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23 de fev de 2010

Alexandra

Considerado um dos maiores cineastas contemporâneos, o russo Aleksandr Sokúrov é também geralmente apontado como o sucessor do lendário Andrei Tarkovsky, diretor responsável por obras importantes e revolucionárias para a história do cinema, como “Solaris” e “O Espelho”. Tal comparação também é fruto de que, censurado pelas autoridades soviéticas, seu filme de estreia – “A Voz Solitária do Homem” (1978), cuja trama traz um homem traumatizado pela guerra civil russa, durante a década de 1920 – encontrou ressonância e teve reconhecimento no meio cinematográfico, nove anos após sua produção, por influência de ninguém menos que Tarkovsky, que havia aprovado o material. A filmografia de Sokúrov ainda contém curtas-metragens com conteúdo claramente antibelicista e até documentários, que apresentam figuras e colagens de guerras. Alguns destes títulos são “E Nada Mais”, “Sonata para Hitler” e “O Sonho do Soldado” – alguns deles também banido e censurados pelo governo russo na época. Permanecendo com a ambientação da guerra como pano de fundo, Sokúrov ainda realizou alguns filmes retratando ditadores do século XX, como Adolf Hitler em “Moloch”, Vladimir Lenin em “Taurus” e o imperador japonês Hiroito no recente “O Sol”.


Com esse claro “engajamento político” permeando a filmografia desse diretor – algo compreensível historicamente e típico de outros diretores russos, como Andrzej Wajda – Sokúrov trabalhou paralelamente a esses filmes lidando com alguns dramas pessoais e introspectivos. Em 1997, iniciou uma trilogia sobre relacionamentos familiares com “Mãe e Filho”, seguido pelo delicado “Pai e Filho”, lançado em 2003 e conquistando o prêmio da crítica no Festival de Cannes do mesmo ano. A terceira parte desta trilogia é “Alexandra”, filme que mescla perfeitamente os conceitos primordiais do diretor - reflexão sobre a guerra – com um drama denso, intimista e comovente.


Assinando também o roteiro, Sokúrov documenta os poucos dias que duraram a visita de uma senhora idosa, viúva, chamada Alexandra (Vishnevskaya) a um acampamento militar russo localizado no território da Chechênia. Lá, ela pretende visitar o neto, Denis (Shevtsov), que é um oficial do exército. Lançando um olhar reprovador às batalhas, a personagem-título acompanha a hostilidade e as condições deploráveis da guerra, além de testemunhar os maus tratos a que os soldados são submetidos, sob o comando de seu próprio neto.

Com apenas 90 minutos de duração, “Alexandra” é um filme que diz muito com poucas palavras. Apresenta uma reflexão sutil sobre os efeitos da guerra e a sua real relevância. O roteiro é hábil em levantar essa discussão sem soar didático ou manipulador, sendo as imagens registradas pela câmera atenta de Sokúrov e os (poucos) diálogos do filme suficientes para garantir uma crítica nas entrelinhas. Cegos pelo orgulho militar, Alexandra questiona a um oficial “vocês só destroem. Quando vão começar a reconstruir?”. A força de frases bem construídas e propícias eleva o filme a outro patamar, não descamba para o típico filme-denúncia, sendo diferenciado pelo tratamento delicado que é conduzido. Um exemplo é a hesitação de o filme não cair no melodrama, pois a presença de Alexandra no local funciona como um alívio para os jovens soldados, como se fosse a concretização de uma figura materna naquele cenário de dor e desespero – como se esquecer da cena do almoço? O filme é feito de olhares e percepções, um trabalho sensível e que exige sensibilidade daqueles que o assiste.




