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9 de ago de 2010

O Fim da Escuridão


Os últimos trabalhos de Mel Gibson no cinema foram o polêmico “A Paixão de Cristo”, de 2003 e o ofegante “Apocalypto”, ambos lançados pela produtora que o ator/diretor/ produtor fundou no início da década de 1990, a Icon Productions, que passou a atuar desde então como a empresa responsável por produzir e distribuir praticamente todos os filmes em que seu nome constasse nos créditos. Conhecido popularmente pelos trabalhos como ator, a função assumida por Gibson nos seus dois últimos projetos, no entanto, foi como diretor, atividade que o astro não desempenhava desde o Oscar que recebeu pela condução do épico “Coração Valente”, de 1995. Já como ator, Mel Gibson se manteve afastado por 8 anos do cinema, registrando sua última interpretação no ótimo “Sinais” – época em que o diretor indiano M. Night Shyamalan mantinha algum respeito da crítica e do público. Em 2010, o ator quebra esse jejum diante das câmeras, mas volta a interpretar o mesmo tipo de personagem em filmes de ação que marcou a sua carreira: a figura paterna ou marido dedicado em busca de vingança. Excluindo as peculiaridades dos personagens e o motivo que lhes despertou a fúria, pode-se dizer que, praticamente, Gibson repete o mesmo papel desse “O Fim da Escuridão” em outros filmes como “O Patriota”, “O Preço de um Resgate” e “Mad Max”, projeto pelo qual o ator se tornou mundialmente conhecido, ganhando status de astro hollywoodiano. Essa repetição do personagem justiceiro não diminui os esforços de “O Fim da Escuridão”, pelo contrário, é o principal motivo para se assistir ao filme e conferir Gibson na forma que, aparentemente, se sente mais confortável.

Baseado em uma minissérie britânica dos anos 80, transmitida no Brasil com o título “No Limite das Trevas”, o roteiro desenvolvido por William Monahan – vencedor do Oscar por “Os Infiltrados” – e pelo australiano Andrew Bovell acompanha a investigação pessoal que o membro da polícia de Boston Thomas Craven (Gibson) está desenvolvendo para buscar os desdobramentos que levam à explicação do assassinato de sua filha, a jovem Emma (Novakovic). O pai é informado de que a garota era considerada uma ameaça terrorista para os Estados Unidos, pois estava envolvida na invasão da empresa Northmoor, que atua na fabricação e armazenamento de armas nucleares para o país. No entanto, mais tarde, Craven descobre que Emma sabia de alguns segredos confidenciais da tal empresa e que foi morta antes que pudesse revelar as falcatruas que sustentavam a corporação. Sedento de vingança, o policial não poupa pesquisas e interrogações violentas para compreender o envolvimento da garota ativista e da organização corrupta.

Martin Campbell é um diretor especialista no gênero ação, profissional em arquitetar cenas tensas e inesperadas. Em meio a um escorregão (“Limite Vertical”) e outro (“A Lenda do Zorro”) – sem contar o engodo “Amor sem Fronteiras”, um dos romances mais doentis do cinema –, o diretor acaba, mesmo nesses filmes irregulares, criando passagens surpreendentes em que o ritmo é pulsante e a adrenalina está sempre correndo no celulóide. Atuando em zona de conforto, Campbell foi quem comandou a minissérie oitentista que inspirou “O Fim da Escuridão”; mas mesmo confirmando seu talento com as sequências de ação, o diretor acaba repetindo a falta de fluidez de seus projetos anteriores. Aqui, a condução acaba se perdendo por não dar um final a todos os personagens que se envolvem nas investidas de Emma em desvendar as pesquisas secretas da Northmoor, que inclui advogados, figuras políticas, amigos e uma variedade de pessoas, que são covardemente abandonadas pelo roteiro ou simplesmente tem um final muito reducionista e pouco satisfatório, eles simplesmente são jogados na história para salientar a complexidade da jornada enfrentada pela garota.

