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25 de mai. de 2010

Mary e Max - Uma Amizade Diferente


“Deus nos dá familiares. Graças a Deus, podemos escolher nossos amigos”. Não é por acaso que a célebre frase do escritor norte-americano Ethel Mumford é inserida antes dos créditos finais do filme, já que sua menção é totalmente plausível à história de amizade conferida nesta perversa e, ao mesmo tempo, tocante animação. Em 2004, o australiano Adam Elliot tornou-se conhecido mundialmente ao vencer o Oscar de Melhor Curta-metragem de Animação com o fabuloso “Harvie Krumpet”. O diretor foi apontado como uma das grandes promessas no campo das animações, por ser responsável pelo uso e aprimoramento de uma técnica pouco explorada até então – stop motion –, bem como por apresentar conteúdo diferenciado das animações usuais. Bastaram cinco anos para que Elliot confirmasse a que veio. Adotando a mesma técnica empregada em seu famoso curta e uma opção narrativa semelhante, o australiano dirige e roteiriza o seu primeiro longa-metragem, o encantador “Mary e Max – Uma Amizade Diferente”. Amparado na melancolia e com respaldo no humor depreciativo, surge uma emocionante e inesquecível fábula sobre a influência da verdadeira amizade na vida de duas pessoas incomuns, que raramente firmariam um laço de fidelidade se não fosse pelo método que se comunicam.


Curioso, inclusive, é saber que a história é verídica. Porém, claro, sustentada por personagens fictícios. Estamos na Austrália, em 1976. Mary é uma garota inocente e sonhadora, que, ao lado de seu galo de estimação, distribui panfletos pela vizinhança e ajuda o vizinho paraplégico com a correspondência para ganhar 50 centavos por dia. Ela economiza esse dinheiro para, futuramente, casar-se com um homem escocês de nome pré-definido e ter um rebanho de ovelhas, patos e outros animais. Do outro lado do oceano, especificamente em Nova York, vive o solitário Max. Viciado em cachorro quente de chocolate e constantemente medicado por um psiquiatra judeu, o homem de 44 anos tem dificuldades em entender as pessoas, pois considera a sociedade uma casta ilógica. Com tantas singularidades e diferenças, Mary e Max dividem, no entanto, um mesmo “problema”: nenhum deles tem amigos. Assim, quando Mary encaminha uma carta para Max perguntando-lhe de onde vêm os bebês na América, a garota logo é correspondida e o correio torna-se o canal de comunicação básico para o nascimento de uma amizade sem fronteiras.


A não ser o momento em que os protagonistas escrevem as cartas, raramente ouvimos as vozes de cada um, pois a narração em off feita pelo ator australiano Barry Humphries impera sobre a narrativa. Embora essa opção desempenhe papel importante em evidenciar os pensamentos e percepções, bem como o psicológico de cada personagem, a narração peca pelo excesso de descrição em algumas cenas, já que é perfeitamente possível o espectador chegar a uma conclusão apenas acompanhando as imagens. Porém, a sofisticação, o texto muito bem elaborado e em perfeito casamento com as imagens transformam esse grave problema, presente em tantas outras produções, em um pífio descuido. As dublagens, por outro lado, alcançam a perfeição no cuidado da composição de cada persona. O genial Philip Seymour Hoffman empresta a voz para Max. Com um timbre propositalmente rouco e sisudo, o ator é capaz de traçar o perfil completo e complexo de Max, resultando em uma mistura de fina ironia desproposital com a inocência peculiar do personagem. A pequena Bethany Whitmore dubla Mary na infância com uma voz terna e afetuosa, e suas oscilações ao dizer que nunca foi uma comunista, nem nunca voou de asa delta é perfeita para que se perceba a incompreensão, fruto da pureza típica de uma garotinha de 8 anos de idade. Já na fase adulta, a talentosa Toni Collette assume a caracterização de Mary, que ganha contornos de maturidade.





A concepção visual de “Mary e Max” é fantástica e ecoa importantes significados no entendimento da história. O mundo de Mary é mergulhado em uma cor enferrujada, predominante ocre, quase monocromático e que aposta em uma paleta de cores apagada. A Nova York de Max é composta por cores neutras, um preto e branco imperativo, que denuncia o incômodo que é para o personagem morar na Big Apple. Ao trocar as correspondências, os novos amigos também enviam presentes um ao outro – na maioria das vezes, chocolates, que, inexplicavelmente, não derretem. Esses objetos, ao adentrarem o ambiente de vivência do “presenteado”, tornam-se coloridos e ganham vida, representando o valor depositado pelo destinatário em um objeto de pouca utilidade, mas que fora enviado por um ente querido. São essas singelezas que enriquecem o filme; são detalhes que não são escancarados e detém grande importância sobre a narrativa. Ainda que a descrição do narrador sobre os personagens-título seja pontual, a complexidade de Mary e Max tem ressonância externa, como o detalhe dos olhos “cor de lama” de Mary que, ao presenciar uma cerimônia de casamento, encontram-se com lentes de contato verdes. Essas minuciosidades são informações adicionais que reforçam o que cada um efetivamente representa.


