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26 de jan de 2010

Os Falsários

É completamente plausível ouvir alguma pessoa dizer que não suporta mais assistir filmes ambientados durante a Segunda Guerra Mundial. A quantidade de histórias já projetadas em película que recriam todo o período da tragédia vêm aos baldes. Entre os mais conhecidos, tem a do empresário rico que elabora uma lista para salvar alguns judeus prisioneiros; tem também a mãe sobrevivente de Auschwitz que se vê numa escolha difícil em relação aos filhos; a perda da inocência de um garoto que acompanha a guerra (esse aqui tem milhares, mas recomendo o fabuloso “Vá e Veja”); e é impossível se esquecer daquela do pai que leva o filho escondido e faz do campo de concentração, um parque de diversões. Claro que o tema não está ileso a porcarias, comprovado pelos vergonhosos “Um Ato de Liberdade” e “Pearl Harbor”. Porém, embora sejam compreensíveis as reclamações constantes da demanda de filmes contextualizados no Holocausto, não há como negar que, ainda hoje, são produzidos trabalhos notáveis que retratem este período – “Cartas de Iwo Jima”, “A Queda! As Últimas Horas de Hitler” e “O Pianista” são alguns nomes a se destacar. Ah, e claro, “Os Falsários”, filme austríaco que arrebatou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2008.

Escrito pelo também diretor Stefan Ruzowitzky, baseado no livro de memórias do ex-prisioneiro Adolf Burger, a história começa na Alemanha de 1936, ano em que Salomon Sorowitsch (Markovics), considerado um dos maiores falsificadores de dinheiro do mundo, é finalmente preso pela polícia de Berlim. Anos mais tarde, com o início da Segunda Guerra Mundial, o impostor é transferido da prisão para um campo de concentração privado, onde, junto com tipógrafos, estampadores, fotógrafos e designers gráficos, todos judeus capturados pelos nazistas, passam a trabalhar para a SS como falsários oficiais da polícia alemã, reproduzindo cédulas, documentos e passaportes falsificados. Essa missão ficou conhecida como “Operação Bernardo”. Como recompensa de seus esforços, eles ganham vantagens renegadas a prisioneiros comuns: colchões macios, lençóis limpos, banhos semanais, água encanada, permissão para ouvir música e, o mais importante, direito à sobrevivência.

Mas vale a pena viver para isso? Trabalhar como escravos para os inimigos em troca de privilégios que é o mínimo exigido para se ter uma vida decente? Essa questão permanece durante toda a projeção e é justamente nesse ponto delicado que reside os maiores méritos do filme. Enquanto todos os judeus prisioneiros trabalham quietos para garantir a liberdade pós-guerra, há um personagem do filme que anseia revolução, que não se permite trabalhar para os nazistas, humilhando-se diariamente para satisfazer as vontades dos inimigos e financiando as munições que futuramente podem ser atiradas contra si mesmo. O filme levanta uma relevante discussão sobre a integridade moral e ética do homem, e são os confrontos entre os exilados sobre a dignidade pessoal e a covardia que resultam nas melhores cenas do filme. Ao ser criticado sobre a falta de cooperação no “trabalho”, um dos prisioneiros rebate “É uma questão de princípios/ Ninguém aqui quer morrer por princípios!/ É por isso que o sistema nazista funciona!”.


O design de produção recria com eficácia o campo de concentração de Sachsenhausen, criando um casamento perfeito com a fotografia fosca do filme, que acentua o tom degradante e sujo do local. A direção de Ruzowitzky é contida e econômica, sem muitas ousadias, mas está sempre em sintonia aos movimentos do elenco. Também merece créditos por não transformar os ataques nazistas em uma carnificina sem propósito, pois todos sabem o quanto os judeus foram hostilizados, e fazer disso um circo de horrores seria equivocado para o que o filme se propõe a discutir. Por outro lado, se a direção não se revela maniqueísta, a trilha sonora equivocada sabota completamente esse conceito, dando a entender que assistimos a um filme de terror quando um soldado nazista simplesmente observa seus prisioneiros marchando.

Em meio a tantos exemplares ambientados na Segunda Guerra Mundial, “Os Falsários”, além de um ótimo filme, surge como um relato histórico do maior programa de falsificação que se tem conhecimento, tendo produzido em torno de 132 milhões de libras para o governo alemão. Além disso, merece destaque pela eficiente discussão que evoca sobre a dignidade do ser humano, um tema que, embora tenha sido contextualizado em uma história que se passa há 70 anos, sempre permanecerá atual.


NOTA: 8,0


OS FALSÁRIOS (Die Fälscher). Austria, 2007

Direção e Roteiro: Stefan Ruzowitzky

Elenco: Karl Markovics, August Diehl, Devid Striesow e Martin Brambach

7 comentários:

bruno knott disse...

acabei de ler um review desse filme em outro blog e ele elogiou bastante também.

apesar de ter ganho prêmios e ser bem comentado ele não me atrai, mas acho que vou conferir em breve!

Francisco Brito disse...

Premissa mt interessante a desse filme,Tom.
Parabéns pelo texto!

Jack disse...

Tom,

Tudo bom? Prazer em conhecer sua página, acabo de chegar a essa esfera dos blogueiros cinéfilos, vou te adicionar ao meu BlogRoll ok?

Pois é, de repente um filme Austriaco resolve chamar atenção, e até levar o prêmio máximo, não? Ainda não vi, mais o farei em breve! Abraço!

Elton Telles disse...

Bruno, vale a pena conferir o filme. Pra ser sincero, quando vi também que se passava durante a Segunda Guerra Mundial e tal, me embuí de preconceitos prévios e desanimei. Mas depois quebrei a cara: filmão! Depois passe aqui e diga o que achou. ;)

Valeu pelo carinho, Chico. Muito bom saber que sempre posso contar contigo.

Olá Jack!
Seu blog tbm já está na minha lista lateral. Valeu pelo apoio!

Cristiano Contreiras disse...

Interessante o foco do filme, confesso que deixei ele passar e não assistir, ainda.

Bela construçao da resenha, focou bem e captou a essencia da obra, creio eu!

abs

Reinaldo Glioche disse...

Realmente esse filme é muito bom. É um prisma diferenciado da relação entre judeus e a segunda guerra mundial. Boa pedida.boa critica.
ABS

Elton Telles disse...

Valeu, Cristiano.

Pois é, Reinaldo. Eu até quando o aluguei, estava um pouco receoso de bater na mesma tecla dos filmes que se passam no Holocausto, mas a visão é mesmo diferente. E vale a pena!
Valeu ae, abraço!