A partir do segundo ato da trama, “O Fim da Escuridão”, que é compensado por cenas impactantes na primeira parte, acaba perdendo fôlego e se igualando a qualquer outro filme de ação cuja trama ambiciona rebaixar “os poderosos” que se encontram em uma posição de destaque. Mais longo do que deveria, o filme ainda peca por querer despertar o instinto paterno no personagem de Gibson, já que, pela enésima vez, ele interpreta o pai ausente, mas que se rebela quando tocam em sua prole. Dessa forma, é embaraçoso ver as cenas em que o protagonista relembra os momentos que dividiu com a filha pequena ou quando se mostra arrependido por não ter participado ativamente da vida e das descobertas da garota, além das alucinações que ele tem ao vê-la trafegando pela casa, dando-lhe dicas etc. Por falta de acabamento do roteiro em querer condensar 6 episódios de uma série em 120 minutos, o motivo que leva Craven a se vingar se torna prosaico, e confesso que dificulta o espectador o processo de adentrar em uma história relativamente complexa e cheia de personagens secundários com uma razão tão artificial movida pelo protagonista.




Mas a verdadeira razão para conferir o filme é a comprovação de que Mel Gibson, aos 54 anos de idade, ainda consegue segurar um filme policial como quando era mais jovem. Expressivo e exibindo intensidade na composição do pai sofredor e perdido em um jogo de gato e rato, o ator encarna mais um personagem badass e que não economiza em sacar sua arma para atirar contra os inimigos, fato que o personagem que interpretou em “O Troco” ficaria imensamente orgulhoso. Aliás, abrindo parênteses, é muito curioso um sujeito católico ortodoxo e conservador ter feito carreira como “mocinhos” que, ainda representando o “lado bom” dos filmes que protagonizou, combate a violência com mais violência. Talvez seja até idiotice minha trazer essa observação para a crítica, mas divago. E não posso deixar de citar o enigmático e interessante personagem interpretado pelo veterano Ray Winstone, que merecia mais atenção pela ambiguidade e complexidade que o personagem carregava consigo cada vez que surgia em cena.

“O Fim da Escuridão” é um filme de ação que acaba se prejudicando por confundir demais a sua trama, mas, no fim das contas, é igual a qualquer uma dessas cópias protagonizadas por Bruce Willis, Steven Seagal, Wesley Snipes, Kurt Russell ou Arnold Schwarzenegger. O que diferencia um do outro é a força de interpretação de seu personagem central, e esses atores ainda têm que comer muito arroz e feijão para chegar ao nível de atuação de Mel Gibson. “You were right not to trust me””. POW!


NOTA: 5,5


O FIM DA ESCURIDÃO (Edge of Darkness) EUA, 2010
Direção: Martin Campbell
Roteiro: William Monahan e Andrew Bovell
Elenco: Mel Gibson, Ray Winstone, Danny Huston, Bojana Novakovic e Jay O. Sanders

7 comentários:

@Raspante disse...

Não é o tipo de filme que eu gosto, mas estou precisando de algo de ação para me divertir, abstrair um pouco as ideias! rs
Com certeza este não será a minha escolha. Nunca simpatizei muito com o Gibson e nem este estilo de "sou bom, sou policial e vamo faze uma vingança besta. Ok ?". É, definitivamente, não rola!

Abs.

cleber eldridge disse...

Eu nunca tive uma simpátia por Mel Gibson, não acho ele um bom ator. O filme não me desprtou interesse, mas, irei ver assim que tiver disponivel, eu verei.

ABRAÇO TOM.

Reinaldo Glioche disse...

Adorei esse filme. Concordo com a análise que vc desenvolve aqui, mas acho que a fita se diverge de congêneres estrelados pelo próprio Gibson, Willis e outros, pela inteligência dos diálogos e a força das presenças de Gibson e Winstone.

Abs

PS: Só uma rápida correção: vc confundiu o nome do filme que deu o Oscar a Gibson. Está escrito Coração selvagem.Ô fã de Lynch...rsrs
abs

Rodrigo Mendes disse...

