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21 de jan de 2010

Férias Frustradas de Verão


É impossível tentar compreender como funciona a distribuição de filmes no Brasil. Em meados do ano passado, o elogiado “Guerra ao Terror” foi lançado diretamente em DVD e chegou timidamente às video locadoras, sem criar alardes. Foi necessário faturar dezenas de prêmios e ser considerado um dos favoritos ao próximo Oscar para que a distribuidora Imagem Filmes voltasse atrás e decidisse lançar o filme de Kathryn Bigelow nos cinemas brasileiros – estreia marcada para 05 de fevereiro. É um assunto revoltante que dá caldo para muita discussão. Infelizmente, isso não se repetirá com o excelente “Férias Frustradas de Verão”, já que a bilheteria nos Estados Unidos foi modesta e o filme foi esquecido nas premiações (talvez por preconceito. Mas divago. Aliás, desde quando prêmios validam a qualidade de um filme?). Assim, o segundo trabalho de Greg Mottola – o primeiro foi “Superbad” –, no máximo, vai ocupar um lugar na estante das video locadoras. Mas não deixe que essa decisão golpista da Warner iluda os espectadores de que o filme não tem qualidades, pelo contrário, trata-se de um ótimo exemplar que soube equilibrar a comédia com os problemas internos de seu protagonista, desde a autodescoberta até a vida amorosa.

A tradução do filme no Brasil não é tão gritante, mas pode expelir algumas pessoas pelo título remeter àquelas comédias pastelão protagonizadas por Chevy Chase. “Férias Frustradas de Verão” é ambientado no verão de 1987, época em que James (Eisenberg) pretende viajar para a Europa com um futuro amigo de faculdade. No entanto, seus planos vão por água abaixo quando descobre que o incentivo financeiro que receberia dos pais lhe é negado, pois seu pai teve o cargo rebaixado na empresa em que trabalha. Para conseguir o dinheiro restante, James decide arrumar um emprego temporário. Ele é aceito como ajudante no parque de diversões Adventureland, onde conhece futuros amigos e Emily (Stewart), uma garota por quem logo se descobre estar apaixonado.

Greg Mottola já havia feito um retrato fiel e perfeito dos adolescentes no clássico “Superbad”. Aqui, ele retorna para a emblemática década de 1980 para contar a história de seu protagonista. Não haveria problemas se o filme tivesse sido ambientado nos anos 2000, mas Mottola escolhe justamente aqueles tempos, além de ser uma das mais divertidas, para fazer algumas críticas válidas ao sistema que corrompia a juventude da época. Um dos temas mais abordados é justamente o conservadorismo e a rigidez dos pais ligados à religião, algo que freia e sufoca a liberdade de jovens em busca de prazer e da autodescoberta. Sem contar na sobreposição do machismo, que nem as mulheres estavam ilesas a serem engolidas por essa ideologia estúpida (“Não acredito que você a defende!/ Por que homens podem ser estúpidos e mulheres não podem?”). Mas, o diretor/roteirista não se prende a esses conceitos e cria uma história recheada de momentos suficientemente divertidos e engraçados, cujo ponto forte se encontra nos diálogos inspirados (“Pagamos 10 centavos por dia às crianças da Malásia para fazerem brinquedos, não podemos simplesmente dá-los por aí”).


Quanto ao elenco, Jesse Eisenberg revela um ótimo timing cômico na construção do personagem central e merece créditos por não soar pretensioso nas cenas em que a comédia exige mais de seu personagem, como o momento do filme em que envolve uma piscina. Em contrapartida, Kristen Stewart tem seus bons momentos, mas demonstra ainda estar presa à Bella, personagem que interpreta na saga “Crepúsculo”, ao fazer os mesmos movimentos repetitivos tão frequentes daquela figura – boca entreaberta, mexendo nos cabelos compulsivamente, o tique irritante de morder os lábios, cruzar os braços e olhar para os lados para se certificar de que ninguém a está observando etc. O elenco secundário também reserva boas gags, desde o comediante Bill Hader, do Saturday Night Live, até o carisma irresistível da atriz Margarita Levieva, todos colaboram para tornar o filme uma experiência agradável.

