“Deus nos dá familiares. Graças a Deus, podemos escolher nossos amigos”. Não é por acaso que a célebre frase do escritor norte-americano Ethel Mumford é inserida antes dos créditos finais do filme, já que sua menção é totalmente plausível à história de amizade conferida nesta perversa e, ao mesmo tempo, tocante animação. Em 2004, o australiano Adam Elliot tornou-se conhecido mundialmente ao vencer o Oscar de Melhor Curta-metragem de Animação com o fabuloso “Harvie Krumpet”. O diretor foi apontado como uma das grandes promessas no campo das animações, por ser responsável pelo uso e aprimoramento de uma técnica pouco explorada até então – stop motion –, bem como por apresentar conteúdo diferenciado das animações usuais. Bastaram cinco anos para que Elliot confirmasse a que veio. Adotando a mesma técnica empregada em seu famoso curta e uma opção narrativa semelhante, o australiano dirige e roteiriza o seu primeiro longa-metragem, o encantador “Mary e Max – Uma Amizade Diferente”. Amparado na melancolia e com respaldo no humor depreciativo, surge uma emocionante e inesquecível fábula sobre a influência da verdadeira amizade na vida de duas pessoas incomuns, que raramente firmariam um laço de fidelidade se não fosse pelo método que se comunicam.
Curioso, inclusive, é saber que a história é verídica. Porém, claro, sustentada por personagens fictícios. Estamos na Austrália, em 1976. Mary é uma garota inocente e sonhadora, que, ao lado de seu galo de estimação, distribui panfletos pela vizinhança e ajuda o vizinho paraplégico com a correspondência para ganhar 50 centavos por dia. Ela economiza esse dinheiro para, futuramente, casar-se com um homem escocês de nome pré-definido e ter um rebanho de ovelhas, patos e outros animais. Do outro lado do oceano, especificamente em Nova York, vive o solitário Max. Viciado em cachorro quente de chocolate e constantemente medicado por um psiquiatra judeu, o homem de 44 anos tem dificuldades em entender as pessoas, pois considera a sociedade uma casta ilógica. Com tantas singularidades e diferenças, Mary e Max dividem, no entanto, um mesmo “problema”: nenhum deles tem amigos. Assim, quando Mary encaminha uma carta para Max perguntando-lhe de onde vêm os bebês na América, a garota logo é correspondida e o correio torna-se o canal de comunicação básico para o nascimento de uma amizade sem fronteiras.
A não ser o momento em que os protagonistas escrevem as cartas, raramente ouvimos as vozes de cada um, pois a narração em off feita pelo ator australiano Barry Humphries impera sobre a narrativa. Embora essa opção desempenhe papel importante em evidenciar os pensamentos e percepções, bem como o psicológico de cada personagem, a narração peca pelo excesso de descrição em algumas cenas, já que é perfeitamente possível o espectador chegar a uma conclusão apenas acompanhando as imagens. Porém, a sofisticação, o texto muito bem elaborado e em perfeito casamento com as imagens transformam esse grave problema, presente em tantas outras produções, em um pífio descuido. As dublagens, por outro lado, alcançam a perfeição no cuidado da composição de cada persona. O genial Philip Seymour Hoffman empresta a voz para Max. Com um timbre propositalmente rouco e sisudo, o ator é capaz de traçar o perfil completo e complexo de Max, resultando em uma mistura de fina ironia desproposital com a inocência peculiar do personagem. A pequena Bethany Whitmore dubla Mary na infância com uma voz terna e afetuosa, e suas oscilações ao dizer que nunca foi uma comunista, nem nunca voou de asa delta é perfeita para que se perceba a incompreensão, fruto da pureza típica de uma garotinha de 8 anos de idade. Já na fase adulta, a talentosa Toni Collette assume a caracterização de Mary, que ganha contornos de maturidade.
A concepção visual de “Mary e Max” é fantástica e ecoa importantes significados no entendimento da história. O mundo de Mary é mergulhado em uma cor enferrujada, predominante ocre, quase monocromático e que aposta em uma paleta de cores apagada. A Nova York de Max é composta por cores neutras, um preto e branco imperativo, que denuncia o incômodo que é para o personagem morar na Big Apple. Ao trocar as correspondências, os novos amigos também enviam presentes um ao outro – na maioria das vezes, chocolates, que, inexplicavelmente, não derretem. Esses objetos, ao adentrarem o ambiente de vivência do “presenteado”, tornam-se coloridos e ganham vida, representando o valor depositado pelo destinatário em um objeto de pouca utilidade, mas que fora enviado por um ente querido. São essas singelezas que enriquecem o filme; são detalhes que não são escancarados e detém grande importância sobre a narrativa. Ainda que a descrição do narrador sobre os personagens-título seja pontual, a complexidade de Mary e Max tem ressonância externa, como o detalhe dos olhos “cor de lama” de Mary que, ao presenciar uma cerimônia de casamento, encontram-se com lentes de contato verdes. Essas minuciosidades são informações adicionais que reforçam o que cada um efetivamente representa.
Aliás, é praticamente impossível se portar indiferente diante desses personagens. O que dizer de uma garotinha cujo “prato preferido” é leite condensado e acha que os bebês nascem em copos de cerveja? Ou de um homem de meia-idade, idealista, que frequenta semanalmente os “Comedores Anônimos” e acha que os bebês são concebidos por rabinos, freiras católicas ou prostitutas sujas? Engraçado que mesmo com o narrador constantemente evidenciando o psicológico dos personagens, eles são mais complexos do que imaginamos; e chega a ser irônico – mas verdadeiro – afirmar que são até mais “humanos” do que muitos personagens unilaterais de carne e osso em tantos filmes por aí. A própria inabilidade de Max em se considerar incapaz de entender a raça humana é uma citação extraordinária. Como diria o narrador, “Max se questionava porque era considerado doente se era mais normal que os outros”. Afinal, quem é o "problemático"? Por que as pessoas jogam lixo no chão se tem uma lixeira a cada esquina ou por que é um senso social mentir se a verdade pode ser dita a todo o momento? Da mesma forma, é delicioso e absurdamente engraçado acompanhar as irregularidades do mundo sob a ótica de Mary, como ao testemunhar a mãe roubando e achar que está pegando emprestado ou pensar que a mesma toma chá gelado todos os dias, quando, na verdade, enche a cara com um whisky vagabundo.
O tom depressivo é, geralmente, assaltado pela comicidade mórbida. “Mary e Max – Uma Amizade Diferente”, definitivamente, não é uma animação infantil. Contando com uma trilha sonora convidativa, é um filme sensível que retrata a cumplicidade entre duas pessoas que parecem ser exclusas da sociedade. Vítimas de bullying na infância e sem amigos, encontram o companheirismo e auxílio necessário um no outro, além de confirmar que a verdadeira amizade pode consertar até os erros formalmente irreparáveis. O mundo precisa de mais pessoas assim.
NOTA: 9,0
MARY E MAX – UMA AMIZADE DIFERENTE (Mary e Max) Austrália, 2009
Direção e Roteiro: Adam Elliot
Elenco: Vozes de Philip Seymour Hoffman, Bethany Whitmore, Barry Humphries, Toni Collette e Eric Bana





























