Pages

27 de jan de 2011

Eu Matei Minha Mãe


Durante a aula de francês, a professora Julie (Clément) propõe um trabalho aos alunos para ser feito em grupo: entrevistar um dos pais e colher dados referentes aos seu emprego e condições trabalhistas, com o intuito de levantar estatísticas sobre a profissão que seus responsáveis exercem. Ao receber a folha de tarefas, Hubert (Dolan) se dirige à professora e pergunta se poderia fazer o exercício baseado em sua tia, justificando que não encontra o pai com frequência – o que é uma verdade – e, para evitar mais um diálogo indesejado com a matriarca histérica com quem divide o mesmo teto, ele inventa que sua mãe está morta. Daí a denominação “Eu Matei Minha Mãe”, que muitos espectadores devem ter ficado hesitantes com a rispidez e crueldade do título, mas na verdade o filme é um drama familiar com pitadas de humor que se sustenta no confronto diário envolvendo a desvairada Chantale (Dorval) e seu filho adolescente mimado e aspirante a artista. Trata-se de um relacionamento difícil entre a mãe impaciente e descontrolada e o garoto de 16 anos, que já se enerva só por examinar os movimentos da boca da mãe e seus desleixos de etiqueta enquanto esta saboreia um pão com manteiga logo pela manhã – imaginem o que acontece quando ela termina a refeição. No entanto, sem querer defender a figura materna, que não bate mesmo bem da cabeça, acho que seria perfeitamente compreensível se o filme se chamasse “Quero Matar Meu Filho”, porque o jovem não fica em débito com a mãe quando o assunto é estupidez. E o que resta a fazer o espectador diante de um filme protagonizado por duas figuras estritamente insuportáveis, que trocam farpas apenas para na cena seguinte se reconciliarem e depois se ofenderem gratuitamente?

“Eu Matei Minha Mãe” segue basicamente esse esquema monótono e previsível, e as poucas subtramas – se é que posso chamar assim – são inclusas apenas para ressaltar o sentimento de deslocação do protagonista naquele ambiente e os personagens coadjuvantes são usados para confortar suas angústias de viver com uma mãe que ele adora odiar. Aí entram a sua professora, que se transforma em uma conselheira, pois também alimentava divergências com o pai; seu namorado Antonin (Arnaud), que pode até ser considerado uma distração para Hubert, já que o interesse amoroso que o rapaz sente pelo protagonista não é recíproco; e, por fim, a sua “sogra”, uma mulher liberal e despojada, que permite o filho fazer sexo de porta aberta seguido de um cigarrinho de artista, inclusa na história apenas para estabelecer um contraponto frouxo com a mãe “morta” do título. No entanto, apesar da superficialidade do roteiro, há elementos que merecem ser destacados como a questão da homossexualidade, que poderia ser mais um assunto para gerar embate entre eles, mas é encarado de forma singela na trama, como um atestado de confiança que sentem um pelo o outro – mas convenhamos que tem que se esforçar para não desconfiar de nada, vendo a parede do quarto do filho estampada com fotos de James Dean, River Phoenix logo acima da cama e um pôster de “Titanic”.

Escrito, dirigido e produzido pelo canadense Xavier Dolan, o rapaz de apenas 20 anos também assina os créditos de figurinista de “Eu Matei Minha Mãe”, sua (elogiada) estreia nos cinemas, que lhe rendeu três prêmios no Festival de Cannes em 2009 e dezenas de outras honrarias em festivais menores. É curioso por um lado porque percebemos que o filme é beneficiado com um fôlego mais jovial, tem uma pegada firme que oscila alguns momentos videoclípticos até aceitáveis, porém é muita pompa e pouco conteúdo. Este é um ótimo representante do “cinema-frescura”, daqueles que mais se preocupam em como dizer, mas não dizem absolutamente nada. Com a pretensão óbvia e desesperada de se esquivar das concepções convencionais, como diretor, Dolan se limita na própria linguagem frenética e, ao mesmo tempo, contemplativa que emprega à sua história, reciclando os mesmos clichés das famílias desestruturadas, e apenas recontando-os de uma maneira diferente. Algumas opções se revelam interessantes, como o close em objetos que compõem o cenário que os personagens estarão inseridos na próxima cena, mas a (falta de) noção de espaço e os enquadramentos supérfluos e milimetricamente calculados acabam distraindo em vez de ajudar o espectador a adentrar o clima “pesado” do filme.



A despeito do overacting, Dolan se sai correto na composição de seu personagem ingrato – que o próprio criou, devo ressaltar –, ao passo que a ótima Anne Dorval rende alguns momentos inesquecíveis, positivamente – quando conversa com o diretor de um colégio por telefone – e negativamente, como na cena em que invade aos berros a escola do filho para tirar satisfações com o garoto, o que me fez virar a cara de vergonha em perceber ao absurdo que o roteiro apela para comprarmos a ideia de que Hubert tem mesmo motivos para odiar a sua mãe. Ai, ai. Porém, apesar das brigas intermináveis, compreendemos pelas cenas de reconciliação que esses dois loucos escondem um amor mútuo, só que não fazem questão de mostrar.

