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18 de out de 2010

Tropa de Elite 2


Antes mesmo de estrear nos cinemas, há exatamente três anos, “Tropa de Elite” já havia atingido um alto índice de downloads não-autorizados na internet, além de ser a primeira opção na lista dos consumidores de DVDs piratas. Essa comercialização ilegal de cópias falsificadas poderia, ingenuamente, até ser considerada um golpe de marketing involuntário que perdeu o controle, já que tal episódio rendeu ainda mais visibilidade e transformou “Tropa de Elite” em um fenômeno de abrangência nacional. Em contrapartida, os produtores e envolvidos com o filme se saíram comercialmente prejudicados, pois embora o filme tenha ultrapassado a invejável marca dos 5 milhões de espectadores no “país da telenovela”, a clandestinidade converteu a obrigatória ida ao cinema em uma mera opção. Para evitar problemas semelhantes com a tão aguardada sequência, o diretor José Padilha, temeroso, decidiu não exibir a continuação sequer para os críticos profissionais, optando, inclusive, em não candidatar “Tropa de Elite 2” para disputar a concorrida vaga para ser o representante brasileiro no Oscar 2011 – e a distância deste filme para o selecionado, “Lula – O Filho do Brasil”, é abissal. Dessa forma, mesmo que não tenha repetido a repercussão antecessora dominante que o original teve em 2007, a popularidade do filme já reverbera Brasil afora, e as mais de 600 (!) cópias da continuação invadiu os cinemas para, além de contar mais uma história revoltante e super atual, levantar discussões polêmicas a respeito da atuação do sistema vigente em nosso país.

“Tropa de Elite 2”, na verdade, é uma explícita denúncia político-social travestida de filme. É um grito desesperado que branda por justiça e punidade de autoridades políticas que reverteram o conceito básico de corrupção, transformando-a em mais um tipo de patrimônio cultural no Brasil – e deve-se deixar claro que o filme não faz analogia com nenhum político específico, mas de todo um sistema operacional que trabalha “a favor” da “ordem e progresso” no nosso país. O primeiro filme da série focava na guerra diária entre os policiais pertencentes ao Batalhão de Operações Especiais (Bope) contra o tráfico de drogas que sustenta as favelas cariocas. Já essa vigorosa sequência, imbuída de coragem, retrata o engodo da desvirtuação de poder envolvendo a Polícia Militar do Rio de Janeiro e os políticos democraticamente eleitos daquele Estado. Levando em conta que a história ficcional não está muito distante da nossa realidade, o mais doloroso é perceber a cegueira crônica da população diante de tanta sujeira escondida debaixo do tapete.

Ao ser injustamente responsabilizado por uma operação fracassada no Bangu I, o Coronel Nascimento (Moura) acaba sendo exonerado do cargo por decisão do governador, já que a pressão sufocante da mídia em cima do fato obteve repercussão internacional – e já começam por aí as denúncias do filme. Anos mais tarde, o mesmo governador, respeitando a vontade da estúpida elite votante, que enxerga Nascimento como uma figura heróica, promove o ex-coronel a subsecretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro. Paralelamente, o roteiro conta a história de ascensão de PMs corruptos, que exterminam traficantes não para garantir segurança à população, mas por tomarem conta da favela e transformá-la em uma rentável fonte particular. A principal milícia é comandada pelo major Russo (Rocha), um homem sem escrúpulos, que mata companheiros pelas costas e rouba sem peso na consciência. Quando percebe que a máquina de matar que já capitaneou se tornara uma das peças para alimentar o sistema corrupto e desmoralizante, Nascimento declara guerra aos elementos da corja repressora. Sem negar seus princípios e apelar para o discurso dos direitos humanos, como o deputado Fraga (Santos), o ex-capitão busca meios igualitários para se defender: combatendo a violência com clamor de justiça - o que, claro, não exclui métodos violentos.