Aliás, é praticamente impossível se portar indiferente diante desses personagens. O que dizer de uma garotinha cujo “prato preferido” é leite condensado e acha que os bebês nascem em copos de cerveja? Ou de um homem de meia-idade, idealista, que frequenta semanalmente os “Comedores Anônimos” e acha que os bebês são concebidos por rabinos, freiras católicas ou prostitutas sujas? Engraçado que mesmo com o narrador constantemente evidenciando o psicológico dos personagens, eles são mais complexos do que imaginamos; e chega a ser irônico – mas verdadeiro – afirmar que são até mais “humanos” do que muitos personagens unilaterais de carne e osso em tantos filmes por aí. A própria inabilidade de Max em se considerar incapaz de entender a raça humana é uma citação extraordinária. Como diria o narrador, “Max se questionava porque era considerado doente se era mais normal que os outros”. Afinal, quem é o "problemático"? Por que as pessoas jogam lixo no chão se tem uma lixeira a cada esquina ou por que é um senso social mentir se a verdade pode ser dita a todo o momento? Da mesma forma, é delicioso e absurdamente engraçado acompanhar as irregularidades do mundo sob a ótica de Mary, como ao testemunhar a mãe roubando e achar que está pegando emprestado ou pensar que a mesma toma chá gelado todos os dias, quando, na verdade, enche a cara com um whisky vagabundo.


O tom depressivo é, geralmente, assaltado pela comicidade mórbida. “Mary e Max – Uma Amizade Diferente”, definitivamente, não é uma animação infantil. Contando com uma trilha sonora convidativa, é um filme sensível que retrata a cumplicidade entre duas pessoas que parecem ser exclusas da sociedade. Vítimas de bullying na infância e sem amigos, encontram o companheirismo e auxílio necessário um no outro, além de confirmar que a verdadeira amizade pode consertar até os erros formalmente irreparáveis. O mundo precisa de mais pessoas assim.



NOTA: 9,0



MARY E MAX – UMA AMIZADE DIFERENTE (Mary e Max) Austrália, 2009

Direção e Roteiro: Adam Elliot

Elenco: Vozes de Philip Seymour Hoffman, Bethany Whitmore, Barry Humphries, Toni Collette e Eric Bana

23 de mai. de 2010

Palmas para Cannes


Infelizmente, eu não tive acesso a nenhum dos filmes selecionados para o Festival de Cannes deste ano – nem ao tão aguardado “Film Socialisme”, do lendário Jean-Luc Godard, que muitos disseram que estaria disponível na internet durante a semana do evento; pois então, não encontrei. Mesmo sem ter assistido aos filmes concorrentes, ouso em soar pragmático ao afirmar que fiquei satisfeito com o resultado. Não digo a todos os vencedores, porque tem alguns que nem mesmo conheço – Cannes 2010 foi mais ousado e resolveu privilegiar um cinema muito mais autoral, independente –, mas os trabalhos anteriores dos atuais vencedores, bem como a aceitação da crítica indicam que o júri presidido por Tim Burton foi perspicaz em suas escolhas. Aliás, devo confessar que não depositava confiança em uma reunião de profissionais liderada por... Tim Burton! Não digo com toda certeza, mas, aparentemente, o gothic director fez melhores opções do que, por exemplo, outros dois cineastas que tenho maior apreço: Quentin Tarantino em 2004, quando laureou o manipulativo “Fahrenheit 9/11”; e Wong Kar-Wai, que, em 2006, deu o prêmio máximo para o mediano “Ventos da Liberdade”.


Vamos aos principais vencedores do Festival de Cannes 2010:


Palma de Ouro:
“Long Boonmee Raluek Chat”, de Apichatpong Weerasethakul (Tailândia)


Grande Prêmio do Júri: “Des Hommes et des Dieux”, de Xavier Beauvois (França)


Prêmio do Júri: “Un Homme que Crie”, de Mahamat-Saleh Haroun (Chade)


Direção: Mathieu Amalric por “Tournée” (França)


Roteiro: Lee Chang-Dong por “Poetry” (Coréia do Sul)


Ator: Javier Bardem por “Biutiful” (México)
Elio Germano por “La Nostra Vita” (Itália)


Atriz: Juliette Binoche por “Copie Conforme” (França / Irã)




Câmera de Ouro: “Año Bisiesto”, de Michael Rowe (México)


Curta-metragem: “Un Chienne d’Histoire”, de Serge Avedikian (Alemanha)



17 de mai. de 2010

Almoço em Agosto


“Almoço em Agosto” vai de encontro com as comédias mais escrachadas e escandalosas, tipicamente italianas, das décadas de 1960 e 1970. O filme marca a estreia de Gianni Di Gregorio atrás das câmeras na função de diretor, além de assumir parte do roteiro e o papel do condescendente protagonista da história. Novamente ao lado do diretor Mateo Garrone, cujo trabalho mais expressivo foi o premiado “Gomorra”, de 2008, em que Di Gregorio foi um dos 6 colaboradores do roteiro, o ator/diretor/roteirista abandona a máfia italiana e decide abraçar o gênero cômico. Porém, é perceptível a delicadeza e cuidado empregado pelo diretor para que o riso não fosse tratado de forma banalizada, excluindo, assim, qualquer possibilidade de transformar situações banais em motivos pautados de diversão obrigatória. “Almoço em Agosto” é uma comédia dosada, que investe a maior parte de sua comedida comicidade em momentos comuns e típicos do cotidiano de qualquer um que concordasse em hospedar quatro idosas na própria casa em um final de semana prolongado. Entretanto, essa “renúncia” ao deboche e a opção pelo “cômodo” é justamente o motivo de tantas críticas negativas ao filme, o que concordo em partes. Embora o projeto seja aconchegante e relativamente agradável, reconheço que o diretor ignorou oportunidades de extrair o riso, consequentemente, desperdiçando a chance de conquistar (ainda mais) o espectador.

