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16 de fev de 2011

Bravura Indômita


É inegável que os irmãos Joel e Ethan Coen sustentam uma das filmografias mais prolíficas do cinema contemporâneo. Fiéis a um estilo próprio que patentearam ao longo dos anos, é admirável a hábil transição de gêneros com que a dupla vem construindo sua carreira, sem deixar, no entanto, de empregar uma visão particular aos universos que concebem, geralmente sustentados por peculiaridades que fogem do padrão tradicional. É igualmente interessante e curioso o prestígio e respeito conquistado não apenas entre grande parcela da crítica, mas também a aprovação do público, que de uns anos para cá, se mostrou interessado pelos filmes “subversivos” dos irmãos, promovendo-os a absolutos sucessos de bilheteria. Após o merecido Oscar por “Onde os Fracos Não Têm Vez”, os Coen ganharam popularidade, e isso é comprovado pelo faturamento comercial da comédia lançada em 2008, “Queime Depois de Ler” – 60 milhões – e de seu mais novo trabalho, o remake da obra homônima de 69, “Bravura Indômita”. O retorno positivo deste último não representa um grande evento, mas é marcante se considerarmos que o novo filme da dupla foi vendido como um congênere do “faroeste clássico”. E convenhamos que para um gênero relegado no cinema recente atrair um significativo número de espectadores, que, ao todo contabiliza aproximados US$ 163 milhões somente nos Estados Unidos - a maior arrecadação dos 27 anos que estão em atividade – é um acontecimento e tanto.

Mas se por um lado fico contente com o reconhecimento, por outro, é impossível esconder o desapontamento por saber que o ápice da carreira dos Coen vem a ser com um dos exemplares mais inexpressivos do repertório artístico dos irmãos. Despindo-se da austeridade que caracteriza alguns de seus trabalhos mais memoráveis e exibindo baixo teor de ousadia em um enredo que casaria perfeitamente com uma típica abordagem incrédula, os diretores se resguardam ao optar por um tratamento convencional à trama. Essa escolha não significa exatamente um demérito, mas, da mesma forma, limita o desenvolvimento de alinhar a belíssima forma ao conteúdo pasteurizado.

Escrito pelos próprios, baseado no livro de Charles Portis, “Bravura Indômita” conta a história da destemida Mattie Ross (Steinfeld), uma garota de 14 anos que contrata o agente mais perigoso de Fort Smith, o beberrão Rooster Cogburn (Bridges), para encontrarem o covarde Tom Chaney (Brolin), autor do assassinato a sangue frio do pai da menina. Em meio à região montanhosa de Arkansas durante o inverno cortante, os dois partem à procura do criminoso, contando também com a colaboração do Texas Ranger LaBoeuf (Damon), que está atrás de Chaney há meses, de olho em uma recompensa gorda oferecida pelo Estado.

Em entrevistas para promover o filme, os Irmãos Coen disseram que o filme está mais para uma releitura da obra de Portis do que, essencialmente, um remake do faroeste protagonizado por John Wayne – que lhe rendeu um Oscar de Melhor Ator, com pinta de Honorário. No entanto, as comparações entre ambos são inevitáveis. Enquanto a produção de Henry Hathaway converte a história da garota em busca de justiça – ou vingança – em uma aventura com direito a cavalgadas intermináveis e uma trilha sonora empolgante – composta pelo gênio Elmer Bernstein –, a versão dos Coen se debruça em um drama com clima mais sombrio, reflexivo, com ritmo linear e diálogos mais bem elaborados. Infinitamente mais maduro e profundo do que o filme de 69, “Bravura Indômita”, contudo, substitui a mastigação pedante do original por uma verborragia desnecessária, denotando o oportunismo dos roteiristas em encaixar certas informações requeridas pela obra literária em qualquer “buraco” do script, como o momento em que Cogburn conta o episódio em que roubou um banco à Mattie em pleno posicionamento de ataque sobre uma colina. Isso sem mencionar as desavenças entre o federal e LaBoeuf forçadas pelo roteiro, cuja única clara intenção é afastar o personagem de Damon para que o mesmo retorne, cenas depois, em um momento de perigo em que os protagonistas necessitam de ajuda.