Com mais dois filmes engatados graças ao sucesso de “Eu Matei Minha Mãe” – que Dolan declarou ser semi-autobiográfico –, o diretor ainda tem que confirmar a que veio e talvez sair da zona de conforto, senão vai acabar como um Louis Garrel da vida. O que, sinceramente, eu acho que é a sua intenção.


NOTA: 5,0


EU MATEI MINHA MÃE (J’ai Tué ma Mère) Canadá, 2009
Direção e Roteiro: Xavier Dolan
Elenco: Xavier Dolan, Anne Dorval, François Arnaud, Suzanne Clément e Patrícia Tuslane

7 comentários:

Cristiano Contreiras disse...

Interessante que eu só tinha lido boas recomendações deste filme, em sites e diversos blogs. Mas, seu texto mostra o quão descartável ele pode ser e como o roteiro tende a ser limitado...

Mas, vou conferir o filme e ver se é assim!

Sua nota não anima, rs!

abraço

Rodrigo Mendes disse...

Eu gosto do Luis Garrel. Rs!
Gostei de sua sugestão quanto ao título. “Quero Matar Meu Filho" soa melhor. Rs

Achei o filme interessante, vou tratar de procurar este no Torrent da vida. Gosto de produções feitas no Canadá (já viu CRAZY com Grondin?). Bom pela sua nota deve nem se comparar, mas também nao posso avaliar sem dar uma boa assistida. Gostei de muitas passagens do filme que você descreveu.

Valeu pela dica. Abração!!
Rodrigo

Kahlil Affonso disse...

deve ser bom!

http://filme-do-dia.blogspot.com/

Wally disse...

Esse teve opiniões divididas mesmo. Conheço alguns que amaram. Mas o que eu quero ver mesmo é o outro do Dolan, Amores Imaginários.

Rodrigo Mendes disse...

Oi Elton! Volto aqui pra te dizer que eu assisti ao filme.

Eu achei apenas bom. Gostei mais do que você. Ok, o filme é mesmo uma soup opera no cinema e não gostei da excessiva fotografia escura em muitas cenas. Tem clichês, mas também foge de alguns como a óbvia homossexualidade do garoto sendo tratada com naturalidade, sem drama. Mas as brigas entre mãe e filho, aqueles berros à francesa facilmente chegam a irritação! Mas enfim, era a proposta do roteiro.

Acho que Dolan tem futuro sim. Pra alguém com pouca idade ter três filmes como diretor não é pouca coisa. Certeza que o rapaz viu muito Woody Allen pra fazer aquelas cenas conversando com a câmera. Só acho cedo demais esta nova geração de artistas proclamarem a sua autobiografia. Dolan nasceu em 1989. Rs

***BOM filme. Apenas.

Abs!
Rodrigo

bruno knott disse...

De fato o título dá outra impressão em relação a vibe do filme... parece-me que o diretor quis se sobressair com afinco ao roteiro e que o overacting foi um tanto prejudicial.

Sei não viu, esse provavelmente vou deixar passar.

Só sei que ri pra caralho disso aqui: "mas convenhamos que tem que se esforçar para não desconfiar de nada, vendo a parede do quarto do filho estampada com fotos de James Dean, River Phoenix logo acima da cama e um pôster de “Titanic”."

Abs!

Elton Telles disse...

CRIS: o que me animou para conferir este filme foi justamente as boas recomendações de blogs vizinhos e o bom recebimento pela crítica. Mas foi bem decepcionante. Como vc diz, é limitadíssimo e as pretensões do jovem diretor (promissor, sei lá) só enchem linguiça, nada adiciona.

Não sei porque, mas estou com impressão de que vc ainda vai gostar, Cristiano... rs


RODRIGO: valeu pelo comeback, my friend! Vou matar seus 2 comentários aqui mesmo, ok?
Não desgosto do Louis Garrel. Não queria passar a impressão de que não gostava dele, sou apenas indiferente aos mesmos personagens que ele sempre interpreta e só muda de nome rs. Não me provou nada ainda como ator e talz, mas pode me surpreender =)
Gosto muito de "C.R.A.Z.Y.", acho um ótimo filme.
Berros à francesa hahaha, de fato, uma chatice!


KAHLIL: na boa? Nem é =)


WALLY: "Amores Imaginários" parece mesmo ser mais interessante. Ainda sem data de estreia no Brasil, nos resta esperar... =/


Hahahaha BRUNO, mas não é que a mãe só pode ser cega para deixar isso passar em branco e fazer cara de "ohhhhhhhhhhhhhhh, meu fiho é gay!" com todas aquelas evidências... enfim, nada contra. Viva a pluralidade! o/
rs.


ABRAÇOS A TODOS!