Gianni (Di Gregorio) é um homem de meia-idade, que mora com a mãe idosa (Di Franciscis) no mesmo condomínio, em Roma, há alguns anos. Desempregado, as contas de Gianni se acumulam. Sabendo do paradeiro que o homem se encontra, o proprietário do apartamento lhe faz uma proposta: hospedar a mãe dele enquanto viaja durante o feriado de Ferragosto – feriado cristão comemorado na Itália – em troca de descontos no aluguel atrasado. Gianni, relutante, concorda e a tia enviada de companhia. Ao saber da situação, o médico da família, aproveitando-se das dívidas pendentes de Gianni, também pede que ele fique com sua mãe. Subitamente, o homem assume, a contragosto, papel de babá de quatro senhoras idosas, cada uma com cuidados especiais.

Sem nenhuma pretensão em apresentar conflitos ou um clímax sufocante, o filme é o simples retrato de uma inusitada situação. Não é um filme para gargalhadas; no máximo, o espectador vai acompanhar os (des)cuidados do protagonista com as senhoras com um constante sorriso de “canto de boca”. O riso é inevitável em algumas cenas, principalmente diante das discussões referentes a um macarrão de forno, à vaidade ilimitada da mãe do protagonista ou no momento em que Gianni enche uma chaleira de camomila na esperança das velhas senhoras dormirem por mais tempo. Em míseros 75 minutos de filme, “Almoço em Agosto” apresenta um pouco da cultura italiana e reproduz a inversão de papeis entre mãe e filho, exigida pela terceira idade.

O roteiro, mesmo reservando boas sacadas, peca ao estabelecer uma apresentação superficial de Gianni. Afinal, muitas perguntas não são respondidas, mas são, de certa forma, importantes para que seja firmado um laço de identificação entre o personagem e o espectador. Afinal, por que ainda ele mora com a mãe? O que levou sua ex-esposa a pedir o divórcio? Qual a maior dificuldade em não conseguir trabalho? Repleto de figuras interessantes, o filme também desperdiça alguns bons motivos para suscitar o riso – ou até mesmo a comoção – aproveitando o fato de que as senhoras são desconhecidas umas a outras e irão, posteriormente, se apresentarem. Percebemos os laços de amizade ratificados entre elas – principalmente na cena que intitula o projeto – mas o espectador não capta todo esse sentimento, nem acompanha as trocas de informações entre as senhoras, que poderia ser mais explorado em seu desenvolvimento.


Filme de baixo orçamento – apenas 500 mil euros –, já denuncia poucos recursos na própria opção de filmagem. Não ficaria surpreso se soubesse que a câmera utilizada foi de 16 mm, pois as imagens aparecem frequentemente desfocada e geralmente o aparelho está estático, pouco se move entre os cômodos. Outro fator “denunciante” é a escolha da locação, bem como a iluminação das cenas, que parecem um pouco mais escuras do que deveriam. O fato é que “Almoço em Agosto” não despende tanta preocupação estética na composição das cenas, o que é extremamente válido para a proposta do filme, uma vez que o sentido de naturalidade e improviso é mais acentuado neste formato. A contribuição do elenco de intérpretes desconhecidos também favorece nesse sentido, e todos são convincentes em desempenharem seus papeis com singeleza e economia.

Possível de resultar em um programa frustrante para aqueles que esperam uma típica comédia italiana - para estes, é mais recomendável assistir a um filme do Mario Monicelli –, no fim das contas, talvez a receita de “Almoço em Agosto” tenha omitido alguns ingredientes fundamentais, como temperos para realçar o sabor, mas não é nada assim tão grave que vá prejudicar o processo de digestão.


