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9 de jan de 2011

O Concerto


Andrey Filipov (Guskov) era o renomado maestro da ostentosa orquestra do Bolshoi, na Rússia, durante a década de 70. Mas após contratar judeus para integrar o corpo de músicos, o então diretor do teatro, Ivan Gavrilov (Barinov), membro fiel do Partido Comunista, demitiu o talentoso regente, que fora relegado ao ostracismo. Nos dias de hoje, Filipov continua empregado no Teatro do Bolshoi, mas como faxineiro, e durante a limpeza do escritório do atual diretor, é enviado um fax direto do Teatro de Châtelet, em Paris, convidando o Bolshoi para substituírem a Filarmônica de Los Angeles, que cancelou uma apresentação de última hora. O ex-maestro, aspirando seu retorno aos palcos, imprime uma cópia, apaga a mensagem da máquina e sai pelas ruas de Moscou atrás de um representante, patrocinadores e recrutando seus antigos amigos músicos, que após o golpe político, ocupam funções aquém de seus dotes musicais, como motorista de ambulância, carteiro, entregador, vendedores ambulantes etc.

Pela breve sinopse descrita no parágrafo acima, alguns devem ter pensado que “O Concerto” talvez possa ser mais uma daquelas típicas comédias européias satisfatórias, com diálogos ágeis, que assumem o ponto forte da produção, cujo desenvolvimento da história, recheado de situações absurdas e engraçadas, esteja acima da conclusão simplificada da trama. Bom... antes fosse. Escrito a seis mãos, o novo trabalho do diretor Radu Mihaileanu, um dos mais importantes por ter evidenciado o cinema romeno para o mundo com o belo “Trem da Vida” – que serviu de inspiração para o intragável italiano “A Vida é Bela”, de Roberto Benigni –, peca gravemente por querer se passar por um filme com intenções artísticas quando, na verdade, seu roteiro totalmente irreal e ilógico – o que não representa integralmente um demérito – exige que seu tratamento seja menos formal, e sim, mais leve e modesto.

A falta de identidade em “O Concerto” é gritante, isso porque o filme permanece em cima do muro durante os dois primeiros atos, tentando posteriormente se camuflar sobre um drama batido sobre reencontro de familiares que não se viam há anos. A falta de inspiração e entusiasmo nas cenas mais cômicas e o drama nada original resultam em um filme que parece ter dificuldades em estabelecer uma personalidade ou, ainda mais urgente, definir-se em um gênero específico. Mihaileanu está completamente perdido diante da inconstância natural do roteiro, que investe em alguns momentos realmente engraçados, mas que acabam sendo enforcados pelo diretor, que opta por tratamentos, em sua maioria, inadequados a determinadas cenas. Da mesma forma, o ótimo trabalho de montagem de Ludo Troch oferece ritmo, mas não suficiente para amarrar a história volúvel e oscilante.


O principal motivo pelo qual “O Concerto” implorava por uma abordagem mais despretensiosa se dá pela inverossimilhança de seu roteiro. Afinal, os roteiristas e o diretor realmente acreditavam que seria possível convidar 55 músicos despreparados para compor uma orquestra em 15 dias e tocarem Tchaikovsky? Acreditavam que um maestro enferrujado, que não praticava há 30 anos, pudesse reger um grupo de músicos que nunca ensaiaram juntos uma única vez? Enfim, esses são alguns dos absurdos que, com um tratamento diferenciado, poderia render uma bela comédia pastelão autoral, ou algo do tipo. No entanto, o único motivo que me faz acreditar que os votantes do Globo de Ouro incluíram este filme na categoria Melhor Filme Estrangeiro é pela sua cena final, a cena chave do filme, compensada por uma edição apuradíssima, que alterna flashbacks e flashforwards que finalizam a história – e acaba tapando alguns buracos caso o filme acabasse por ali mesmo.