Beneficiado por um elenco homogeneamente eficaz, Jeff Bridges faz o possível para não se render completamente à caricatura natural de seu personagem embrutecido, e é bem sucedido nesse quesito, embora soe invariavelmente prosaico em algumas situações. O ator acerta nas soluções encontradas para rodear os estereótipos que sua figura carrega sem render integralmente a eles. Enquanto isso, Matt Damon empresta o sotaque texano para compor o sensível policial que, a princípio, se apresenta como uma barreira para a captura do bandido, mas logo se revela um verdadeiro cúmplice para a missão dos protagonistas. Indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante quando, na verdade, é a grande protagonista da história, Hailee Steinfeld estreia no cinema exibindo segurança em um papel dramático que exige habilidade da intérprete, e a novata de 14 anos se sai admiravelmente bem na composição de Mattie, alternando com naturalidade a teimosia e persistência de lutar com a fragilidade e insegurança típicas de uma garota tão nova, vinda do campo. E se Josh Brolin nada faz aqui, devo destacar a curta, porém excelente aparição do irreconhecível Barry Pepper como o fora-da-lei Lucky Ned Pepper, que para um bandido temido se revela um homem atencioso para ouvir os relatos da jovem.

Aliás, a tridimensionalidade dos personagens é um dos pontos positivos do roteiro de “Bravura Indômita”. Se muitos espectadores ficarão insatisfeitos pela ausência de cenas aventureiras e de combate – que para um filme que se vende “faroeste”, é mesmo um chute no saco –, ao menos, não podem reclamar do desenvolvimento pessoal de cada personagem, que apoiados em boas atuações, se mostram não apenas figuras representadas, mas seres humanos afundados em sua complexidade.

Emoldurado em uma fotografia magnífica concebida pelo veterano Roger Deakins – parceiro habitual da dupla – e embelezado pela trilha sonora pura e nostálgica do ótimo Carter Burwell, “Bravura Indômita” ganha pontos por retratar uma narrativa ultrapassada com lucidez, mas é sacrificado pela monotonia excessiva e perde o tom devido ao conformismo desestimulante da direção. Alguns ainda teimam em identificar certas “marcas registradas” dos irmãos cineastas no filme, mas, pra mim, precisa muito mais do que um indígena enforcado na árvore sem motivo aparente ou um homem vestindo couro de urso para me convencer de que este é um Coen autêntico.


NOTA: 6,0


BRAVURA INDÔMITA (True Grit) EUA, 2010
Direção e Roteiro: Joel e Ethan Coen
Elenco: Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon, Josh Brolin e Barry Pepper

14 comentários:

cleber eldridge disse...

E você realmente não curtiu muito. Quando vi o trailer pensei que iria ser só mais um filme. ENGANO MEU; Achei o filme fantástico, realmente com a mãos dos Coen, um roteiro e um elenco exepcionais! Um dos melhores filmes do ano!

Hugo disse...

Preciso conferir para opinar.

Abraço

Victor Nassar disse...

Wow! Agora me surpreendeu! Apesar de ter minhas ressalvas com os Coen, andava com expectativa para esse. Mas sua crítica colocou o pé no chão de novo. Veremos!

pseudo-autor disse...

Apesar de meu favorito dos Coen ainda ser Barton Fink, gostei bastante e acho que a dupla foi feliz em trazer á tona de volta o faroeste, gênero desacreditado em Hollywood.

cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

Rodrigo Mendes disse...

Ótima matéria e crítica Elton. Respeito a sua nota 6,0 Rs!

Eu ainda não assisti o filme, mas estou muito entusiasmado e certamente irei apreciar porque desde moleque sou apaixonado pelo lírico gênero do faroeste.

Imagino o filme dos Coen que também sou fã, pegando a obra de John Wayne e sendo fiéis principalmente ao livro de Portis.

Louco para esta sessão!!

Abs.
Rodrigo

Amanda Aouad disse...

Eu gostei bastante do resultado, acabei de voltar da segunda sessão, inclusive e concordo que é infinitamente mais profundo que o filme de 69, até por isso, acho que você foi um pouco duro com os Coen ao dizer que eles não ousam nesse filme. Eles pegam um ícone do cinema americano e desconstroem, ao mesmo tempo que trazem o gênero ao topo novamente. Agora, como toda adaptação (do livro) eles têm que se ater a história original.

bjs

Kamila disse...