NOTA: 7,0


ALMOÇO EM AGOSTO (Pranzo di Ferragosto) Itália, 2008
Direção: Gianni Di Gregorio
Roteiro: Gianni Di Gregorio e Simone Riccardini
Elenco: Gianni Di Gregorio, Valeria De Fransciscis, Marina Cacciotti e Maria Calì

12 de mai. de 2010

Aconteceu em Woodstock


O grande Festival de Woodstock colocou o nome da pequena vila no mapa. Eram poucas pessoas que, até então, conheciam o pacato vilarejo localizado no sul do Estado de Nova York, nos Estados Unidos. Pertencente ao Condado de Ulster, Woodstock iria ser palco de um dos maiores eventos musicais do mundo, que provocaria mudanças radicais na ordem cultural e social vigentes na época. Porém, a população do lugar não aceitou a instalação do festival em seu território, o que resultou na transferência dos shows à cidadela de Bethel, a poucos quilômetros de distância. O Woodstock Music & Art Fair foi o epicentro do movimento hippie e um dos momentos-chaves que marcou a geração da contracultura, em protesto à estúpida guerra travada no Vietnã, que completava 10 anos em 1969. O último filme do diretor Ang Lee acompanha perifericamente o processo de preparação do festival em questão, desde os acertos de aluguel da fazenda que abrigaria as apresentações até a chegada de “pessoas doidas, cabeludas e descalças” – como define um dos personagens do filme – ao local. Entretanto, é lamentável perceber que o projeto não faz jus à magia de um dos maiores eventos do século passado, sufocando a energia, o vigor e a vibração com um filme chato e minimamente desinteressante. Infelizmente, “Aconteceu em Woodstock” não aconteceu.

Quando o filme tem início, como pano de fundo aos créditos iniciais, testemunhamos a quietude e tranquilidade da pacata cidade de Bethel, comprovada pelo despovoamento de algumas regiões, principalmente no que diz respeito aos (poucos) hotéis e pousadas do vilarejo. Uma delas pertence à família Teichberg. Afundada em dívidas e reclamações dos (igualmente poucos) hóspedes, a escassez de clientela está levando o patrimônio familiar à falência. O jovem Elliot (Martin) se abstém da vontade que alimenta de se tornar um decorador e tentar a sorte em Nova York para ajudar os pais a saírem da miséria que se encontram. Ao saber de apresentações marcadas na região de cantores do porte de Janis Joplin e Jimi Hendrix, o rapaz entra rapidamente em contato com os organizadores do evento para convencê-los a trazerem o festival até Bethel, pois, dessa forma, ajudaria na renda familiar com a hospedagem dos visitantes. Contrariando a esmagadora maioria de moradores da cidadezinha, Bethel sedia o Festival de Woodstock, alcançando resultados financeiramente positivos aos Teichberg, além de proporcionar ao jovem Elliot uma viagem alucinante em busca da própria identidade.

O roteiro escrito por James Schamus – parceiro de longa data do diretor Ang Lee – não poupa os espectadores dos inúmeros estereótipos e clichés que caracterizaram a década de 1960. Sem dar voz àquelas pessoas, a trama relaciona o público de Woodstock como se fossem todos iguais e isentos de personalidade própria, simplesmente por se vestirem e terem aparência semelhante. Quando dois hippies, dentre o meio milhão que formava a platéia dos shows, têm a oportunidade de, eventualmente, se diferenciarem dos demais, é frustrante perceber que são reduzidos ao pior estereótipo dessa figura: sob efeito de entorpecentes, soltam frases ridículas, sem sentido, pré-concebidas e fabricadas pela sociedade a este tipo de tribo. Não excluo a possibilidade de representar alguns hippies com as características que lhes tornam mais conhecidos, mas, afinal, o filme reconstrói o cenário de Woodstock, portanto é inaceitável o tratamento arbitrário que o próprio público do festival foi retratado pelo filme.

Limitado ao lema “paz e amor”, “Aconteceu em Woodstock” não se preocupa em contextualizar o que o festival, de fato, representou, nem por que ocorreram essas sequências de shows ou de que maneira todo esse movimento repercutiu na sociedade americana. Denunciando uma visão de inocência preocupante, Schamus perde grande parte do tempo com subtramas desnecessárias, em vez de se concentrar em criar uma atmosfera compatível ao envolvimento dos três dias de Woodstock. Acredito que este seja o principal pecado do filme. No final das contas, essa “homenagem” aos 40 anos do festival – completados em 2009, ano de lançamento do filme – acaba sendo decepcionante, já que nem o evento recebe o destaque que merecia, nem mesmo o que aparenta ser o principal foco da trama – o processo de autodescoberta do jovem protagonista – tem resultado satisfatório, fruto do bombardeio de personagens secundários, aliado à falta de carisma do ator Demetri Martin.


“Aconteceu em Woodstock”, por outro lado, é bem sucedido na recriação da época, adotando locações propícias para a história, bem como o trabalho de destaque do figurinista Joseph G. Aulisi, que auxilia na tentativa de fazer o espectador mergulhar naquele período em pleno estado de erupção. Mas todo esse trabalho acaba sendo um exercício em vão, visto que o filme se torna uma bagunça, que acaba estimulando o desinteresse no espectador em vez de atraí-lo. Forçando uma briga estúpida entre mãe e filho só para criar um momento de conflito no terceiro ato, assim como ignorando completamente as reações dos moradores da pequena Bethel e apresentando resoluções fáceis a situações de extremo embaraço, “Aconteceu em Woodstock” acaba soando frágil e incompleto.