Com exceção de alguns atores secundários, o filme ainda é enfraquecido pelo ator russo Alexeï Guskov, que não exibe carisma algum como o protagonista da história, mas nada fica devendo à colega de elenco, a francesa Mélanie Laurent, que talvez eu seja o único que não tenha visto absolutamente nada de especial nela em “Bastardos Inglórios” – a não ser sua ótima personagem, que, infelizmente, caiu nas mãos de uma atriz bem fraca. Infelizmente, “O Concerto” é um filme concebido de forma equivocada, que, ao fim da apresentação, a audiência percebe que se trata de uma sinfonia sem harmonia e não espera a hora para que as cortinas finalmente se fechem.


NOTA: 4,5


O CONCERTO (Le Concert) França, 2009
Direção: Radu Mihaileanu
Roteiro: Radu Mihaileanu, Matthew Robbins e Alain-Michel Blanc
Elenco: Alexeï Guskov, Dmitri Nazarov, Mélanie Laurent, Valeriy Barinov e Miou-Miou

7 comentários:

Paula Mariá disse...

Jura? Eu tinha achado a sinopse tão bonita. Vou te adicionar aqui, Elton :)

Reinaldo Glioche disse...

Pois é. A crítica internacional tem sido bem reticente com este filme. Partindo da sua crítica, aliás, a indicação ao globo de ouro de melhor filme estrangeiro é mesmo injustificável. Eu não conferi e, francamente, estou sem pressa para fazê-lo. Quanto a Mélanie Laurent, preciso dizer, que estou contigo. Ela se mostrou uma atriz compente. Sem mais. A personagem é que era fora de série. Ainda tem muita gente que confunde...
abs

Pedro Tavares disse...

Que filme perdido, não é, Elton? Acho que o diretor vai direto no extremo de gêneros opostos, talvez seja o grande tropeço do filme.
Pós Première adicionado ao Blogroll do Cinema O Rama. Abs!

Mayara Bastos disse...

Não ouvia falar do filme antes da indicação ao Globo de Ouro. Veria pela Mélanie. Sobre ela, aconselho um pequeno filme chamado "Não Se Preocupe, Estou Bem". Ela está ótima nele!

Beijos! ;)

Rodrigo Mendes disse...

Não conferi ainda Elton, estou para vê-lo no Belas Artes antes de fechar =//.

Excelente texto! Eu levei um susto com a sua crítica e nota porque estava achando que o filme seria interessante.

E cá entre nós, eu também tenho uma raiva cinéfila de A Vida É Bela de Benigni.

Abs.
Rodrigo

Elton Telles disse...

Oi PAULA! Obrigado aí pela visita e parabéns pelo seu blog! A sinopse de "O Concerto" engana mesmo, parece ser bom mesmo, mas o filme se perde e não entrega nem um drama consistente, muito menos uma comédia engraçada. É um filme desanimado que só vale pela sua cena final.


REINALDO: as indicações do Globo de Ouro deste ano foram mesmo muito preguiçosas e a presença de "O Concerto" em Filme Estrangeiro, relevando a quantidade de filmes bárbaros que estrearam nos EUA e são de fora, é mais que uma prova; é uma constatação. Yeah! Fico feliz quanto à Laurent, pensei que estava sozinho nessa hehehe.


PEDRO: além do filme, o espectador também fica perdido com a bagunça que presencia. "O Concerto" não decide aonde investir e que tom deseja dar à história e o diretor perde a mão e entrega um trabalho bem insatisfatório para a sua capacidade.


MAYARA: já vi "Não Se Preocupe, Estou Bem" dando sopa na locadora. Já está anotado. Não quero parecer injusto com Laurent, acho linda e tem presença em cena, só não vejo nada de tão talentoso em seus trabalhos como a maioria =)


RODRIGO: sinto muito pelo Belas Artes, mas depois assista outro que possa ser melhor, não se despeça desse espaço sensacional com um filme tão podre hehehe. Também achava que seria um filme, ao menos, engraçado, mas me decepcionei... não tanto quanto esse troço italiano de "A Vida é Bela" hahaha, fujo para as montanhas para não ter que ver esse ultraje novamente xD


ABRAÇOS A TODOS!

Anônimo disse...

Pois é. Mas o filme é bom. talvez voces estejam se confundindo e estejam irritados porque o filme, que é excelente é também anticomunista. Anticomunista. E ponto final. Excelente, adorei