Oi Elton!

Fazia tempo que não assistia Gibson num tipo de filme que o tornou célebre, mas eu não gostei muito deste filme como deveria. Parece uma soma de 'O Troco'(que nunca gostei) com 'Duro de Matar'.

Pelo menos é um território que a platéia em geral tem uma certa predilação. Eu prefiro o Gibson muito mais nos tempos dos ótimos Maquina Mortífera e ele deixou saudades com uma digna atuação como fez em As Duas Faces de Um Homem, Coração Valente e Sinais!

Quanto ao diretor, ao menos Campbell (eu adoro o Zorro, rs) fez a cartilha James Bond em duas fitas que ressuscitou o personagem de ação 'Goldeneye'(da velha forma 007) e 'Cassino Royale' ( da forma Bourne),ou seja, ele entende muito de ação mas derrapou aqui na minha opinião. Querendo fazer algo menor e estilizado num roteiro de William Monahan e que convenhamos: Campbell não é um Scorsese!

Também concordo com a falta de aproveitamento do ator Ray Winstone, que tem papéis muito diferentes no cinema, já trabalhou para Spielberg, Zemeckis, Scorsese e mesmo assim fica como peça de decoração nos filmes.

Mas nada disso que eu falei atrapalha muito a sessão, pois este tipo de filme é salvo por um resquício de entretenimento.

Abs,
Rodrigo

Wally disse...

É um filme bem problemático, mas acho que cumpriu seu papel. Destaque para o clímax, excelente.

Cristiano Contreiras disse...

É o tipo de filme que eu considerei bom, nada mais. Eu confesso que achei a atuação de Gibson convicente - sim, não o considero um bom ator...sempre achei que Coração Valente deveria ter sido interpretado por outro, não ele. Ele é melhor dirigindo, rs. Obviamente, ele imortalizou certos papeis, vide os de Mad Max e Maquina Mortifera, mas eu não gosto dele. Acho muito ele mesmo...rs

É mesmo que acha engodo o bom Amor sem fronteiras? Discordo muito de ti, rs.

Bom, de qualquer forma, eu acho que o filme realmente poderia ser melhor...

Abraço

Elton Telles disse...

Hahaha Alan, também confesso que "O Fim da Escuridão" não é o meu tipo de filme preferido, mas faço o possível para assistir todos os gêneros e modelos =)
Gosto de Gibson como ator de ação, mas, no geral, não é nada marcante mesmo. Assim como este filme.


Cleber: veja sem compromisso. Tem umas cenas de ação muito legais.


Reinaldo: eu acho que é um repeteco dos filmes de ação estrelados por aqueles atores que citei aliado a um assunto "cabeçudo" e "complexo". Achei que o filme não deu conta do recado. E valeu pela correção! rs.


Olá, Rodrigo!
Sério que não gosta de "O Troco"? Adoro aquele personagem porra-louca dele hahaha. Me divirto! Gibson não é lá um ator sensacional, mas ele é competente no que faz. Ao menos, não se aventura em filmes, sei lá, mais dramáticos, porque o próprio tem noção de suas limitações - e isso é ótimo -, mas esses outros de ação que ele atua, faz com propriedade. Eu gosto =)
Campbell deu mesmo fôlego à série 007. Demais! Mas aqui ele não repete o mesmo trabalho e a distância que o separa de Scorsese é imensurável hahaha.


Wally, não é todo de jogar fora, naõ é descartável. Acho que muitos aproveitaram e "mataram a saudade" e ver Gibson em um filme típico daqueles que o consagrou.


Cris: nem vou entrar no mérito "Amor sem Fronteiras" porque isso pode colocar nossa amizade em risco hahahaha! Quanto a Gibson, também prefiro ele dirigindo se é pra continuar fazendo esses filmes que sempre faz. Gosto de seu trabalho em "Apocalypto". E, sim, "O Fim da Escuridão" tinha potencial para ser melhor, mas o roteiro e até mesmo a mão errada na direção dificultaram o processo...


ABS!