O eficiente diretor taiwanês Ang Lee também não consegue salvar o projeto, emprestando ritmo lento ao filme e peca ao utilizar excessivamente a tela divida em duas, três, até quatro quadros. Essa opção indica a preocupação de mostrar ângulos e percepções diferentes sobre o mesmo acontecimento ao espectador, mas é prosaica e completamente desnecessária em alguns momentos, como a encenação de uma peça de teatro. Favorecido com algumas cenas engraçadas – principalmente as que contam com a presença da fantástica Imelda Staunton, como a mãe rigorosa – no final das contas, “Aconteceu em Woodstock” falha ao não capturar a essência do festival, resultando em um retrato sem alma daquele que foi o maior evento musical da História.


NOTA: 4,0


ACONTECEU EM WOODSTOCK (Taking Woodstock) EUA, 2009
Direção: Ang Lee
Roteiro: James Schamus
Elenco: Demetri Martin, Imelda Staunton, Henry Goodman, Eugene Levy e Liev
Schreiber

9 de mai. de 2010

Cinelista: As 10 Piores Mães do Cinema

Em comemoração ao Dia das Mães, vários cineblogs e alguns sites especializados elaboraram listas com as mães mais queridas da Sétima Arte. O Pós-Première preferiu ir à contramão. Abaixo, está uma lista pessoal das mães mais megeras do cinema, que assombraram sem piedade a vida de suas proles. Foi árdua a tarefa de selecionar e classificar cada uma em decrescente grau de maldade, mas algumas considerações facilitaram o processo:

1 – As mães presentes na lista devem ser um pesadelo para os próprios filhos, exclusivamente – claro, podem ser intragáveis com terceiros, mas o maltrato com a prole é o que conta. Por isso, mães psicopatas como Pamela Vorhees (Betsy Palmer em “Sexta-Feira 13”) e Beverly Sutphin (Kathleen Turner em “Mamãe é de Morte”) não foram inclusas, já que a primeira, a sede de matar é despertada em vingança da morte do filho; enquanto a outra é uma exemplar dona de casa, mas uma serial killer nas horas vagas;

2 – Madrastas não são mães;

3 – A forma como a descarga de ódio refletiu na vida dos filhos. É importante considerar a maneira com que cada um foi afetado pelas agressões das próprias mães, mas sem excluir as barbaridades executadas pelas mesmas. Por exemplo, a famosa Mrs. Robinson (Anne Bancroft) proporcionou “A Primeira Noite de Um Homem” ao namorado da própria filha, mas, embora essa sacanagem seja motivo suficiente para figurá-la na lista, a Robinson-filha (Katharine Ross) demonstra indiferença. Essa é a explicação de sua exclusão.


10) Marietta Fortune – Diane Ladd em “Coração Selvagem” (1990)

Vítima: Lula Fortune (Laura Dern)

Uma das figuras mais ilustres do hall de personagens excêntricos de David Lynch, Mrs. Fortune é uma bruaca sem escrúpulos, lunática e perversa. Rendida à vaidade e exibindo egoísmo extremo, fez uma tentativa frustrada de assassinar o namorado da própria filha, inicialmente seduzindo-o. Não obstante, Marietta foi capaz de contratar assassinos para matar o rapaz, pois teme que ele conte algumas verdades à jovem que envolve o passado pecaminoso da mãe. Mesquinha, ensandecida e com uma aparência assustadora, só faltaram os chifres na foto acima para que Marietta Fortune fosse o diabo em pessoa – e, claro, algumas toneladas de batons vagabundos.

9) Regina Giddens – Bette Davis em “Perfídia” (1941)

Vítima: Alexandra Giddens (Teresa Wright)


Regina Giddens é a personificação da ganância. A mulher é capaz de tudo para ganhar dinheiro, inclusive selar a infelicidade da própria filha ao arranjar seu casamento com o primo ricaço. Sem contar que Mrs. Giddens é uma megera manipuladora e falsa, que detém o controle das pessoas que a rodeiam, desde os irmãos até o marido debilitado, cuja morte é assistida de camarote pela viúva negra. Egocêntrica a ponto de não se preocupar em estabelecer um laço familiar com os seus entes, a mãe assina o termo de condenação da filha à frustração eterna, simplesmente para que suas próprias ambições financeiras sejam atendidas. Regina é o câncer da família Giddens.


8) Mrs. Lift – Anne Ramsey em “Jogue a Mãe do Trem” (1987)

Vítima: Owen Lift (Danny DeVito)

“Idiota”, “gordo estúpido” e “imprestável” é uma pequena amostra de termos utilizados pela lendária Mrs. Lift quando se refere ao filho, além da quantidade de carinhosas frases proferidas com delicadeza (“Você comeu merda?”, “Pain in the ass!”). O pobre Owen carrega o fardo de viver com a mãe até o dia que ela morrer, algo que o infeliz vislumbra constantemente – seja oferecendo-lhe veneno em vez de refrigerante ou atravessando uma tesoura na cabeça da velha intragável. E não é pra menos. Mrs. Lift surge como uma mistura de Gremlins com o Abominável Homem das Neves – clássico episódio de Chapolin –, parecendo disposta a amargar eternamente a vida do filho. “Jogue a Mãe do Trem” é uma versão de comédia de “Pacto Sinistro”, de Hitchcock, mas, embora leve o espectador a gargalhadas, o explorado Owen Lift não vê graça nenhuma.