O multifacetado roteiro escrito por Bráulio Mantovani e pelo próprio Padilha exibe um inteligente painel sobre as interrelações de poder entre alguns complexos presentes na sociedade, principalmente a polícia, o poder manipulador exercido pela imprensa e, claro, a intervenção política para mediar essas corporações. Extremamente crítico e pessimista – ou seria realista? –, “Tropa de Elite 2” é brilhante nos desdobramentos de sua história naturalmente complexa, pois evita o didatismo e não permite que o espectador se perca diante dos vários núcleos e da grande quantidade de personagens reunidos na trama. Lançado a poucas semanas antes do segundo turno que vai decidir o futuro presidente do Brasil, o filme também se revela urgente e atual, pois pinta um desanimador retrato dos bastidores da política brasileira, onde um palhaço retardado ou um apresentador de TV com sangue nas mãos – papel do ótimo André Mattos – são eleitos com maior número de votos, fruto da popularidade e não das propostas apresentadas – o que não deixa de ser uma crítica à imbecilidade dos eleitores na hora de escolher os seus candidatos.


Com um discurso mais maduro não apenas na temática apresentada, mas também no desenvolvimento dos personagens, essa continuação praticamente leva o ex-capitão Nascimento ao seu limite como ser humano. Demitido, carregando uma acusação que não lhe é cabida, solitário e deprimido, o protagonista ainda divide o drama de perder o apoio de sua família desestruturada, principalmente o do seu filho adolescente interpretado pelo ator Pedro Van Held. Em um filme recheado de armadilhas e momentos tensos, é até um alívio se deparar com a bela cena em que o personagem central convida o filho para uma luta de karatê, e entre golpes e ataques, dialogam sobre questões que envolvem educação e a figura paterna. E dentre diversos motivos, mas por incluir uma passagem sensível e emocionante em meio a tiroteios incessantes, é que o sensacional roteiro da dupla, editado pelo extraordinário e sempre competente Daniel Rezende, faz de “Tropa de Elite 2” um filme mais prudente e amadurecido.

Entretanto, jamais o resultado seria tão vigoroso se não fosse pelo trabalho exemplar do diretor e co-roteirista José Padilha. Denunciando forte cunho social desde sua estreia nos cinemas com o fabuloso documentário “Ônibus 174”, que já acusava a indecência dos órgãos públicos supostamente construídos para ajudar a população, Padilha realiza um trabalho visceral na condução deste filme. O diretor já havia demonstrado talento em arquitetar eficientes cenas de ação no longa original, mas nessa sequência, vai de cenas mais irônicas – como o discurso feito por um dos crápulas do filme, com o microfone em uma mão e uma .38 na outra – passa pelo bizarro – quando os bandidos enterram o corpo de duas vítimas carbonizadas – até cenas mais tocantes como a descrita no parágrafo anterior, sem perder o foco denunciador principal do filme. Demonstrando total domínio sobre a narrativa, Padilha ainda concebe cenas memoráveis, de tirar o fôlego do espectador, deixá-lo mudo e ligeiramente inconformado com o que testemunha.

Se já não bastasse, o impecável elenco de rostos majoritariamente desconhecidos também é peça fundamental para o sucesso de “Tropa de Elite 2”. E se fosse para descrever as minúcias soberbas da atuação de cada integrante deste filme, espantaria qualquer leitor desse humilde blog, portanto vou me conter. Mas há de se ressaltar nomes como Sandro Rocha, André Ramiro – muito melhor que no primeiro –, Milhem Cortaz, a pequena e marcante participação de Seu Jorge, Maria Ribeiro, André Mattos, Tainá Muller, o desconcertante Irandhir Santos, em um papel à altura de seu talento e, claro, Wagner Moura, mais uma vez soberbo na pele do imortal Roberto Nascimento, personagem já tombado na cinematografia nacional.

Confesso que não é fácil digerir todas as informações de “Tropa de Elite 2”, mas o projeto é um belíssimo exercício de reflexão que não deve ser ignorado por nenhum brasileiro. Se ao término do primeiro filme, o espectador não tem como se esquivar da arma apontada contra a câmera e o efeito catártico da cena rapidamente aflora os sentimentos de desamparo e insegurança em quem assiste, o final dessa sequência não é lá muito diferente, já que é responsável por um terrível nó na garganta do espectador e, de brinde, acompanha a total desmotivação de apertar a tecla verde nas eleições do próxima dia 31.