Com uma trilha sonora espetacular que inclui The Velvet Underground, The Replacements e David Bowie, “Férias Frustradas de Verão” é um filme delicioso e nostálgico. Ressuscita a “golden age” das comédias teens, que não tinham receio de flertarem com o politicamente incorreto, como “Curtindo a Vida Adoidado” ou “O Balconista”. Porém, mais do que entretenimento, enquanto “Superbad” cria uma ótima história de amizade e companheirismo, “Férias Frustradas...” é um belo e tocante retrato do perdão. Parodiando o personagem de John C. Reilly em “Magnólia”, perdoar é uma das coisas mais difícil que um ser humano pode fazer. Assim, a alternância de cenas que primam pela comédia mais desbocada com outras cujo cerne busca a compreensão dos erros alheios pode até representar um avanço das “comédias românticas adolescentes” atuais. Se é que posso categorizar este filme nesse (sub)gênero.


NOTA: 8,5


FÉRIAS FRUSTRADAS DE VERÃO (Adventureland). EUA, 2009
Direçao e Roteiro: Greg Mottola
Elenco: Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Bill Hader, Ryan Reynolds e Martin Starr

8 comentários:

Cleber Eldridge disse...

Acabo também de visar essa obra pessoal do diretor, e achei tão simples e descartavel!

Kaio disse...

vou ver se baixo algum dia,mas vejo muita gente reclamando do filme porque esperava uma comédia como Superbad,mas o longa foca mais no drama.ao menos já sei o que esperar do filme o/

Francisco Brito disse...

Parabéns pelo texto,Tom...em breve devo estar conferindo esse filme,já q gostei de "Superbad",uma obra q poderia ser insuportavelmente chata e babaca,caso não contasse com uma sincera história de amizade no meio das patacoadas dos dois...rsrsrs

Sucesso ae no blog!

Elton Telles disse...

Poxa, Cleber, merece mais uma reassistida, hein =p

Kaio, bem como tu disse, o filme é mais sensível, maduro e não tão desbocado e focado na comédia como o filme anterior de Mottola. Não assista ao filme esperando uma comédia estilo "Superbad" que tu irá se decepcionar mesmo.

Valeu, Chico! Acho que o que torna o Mottola tão eficiente na conduçao das comédias é justamente esse diferencial e o comprometimento com a realidade que ele tem. Enquanto tantos outros filmes do tema caem no superficial e nas "frases-prontas", ele tem uma certa fidelidade com o que realmente acontece com um adolescente virgem etc. "American Pie" é bobagem... Tá aí um bom pretendente a substituir o grande John Hughes!

abraço!

Reinaldo Glioche disse...

O filme é muito bom e sensível. Não é uma obra- prima como não oé Superbad, mas ganha destaque pela ótima trilha(como vc bem assinalou) e por um elenco cativante.

bruno knott disse...

achei um belo filme, ótimo exemplo de comédia feita com um pouco de inteligência e bastante feelin!

como você falou, a trilha sonora é fantástica.

ps: adicionei vocês tb no blog! abs

Cristiano Contreiras disse...

Curioso, mas a Kirsten sempre atua assim - muito antes da saga Crepusculana, rs

Já viu ela no O QUARTO DO PANICO como filha da Jodie Foster?

abraço e parabéns pelo blog, serei seguidor e linkarei ao meu espaço!

Elton Telles disse...

Pois é, Reinaldo. Comparado com "Superbad", o filme fica mesmo devedor, mas ainda assim é uma ótima pedida.

Valeu, Bruno!

Cristiano, ficou basicamente uma marca registrada esses tiques da Kristen Stewart, né? Até mesmo em "Na Natureza Selvagem", do Sean Penn, ela repete todos esses maneirismos rs. Se ela usa esses tiques como muletas de atuação, alguém tem que avisá-la que isso cansa e não colabora em nada, ainda mais para uma atriz tão jovem como ela. =D. Valeu, abraço!