7) Mrs. Iselin – Angela Lansbury em “Sob o Domínio do Mal” (1962)

Vítima: Raymond Shaw (Laurence Harvey)


“É terrível odiar a própria mãe”, diz Raymond Shaw, o filho amargurado, a um dos personagens do filme sobre a própria genitora. Fria e interesseira, Mrs. Iselin usa abertamente a desgraça alheia para tentar subir na vida, fazendo de tudo para evitar as adversidades que possam atrapalhar a candidatura de seu atual marido à presidência dos Estados Unidos. Nem o filho escapa. Aproveitando-se do infortúnio que acontecera ao rapaz durante a Guerra da Coréia, em 1952, ela o usa como “assassino particular”, a fim de matar os seus principais oponentes políticos, inclusive a mulher que seu filho outrora era apaixonado. Orgulhosa e calculista, Mrs. Iselin é um desperdício de oxigênio.


6) Margaret White – Piper Laurie em “Carrie, a Estranha” (1976)

Vítima: Carrie White (Sissy Spacek)


Obcecada pelas doutrinas religiosas e cega pela fé abundante, Margaret White paga de boazinha e fiel a Deus, mas é o demônio em forma de mulher. Ela atormenta a pobre Carrie em qualquer circunstância, trancafiando-a em um quarto minúsculo para rezar e pedir perdão pelos pecados cometidos. Ignorante a ponto de obrigar a filha a uma sessão de orações incessantes pelo fato de a garota ter menstruado (!), Mrs. White ainda ofende verbalmente e grita com a jovem Carrie, arrasta-a pelos cômodos da casa e, por vezes, espanca a pobre garota. Tudo, segundo ela, em nome de Deus. Perto da mãe, Carrie é a pessoa mais normal do mundo.


5) Charlotte Andergast – Ingrid Bergman em “Sonata de Outono” (1978)

Vítima: Eva (Liv Ullmann)

Durante o filme, não testemunhamos nenhuma das atrocidades cometidas pela megera Charlotte Andergast, uma pianista workaholic e obcecada pela fama, que dedicou sua vida ao trabalho, relegando a família a segundo plano. No entanto, acompanhamos uma lavagem de roupa suja anos depois entre mãe e filha, e notamos o trauma e o abalo psicológico que a rigidez e desaprovações da mãe causaram na pobre Eva. Quem disse que as piores mães são aquelas que agridem fisicamente? Mrs. Andergast pode nunca ter relado a mão na(s) filha(s), mas sua omissão e falha como desempenho materno causou danos irreparáveis na vida dessas mulheres.



4) Vera Cosgrove – Elizabeth Moody em “Fome Animal” (1992)

Vítima: Lionel Cosgrove (Timothy Balme)

Dominadora, folgada, um ser humano sem recuperação social, Mrs. Cosgrove é uma mulher abominável. Ela trata o próprio filho como um escravo ao proibi-lo de se relacionar com outras mulheres para, assim, deter domínio total sobre o rapaz. Porém, quando Lionel combina de se encontrar escondido com uma garota no zoológico, sua mãe acaba descobrindo-o e os seguem. Lá, Mrs. Cosgrove é mordida por uma espécie de macaco-ratazana (!) e vira... uma zumbi! Se antes, ela já repudiava o próprio filho, agora, ele – e qualquer cidadão comum – se transforma em um aperitivo para a morta-viva. Não é (e, talvez, nunca foi) sangue que corre pelas veias de Mrs. Cosgrove.


3) Mary Jones – Mo’Nique em “Preciosa – Uma História de Esperança” (2009)

Vítima: Clareece ‘Precious’ Jones (Gabourey Sidibe)


Poucos personagens no cinema contemporâneo foram tão odiados pelo público como a monstruosa Mary Jones. Traiçoeira e denunciando falta de higiene preocupante, a mulher engana as repartições públicas e sobrevive da renda doada pelo Serviço Social para famílias menos favorecidas. Porém, é o seu relacionamento com a filha que eleva o repúdio sentido pelos espectadores à máxima potência. Mrs. Jones tem inveja da filha, pois observa que a garota tem força de vontade e esperança de sair da situação que se encontra. Para oprimi-la, a mãe tirana atormenta Precious verbalmente e fisicamente, tornando-a sua escrava pessoal, e chegando ao cúmulo de não lhe prestar socorro ao ver a garota sendo estuprada pelo próprio pai.

2) Joan Crawford – Faye Dunaway em “Mamãezinha Querida” (1980)

Vítima: Christina Crawford (Mara Hobel / Diana Scarwid)


Joan Crawford foi uma das grandes estrelas da conhecida Era de Ouro de Hollywood. Vencedora do Oscar, Crawford era uma das atrizes mais queridas pelo público e disputada pelos principais diretores. Dentro de casa, a história já era bem diferente. A situação era tão crítica que sua filha adotiva, Christina, escreveu um livro após a morte da mãe para desmistificar a figura de Crawford, que espancava os filhos e torturava-os psicologicamente, chegando à insanidade de amarrá-los à beira da cama e fazer um circo por conta de um mísero cabide de metal. Há pessoas que discordam abruptamente do filme, considerando-o exagerado, como Bette Davis, rival declarada da atriz. Já outros confirmam a rigidez e perversidade de Joan Crawford, e acrescentam que o maior papel de sua vida foi a própria vida.