Não sou a maior fã de westerns e acho que isso comprometeu a minha visão do filme. A obra me ganhou mesmo a partir do terceiro - e final - ato. Achei de uma sensibilidade e beleza. Espero que Hailee Steinfeld e Roger Deakins ganhem seus merecidos Oscars em breve.

Reinaldo Glioche disse...

Pois é Elton, sem querer parecer presunçoso, mas admitindo que já estou parecendo, me arrisco a opinar que sua -se é que podemos chamar assim - decepção com o novo filme dos Coen, mais tem a ver com o peso das expectativas do que com o qualidade do resultado apresentado.
Quanto ao padrão Coen, uma antiga queixa da crítica e de alguns fiéis seguidores do cinema da dupla é que, quando debruçados sobre um material não original, os Coen perdem um pouco de sua verve. (Matadores de velhinhas, Onde os fracos não têm vez e esse Bravura indômita são exemplos).
Eu discordo. Trata-se de uma adaptação e os Coen precisam moldar o material a eles ou vice versa.
Indagados sobre o porque de Bravura indômita ser tão "diferente" dentro de sua filmografia, disseram que o livro de Portis já era suficiente. Eu concordo. Como pontuei em minha crítica, Portis aguardava ser adaptado pelos Coen. Trata-se de um filme mais ambíguo (como os Coen), mais soturno (como os Coen), com rompantes de violência (como os Coen, as vezes) e um humor um tanto refratário (basta lembrar o último filme da dupla né?).
No mais, eles queriam fazer um western, não desconstrui-lo como em Onde os fracos não têm vez. Concordo que não é o mais vistoso da dupla. Longe disso. Mas, na minha avaliação, passa longe de ser uma decepção na galeria de filmes. Dos Coen e do Oscar 2011.
Aquele abraço!

Flávio disse...

Tom, também não achei o filme grandes coisas. Pra mim, Jeff Bridges roubou a indicação do Duvall , muito mais merecedor.

Kahlil Affonso disse...

fantástico! jeff bridges dá um show... muito engraçado!

http://filme-do-dia.blogspot.com/

Cristiano Contreiras disse...

Eu confesso que gostei bem mais do filme, demorei pra ver e foi o último dos concorrentes ao Oscar de filme que verifiquei. Mas, discordo muito de ti. Acho a direção segura, emocional, não vejo nenhuma 'monotonia' como você pontuou, bem verdade tem seus momentos mais lentos, mas é uma narrativa que vai de acordo com o clima e com as ações de seus personagens. Nem todo filme lento é sinônimo de algo tedioso...

Steinfeld é uma atriz excepcional, gostei muito dela e acho que sua atuação merece mais Oscar que a preferida Melissa Leo, mas a verdade é que sua personagem é mesmo atriz principal, né? vai entender a Academia.

No mais, eu dou nota 8 a esse filme, ainda que dos concorrentes ao Oscar, não seja imbatível como Cisne Negro ou A Origem, nem muito menos instigante como 127 Horas, mas ele tem seu valor sim. Você pegou pesado com esse...mas, respeito. Melhor nem falar de Inverno da Alma, né? rs

Abraço

Otavio Almeida disse...

FILMAÇO, meu caro! Ao lado de "Cisne Negro", não houve nada tão bom neste começo de ano. E é um dos melhores filmes dos Irmãos Coen. E sim, é um filme legítimo dos cineastas. Eles apenas encontraram o material perfeito para agradar o público e a si próprios ao mesmo tempo. E funciona que é uma maravilha. Divertido demais. Cinema completo como arte e entretenimento. Abs!

Mayara Bastos disse...

Até entendo seu ponto de vista. E por não conhecer nada da obra, que deve ter colaborado por ter gostado bastante do filme, especialmente de Hailee Steinfeld e do trabalho fotográfico.

Beijos! ;)

Anderson Siqueira disse...

Gostei bastante. Simples e sedutor. De volta os western.
Ah! Estou concorrendo a ingressar na Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos. Dê uma visitada no meu blog e se achar bacana (conteúdo e layout)... Quero vir a somar.
Abraço.
=]