Também é digno de reconhecimento o fato de Sokúrov não romantizar a situação que se encontra a personagem-título, nem mesmo fazê-la posar de vítima. O diretor é perspicaz em não concebê-la como uma figura unidimensional. Assim, evidencia as contrariedades e esquisitices de Alexandra, que exala até um ar de superioridade em algumas cenas, despindo-se totalmente do conceito de ser uma heroína e consequentemente ganha qualidades (e defeitos) de uma pessoa real e imperfeita – como todos o são. Porém, do que adiantaria os esforços bem sucedidos do diretor se não encontrasse uma atriz à altura? E então somos apresentados à Galina Vishnevskaya, cantora de ópera russa, que faz sua estreia no cinema, aos 80 anos, de forma não menos que brilhante. A incorporação da atriz na personagem é intensa, entregando uma performance poderosa e comovente. É lamentável a soprano ter iniciado sua carreira no cinema tão tardiamente.


Apresentando uma eficiente fotografia sépia e pálida com o objetivo de enaltecer a aridez e tristeza daquele ambiente, “Alexandra” é mais um belo exemplar da filmografia de Sokúrov. Pode parecer um pouco convencional comparado aos outros filmes desse diretor ou não possuir o refinamento e inspirados posicionamentos de cena das suas obras anteriores. Porém, isso não exclui o fato de estarmos diante de um filme singelo, delicado e inesquecível.



NOTA: 8,5



ALEXANDRA (Idem) Rússia, 2007

Direção e Roteiro: Aleksandr Sokúrov

Elenco: Galina Vishnevskaya, Vasily Shevtsov e Raisa Gichaeva

8 comentários:

J. Jack disse...

Particularmente, acho o cinema russo muito inacessivel!

Paulo Soares disse...

Vontade que fiquei de ver esse filme agora..rs

Francisco Brito disse...

Bela crítica do que parece ser um filmaço,Tom.
Parabéns.

Elton Telles disse...

Olá Jack!
Soou um pouco ambíguo esse seu "inacessível". Pode ser inacessível porque tanto os cinemas brasileiros como as videolocadoras não investem ou disponibilizam filmes russos OU que possui um conteúdo meio difícil de entender mesmo. Assim, tem filmes mesmo que são específicos, com carater mais regional mesmo e temos que, para pegar o fio da meada, fazer um mergulho cultural daquele país. Acho que nunca captamos tudo à primeira vista. "Obama" é um exemplo. Tem todo um jogo de cores lá que é muito simbólico do Afeganistão e tal. É por aí. Mas tem filmes que, mesmo sendo filmados na Bósnia Herzegovina ouna Indonésia, abrangem temas universais. "Alexandra" é um deles.


Hello Paulo!
Assisti ao filme em uma mostra. Estreou nos cinemas em maio de 2009, acredito que ainda este ano chegue nas locadoras, se não engavetarem para sempre como fizeram com o romeno "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias"! Mas quando chegar, assita sim, é um filmaço! ;)


Ae Francisco!
Obrigado pelo comentário, companheiro!


ABS!

J,J disse...

Tom, especialmente pra você escrevi sobre Max Payne ... rs!

Luis Galvão disse...

Não sou muito chegado ao cinema Russo, mas espero vê esse por sua ótima crítica.

Madame Lumière disse...

Olá Elton,
De todas as suas resenhas que já vi, esta é uma das que você mais olhou o lado comportamental da personagem. Adorei essa resenha, com grandes sacadas sobre a personagem de Alexandra, em especial, a da figura materna e a figura que também tem defeitos como qualquer um de nós. Não assisti ainda Alexandra, mas é como se eu o tivesse assistido lendo sua ótima resenha.

Obrigada pela dica!

Abs!

Elton Telles disse...

Valeu, Luis.
Na verdade, não conheço muuuito o cinema russo, só os diretores mais badalados mesmo. Sukúrov é grandioso e "Alexandra" é uma das suas melhores obras.


Olá Madame!
Obrigado pelas palavras. Nesse filme, o diretor faz um estudo de personagem e, ao mesmo tempo, o que essa persona representa para a guerra. É um trabalho primoroso!


ABS!