1) Norma Bates – Atriz não revelada em “Psicose” (1960)

Vítima: Norman Bates (Anthony Perkins)


“O melhor amigo de um garoto é a própria mãe”. Só quem assistiu a este clássico absoluto de Alfred Hitchcock sabe o poder que Mrs. Bates detinha sobre o pobre Norman.

6 de mai. de 2010

Imagem da Semana - Interlúdio (1946) / Prêmio Dardos


Alfred Hitchcock. Cary Grant. Ingrid Bergman. Alguma coisa poderia sair errado? Acredito em uma possibilidade quase nula para esse projeto ter sido um fracasso – e me refiro à qualidade, não ao sucesso de bilheteria. Porém, levando em conta o projeto anterior do “Mestre do Suspense”, “Spellbound – Quando Fala o Coração”, de 1945, filme que também conta com Bergman, agora ao lado do galã de outrora Gregory Peck, o resultado poderia derivar em outra frustração. É uma tarefa complicada e ingrata designar a melhor película da extensa filmografia de Hitchcock, mas, por hora, eu escolheria o soberbo “Interlúdio”.

A imagem escolhida representa uma das passagens de maior tensão do filme. Supostamente envenenada pelo próprio marido e pela sogra bruaca para que não descubra os golpes de mãe e filho, a personagem de Ingrid Bergman desconhece a origem de suas enfermidades, bem como os espectadores. Assim, com um leve passeio de câmera pelo cômodo da luxuosa mansão, Hitchcock enquadra uma simples xícara de chá posta sobre a mesa, e com seu brilhante domínio narrativo, alerta e revela aos espectadores de que o que contém na louça é a verdadeira fonte do mal estar e indisposição da protagonista.

“Interlúdio” é muito conhecido pelo beijo mais duradouro (e censurado) em close do cinema naquela época. Afinal, o filme é de romance? Tem uma parcela, mas é perfeitamente possível enquadrar essa obra-prima como um drama denso, que revela suspense gradativo em algumas cenas. Prova disso foi a decisão de Hitchcock em aumentar os degraus da escadaria da mesma mansão em uma única passagem do filme, justamente para garantir uma atmosfera mais conflituosa e atingir um tom perfeito de suspense e tensão – e consegue, com louvores.



PRÊMIO DARDOS

Gostaria de agradecer aos meus companheiros de cineblog Reinaldo Glioche (Claquete Cultural) e Madame Lumière por concederem o Selo Dardos para o Pós-Première, que ainda está engatinhando. Fico muito feliz e satisfeito com o reconhecimento. É um incentivo e tanto para continuarmos em frente =)
O Prêmio Dardos é um reconhecimento dos valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.
Uptade: a simpática Daniela Gomes (Lágrimas e Cinema), posteriormente, repassou o Selo Dardos para o Pós-Première. Valeu!

3 de mai. de 2010

Ilha do Medo


Alfred Hitchcock foi apelidado como o “Mestre do Suspense”, já que grande parte de sua filmografia de inquestionável qualidade é direcionada a filmes de espionagens e que envolvem um mistério a ser solucionado. O norte-americano George Romero é mundialmente conhecido como o “Rei dos Zumbis”, uma vez que o filme pelo qual ficou famoso foi o clássico de 1968, “A Noite dos Mortos-Vivos”, que elevou o “zumbi” a status de estrela ao ser figura constante nos filmes do diretor. O freak John Waters é usualmente citado como o “Príncipe do Vômito”, visto que bizarrices grotescas como “Pink Flamingos” ou “Desperate Living” são mesmo de revirar o estômago, além de Waters ser um dos grandes representantes do cinema trash. Outros cineastas não receberam um apelido definitivo, mas são geralmente referenciados quando se trata de um gênero em específico e seus desmembramentos, como o drama introspectivo e existencial de Ingmar Bergman; o engajamento político do grego Constantin Costa-Gavras ou o frescor das comédias adolescentes do recém-falecido John Hughes.


No entanto, há outros diretores que não se atém a um gênero definido, tentam beber de todas as fontes e emprestam a versatilidade como bússolas para suas carreiras. O lendário Stanley Kubrick, por exemplo, já fez do terror à ficção científica. Outro cineasta destacável nesse quesito é Martin Scorsese, cujos projetos transitam entre os épicos (“A Última Tentação de Cristo”, “Kundun”); comédias (“Depois das Horas”, “O Rei da Comédia”); dramas (“Alice Não Mora Mais Aqui”, “A Época da Inocência”), ação, com tendência mafiosa (“Cassino”, “Os Bons Companheiros”, “Os Infiltrados”); cinebiografias (“O Aviador” e “Touro Indomável”); musical (“New York, New York”) e se arriscou até no campo dos documentários musicais, conduzindo projetos como “The Last Waltz” e filmes sobre bandas e cantores de grande representatividade no cenário musical, como The Rolling Stones (“Shine a Light”) e Bob Dylan (“No Direction Home”). Mais uma prova da multifacetagem de Scorsese é o seu último projeto, “Ilha do Medo”, um suspense claustrofóbico, cuja única familiaridade presente no histórico do diretor é com o thriller “Cabo do Medo”, de 1991.

