de Ouro não gostou, e se ele for indicado a Pior Ator, com certeza será mais por conta do hype do que pelo seu trabalho efetivamente. Já por "Eclipse", a história é diferente... rsrs


Grande Reinaldo! Valeu pela ponderação. Talez tenha exagerado um pouco, mas aquele final me fez quase esquecer as poucas qualidades desse filme =D


Valeu, MaDame! Ninguém aguenta mais filmes de "aposta", né? rs


ABS!