NOTA: 9,5


TROPA DE ELITE 2 (Idem) Brasil, 2010
Direção: José Padilha
Roteiro: Bráulio Mantovani e José Padilha
Elenco: Wagner Moura, Irandhir Santos, Sandro Rocha, André Ramiro, Milhem Cortaz, e André Mattos

7 comentários:

cleber eldridge disse...

ELton, ficou com a maioria e achou o filme ótimo -, espero este nas locadoras, sem expectativa alguma, já que o primeiro filme, é simplesmente detestavel ao meu ponto de vista.

Clenio disse...

Concordo com quase tudo que vc escreveu. Realmente é um filme extraordinário, mas André Ramiro, Maria Ribeiro, Tainá Muller e Pedro Van Held são sofríveis.
Ainda bem que o roteiro é sensacional e Wagner Moura acima de qualquer crítica.

Abraços
Clênio
www.lennysmind.blogspot.com
www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com

alan raspante. disse...

espero ver o filme ainda esta semana. como falei no 'claquete': expectativas altissímas!

Reinaldo Glioche disse...

Olha Elton, eu achei sua crítica maravilhosa.Como de hábito. Mas conforme pontuei na minha crítica não vejo este filme como superior ao primeiro. Pelo contrário, entendo ser um filme mais oportunista (surfa na própria apoteose)e menos corajoso do que o original. O que Tropa de elite 2 mostra já é notório para quem quer que acompanhe o noticiário nacional. E a dramaturgia tanto brasileira quanto internacional já adentrou o tema,embora não com a mesma ênfase. O que não que dirzer que a denúncia, como vc bem define, não seja legítima e necessária. O filme é ótimo e merece o reconhecimento que já ostenta. Mas não acho que só porque ataca a banalização da política pelos políticos mereça a primazia.
Grande abraço!
Reinaldo

Karen Faccin disse...

Como já adiantava a música tema, Tropa de Elite me pegou! rs
E voce tambem - no bom sentido, por favor - seu texto está incrível!
Como você já havia adiantado, Tropa de Elite é um tapa na cara, um balde de água fria em todo o brasileiro que saiba que 2+2 é 4. É uma crítica político-social fortíssima, mas acessível a qualquer um. Por mais que seja doloroso, e mesmo nauseante, devemos reconhecer que, em tempo remotos, Tropa de Elite seria queimado com Padilha e seus adjacentes. É um filme pra se aplaudir!
Minha única crítica vai para o Wagner, que nao para de me ligar :x ahahahhahahahahahaha


beeeeeijo!

Sandro Azevedo disse...

Pulei todo o texto e fui direto na nota! 9,5? Impressionante!
Bom, fiz isso porque ainda não vi o filme! Pelo o que ando vendo, o filme é realmente muito bom, heim?
Assim que assistir volto aqui para ler o que vc achou!
Abração!

Sandro Azevedo
blog24fps.blogspot.com

Elton Telles disse...

Cleber, que resistência é essa, meu querido? rs. É um grande filme, ainda melhor do que o primeiro, mas talvez seja um estilo que nao agrade a todos. Ainda assim, muito bem realizado, com um roteiro inegavelmente inteligente e um trabalho técnico de deixar boquiaberto (que edição!)


Hahaha Clenio, tenho que concordar contigo. Não com todos os integrantes do elenco, mas o Pedro Van Held realmente não convence. Achei o André Ramiro bem fraco no 1, mas achei que amadureceu como ator nessa continuação. Maria Ribeiro é bem esquecível mesmo, mas Tainá Muller manda muito bem nas poucas cenas que aparecem. Fiquei satisfeito =)


Alan: suas expectativas vão ainda ser superadas, creio eu ;D


Reinaldo: gostei da sua observação. Mas achei essa sequência um tapa na cara das pessoas que afirmavam que o original fosse uma ode ao fascismo, já que no 2, repudia completamente o sistema pelo qual presta serviço. E concordo contigo que nada disso seja original, mas não só por conteúdo que "Tropa 2" seja esse filmaço, mas também pelo apuro técnico e pela excelente condução da história.


Karen: vou colocar esse Wagner Moura no saco. Rã!


Sandro: haha, vai na confiança. Eu não esperava que seria um filme tão bom e ainda com a astúcia de superar a coragem do primeiro filme.


ABRAÇOS A TODOS!