Baseado no livro do grande Dennis Lehane – que já teve todos os seus 3 livros adaptados para o cinema –, “Ilha do Medo” se passa em 1954 e acompanha as investigações do detetive Teddy Daniels (DiCaprio) e seu novo parceiro Chuck (Ruffalo) em uma instituição psiquiátrica, após a fuga de uma paciente consideravelmente perigosa. Localizado em Boston, mas distante da cidade, o hospício é construído em uma ilha de grande dimensão, chamada Shutter Island.

Em certo momento do filme, quando um dos seguranças da instituição apresenta o local aos investigadores, um deles ironiza “Falando assim, até parece que a loucura é contagiosa”. O roteiro escrito por Laeta Kalogridis sempre confronta o espectador a tentar solucionar o mistério envolto naquele espaço, provocando um verdadeiro exercício de adivinhações, que comprova que a afirmação dita pelo personagem do filme é capaz de ultrapassar a telona e atingir os espectadores. “Ilha do Medo” prende a atenção do público desde o início, apresentando, no decorrer do filme, as peças que devem ser encaixadas para concluir o desafiador quebra-cabeça. Exposto de perto à irracionalidade daqueles pacientes, o policial interpretado por DiCaprio começa a questionar a própria sanidade, quando déjà vus e alucinações começam a atormentá-lo com maior frequência, frutos de seu passado trágico – a mulher foi morta em um incêndio e as constantes lembranças dos assassinados nos campos de concentração nazistas, que presenciou enquanto lutava na Segunda Guerra Mundial.

Quando passamos a testemunhar os devaneios do protagonista e seus intensos pesadelos, o espectador é imerso em um mar de possibilidades e, por mais que muitos acusem o filme de ser previsível, o bombardeio de suscitações é inevitável, já que algumas cenas anulam as demais – um ponto destacável no roteiro de Kalogridis, que é auxiliado pelo brilhante trabalho de edição de Thelma Schoonmaker, parceira habitual do diretor. No entanto, o roteiro sofre por apresentar situações relativamente inverossímeis, que acabam esbarrando na “loucura” como única explicação/ desculpa para as algumas ações pouco críveis, como a cena em que Teddy escala um penhasco ou no momento em que invade um dos compartimentos do hospício. Outro fator que pode incomodar algumas pessoas é o cliché terrível de acordar de um pesadelo e saltar instintivamente da cama, e isso acontece repetidas vezes no filme.


Revelando um fascinante exercício de estilo, a condução de Martin Scorsese é um deleite à parte. Recheado de cenas bem arquitetadas, como o fabuloso travelling que acompanha os investigadores chegando à instituição médica ou os closes angustiantes da “fonte de ratos”, o filme ganha contornos adicionais que enriquecem a narrativa, alimentando uma atmosfera que talvez seja até mais importante do que a própria história que conta – aliás, é abissal a diferente percepção atribuída ao filme no início e no desfecho. Se já não bastasse, “Ilha do Medo” é esteticamente primoroso. Os diferentes ambientes e situações requerem variedades de iluminações. Desde os tons mais amarelados que envolvem os delírios do protagonista até a dureza do cinza, representada nas cenas mergulhadas em névoa ou nos aflitivos momentos que as batalhas da Segunda Guerra Mundial são relembradas, a fotografia representa grande valor ao entendimento das passagens narrativas, e sua alteração é orquestrada com maestria pelo diretor de fotografia Robert Richardson – também, parceiro habitual do Scorsese.

“Ilha do Medo” ainda é beneficiado por um elenco estelar. Ben Kingsley interpreta o diretor da instituição com a dubiedade oportuna para o personagem, que se revela um homem que calcula meticulosamente cada gesto antes de torná-lo prático; o promissor Mark Ruffalo encarna um sujeito maleável e simpático com naturalidade, representando o braço direito do protagonista; já as jovens talentosas Michelle Williams e Emily Mortmer se revelam eficazes com o pouco tempo que têm em cena, ao passo que somos presenteados com as curtas, porém fantásticas, contribuições do veterano Max Von Sydow em um diálogo revelador (“Você possui métodos de defesa impressionantes”) e da sempre competente Patricia Clarkson. Porém, na quarta parceria com Scorsese, Leonardo DiCaprio é o grande destaque no campo das atuações, interpretando um personagem difícil e extremamente complexo (e complexado), o ator se entrega totalmente ao papel, que indica possivelmente a sua melhor performance no cinema até agora – e isso não é pouca coisa.

Para alguns foi um tanto surpreendente, para outros pecou pela obviedade, mas fato é que “Ilha do Medo” garante momentos de tensão que, independente de sua resolução, é uma experiência instigante e desafiadora. Muito compensador ser levado por um filme dessa maneira.


NOTA: 8,0


ILHA DO MEDO (Shutter Island) EUA, 2010
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Laeta Kalogridis
Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Michelle Williams, Max Von Sydow, Emily Mortmer e Patricia Clarkson